{"id":4903,"date":"2014-07-01T11:50:42","date_gmt":"2014-07-01T14:50:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=4903"},"modified":"2014-07-01T11:52:56","modified_gmt":"2014-07-01T14:52:56","slug":"heloisa-pait-a-greve-um-ritual-do-estamento-universitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/heloisa-pait-a-greve-um-ritual-do-estamento-universitario\/","title":{"rendered":"Heloisa Pait: A Greve &#8211; Um Ritual do Estamento Universit\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/spartan-boy.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-4904\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/spartan-boy.jpg\" alt=\"spartan-boy\" width=\"360\" height=\"243\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/spartan-boy.jpg 360w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/spartan-boy-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 85vw, 360px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Comparto o texto abaixo de Helosia Pait, Professora Assistente do Departamento de Sociologia e Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais da UNESP &#8211; Mar\u00edlia:<\/em><\/p>\n<p><strong>A Greve &#8211; Um Ritual do Estamento Universit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>A greve nas universidades p\u00fablicas \u00e9 um ritual onde a comunidade acad\u00eamica abandona, pela coer\u00e7\u00e3o se necess\u00e1rio, a pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser da universidade. \u00c9 nela que se refor\u00e7a o sentimento grupal do estamento universit\u00e1rio, \u00e0 exclus\u00e3o de outras obriga\u00e7\u00f5es, desejos e rela\u00e7\u00f5es que os membros da comunidade acad\u00eamica possam ter: pesquisar, aprender, dialogar com as novas gera\u00e7\u00f5es, servir \u00e0 sociedade e, de forma geral, construir um mundo melhor atrav\u00e9s das id\u00e9ias.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o em greves funciona como um tributo pago ao grupo em troca do atestado de pertencimento, uma presen\u00e7a, de cora\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, em rituais expiat\u00f3rios coletivos. As greves s\u00e3o peri\u00f3dicas, trazendo para dentro do estamento novos professores e estudantes, e alienando os que por uma raz\u00e3o ou outra n\u00e3o conseguem se agregar ao grupo. O estamento brasileiro, na defini\u00e7\u00e3o de Faoro, \u00e9 o grupo coeso mas male\u00e1vel, que incrustado no Estado o usa para proveito pr\u00f3prio, estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o de tutela com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade como um todo.<\/p>\n<p>O analista n\u00e3o deve perder muito tempo buscando compreender a ideologia do movimento grevista, pois sua \u00fanica caracter\u00edstica importante \u00e9 que seja irrelevante como ferramenta de an\u00e1lise social e que, portanto, nada produtivo saia dela, principalmente o di\u00e1logo com o todo social. Caso, de dentro de sua ideologia, se resgatem id\u00e9ias \u00fateis, o estamento ir\u00e1 buscar outras formas de n\u00e3o-pensar. Tenha-se em mente que a ideologia real do estamento \u00e9 sua pr\u00f3pria manuten\u00e7\u00e3o enquanto grupo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por conservadorismo ou mais dedica\u00e7\u00e3o, por parte de professores individuais, ao prazer de ensinar, que as escolas tradicionais da USP rejeitam a greve. S\u00e3o Francisco, Pinheiros e Escola Polit\u00e9cnica t\u00eam seus rituais de passagem pr\u00f3prios, sua identidade constru\u00edda de forma independente de qualquer \u00f3rg\u00e3o sindical, que \u00e9 quem d\u00e1 voz ao estamento, sem t\u00ea-lo criado, obviamente. As escolas profissionais tem um lugar simb\u00f3lico na sociedade que prescinde de pol\u00eamicas peri\u00f3dicas ou da greve.<\/p>\n<p>O movimento grevista apela para o discurso \u00e9tico na intimida\u00e7\u00e3o de professores e alunos que querem aprender, ensinar, ler, escrever, examinar, pesquisar e de modo geral realizar as tarefas inclu\u00eddas na atividade que por livre e espont\u00e2nea vontade escolheram para suas vidas. Ensinar \u00e9 ser anti-\u00e9tico ou mesmo louco: a \u00fanica norma permitida \u00e9 a que justifica processos de inclus\u00e3o e exclus\u00e3o do pr\u00f3prio estamento. De fato, h\u00e1 uma certa insensatez em se contrapor aos grupos que tomam decis\u00f5es em conselhos acad\u00eamicos, pois a chance de sair prejudicado \u00e9 real, mesmo que esse discurso, fora do mundo universit\u00e1rio, n\u00e3o fa\u00e7a sentido algum.<\/p>\n<p>As bandeiras do estamento s\u00e3o menos relevantes que a agita\u00e7\u00e3o em si, mas ele se rebela contra pr\u00e1ticas que possam coloc\u00e1-lo em perigo, reduzindo seu controle monopolista sobre a institui\u00e7\u00e3o, tais como o uso de novas ferramentas de aprendizado, a transpar\u00eancia administrativa, a internacionaliza\u00e7\u00e3o dos campi, a flexibiliza\u00e7\u00e3o curricular e, preventivamente, o bom senso aplicado em inst\u00e2ncias diversas. Ele busca refor\u00e7ar controles de entrada em processos v\u00e1rios de admiss\u00e3o, muitas vezes criando escassez artificial e reduzindo o benef\u00edcio p\u00fablico do investimento na institui\u00e7\u00e3o, mas aumentando o valor de a ele se integrar.