{"id":5331,"date":"2015-11-22T09:32:18","date_gmt":"2015-11-22T12:