<\/p>\n<p>Na medida em que pode ser burocratizado e domesticado, o produtivismo acad\u00eamico \u2013\u00a0as exig\u00eancias quantitativas de publica\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o apresenta grandes desafios ao estamento. O importante \u00e9 que n\u00e3o se crie uma elite intelectual leg\u00edtima, que obtenha a admira\u00e7\u00e3o de jovens pesquisadores e possa portanto competir com o estamento como lideran\u00e7a de fato \u00e9tica.<\/p>\n<p>Os alunos buscam sofregamente reproduzir a pr\u00e1tica estamental que se origina do corpo docente, e isso \u00e9 o mais triste de tudo, pois esse estamento se baseia em certa medida no monop\u00f3lio do saber ou, melhor dizendo, no monop\u00f3lio das condi\u00e7\u00f5es para a busca do saber, que at\u00e9 muito recentemente a universidade detinha. Hoje, com a brutal transforma\u00e7\u00e3o na distribui\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e nas possibilidades de di\u00e1logo abertas pelos novos meios de comunica\u00e7\u00e3o, esse monop\u00f3lio inexiste.<\/p>\n<p>A n\u00e3o ser que busquem por conta pr\u00f3pria alternativas realizadoras nas artes, nos neg\u00f3cios, e nas novas esferas de a\u00e7\u00e3o que a sociedade em transforma\u00e7\u00e3o lhes apresenta, ou seja, que toquem suas vidas adiante alheios ao ensino formal, resta aos alunos lutar portanto para construir um estamento que ter\u00e1 bases materiais muito fr\u00e1geis. A luta do estamento universit\u00e1rio em geral \u00e9 um luta ingl\u00f3ria, pois seja pela crescente demanda por transpar\u00eancia, seja pelas mudan\u00e7as na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, cada vez mais seu lugar estar\u00e1 amea\u00e7ado. E talvez da\u00ed a viol\u00eancia recente nos campi de nossas universidades estaduais. As ocupa\u00e7\u00f5es estudantis s\u00e3o a bucha de canh\u00e3o do estamento com aposentadoria integral.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma luta de classes, nem ideol\u00f3gica, e nem gerencial, ou seja, das reitorias contra as unidades. Pois o estamento, assim como o desejo de aprender, est\u00e1 em todos os lugares e, para usar um termo querido a ele, categorias. A sociedade deve exigir o fim da greve, mas isso n\u00e3o levar\u00e1 a nada se n\u00e3o exigir o fim do pr\u00f3prio estamento, o que \u00e9 muito mais dif\u00edcil: o fim da apropria\u00e7\u00e3o da universidade p\u00fablica por um grupo particular.<\/p>\n<p>A sociedade deve, para usar uma palavra na moda, ocupar a universidade p\u00fablica. Deve usar as bibliotecas, fazer cursos de extens\u00e3o, usar os espa\u00e7os que s\u00e3o p\u00fablicos, pagos por ela apenas. Ela deve se inteirar do que n\u00f3s fazemos academicamente e tamb\u00e9m gerencialmente, deve estar presente nos concursos para professor, que s\u00e3o formalmente p\u00fablicos. Ela deve, obviamente, exigir transpar\u00eancia completa de gastos. Adote um professor, venha visit\u00e1-lo e perguntar de seus projetos em andamento.<\/p>\n<p>Essa atitude generosa da sociedade vai dar \u00e0 universidade um novo sentido, um senso de pertencimento que reduzir\u00e1 o apelo grupal do estamento. Venham mesmo: imprensa, empresas, aposentados, professores de particulares, funcion\u00e1rios das prefeituras, usem-nos. Pessoas comuns em busca de conhecimento. Escrevam-nos, perguntem-nos. Venham ver nossos cursos, na gradua\u00e7\u00e3o e na p\u00f3s, a casa \u00e9 sua!<\/p>\n<p>\u00c9 a abertura \u00e0 sociedade que vai restringir a a\u00e7\u00e3o do estamento universit\u00e1rio, transformar sindicatos em \u00f3rg\u00e3os de verdadeira representa\u00e7\u00e3o laboral, que hoje n\u00e3o s\u00e3o, e, fundamentalmente, fazer com que a comunidade universit\u00e1ria expresse livremente os valores humanos mais profundos, como a amizade e a solidariedade, forjadas no dia-a-dia da busca coletiva do saber, do fazer e do bem viver, que \u00e9 nossa raz\u00e3o de ser<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comparto o texto abaixo de Helosia Pait, Professora Assistente do Departamento de Sociologia e Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais da UNESP &#8211; Mar\u00edlia: A Greve &#8211; Um Ritual do Estamento Universit\u00e1rio A greve nas universidades p\u00fablicas \u00e9 um ritual onde a comunidade acad\u00eamica abandona, pela coer\u00e7\u00e3o se necess\u00e1rio, a pr\u00f3pria raz\u00e3o de &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/heloisa-pait-a-greve-um-ritual-do-estamento-universitario\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Heloisa Pait: A Greve &#8211; Um Ritual do Estamento Universit\u00e1rio&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26,11],"tags":[],"class_list":["post-4903","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencias-sociais","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4903","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4903"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4903\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4908,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4903\/revisions\/4908"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}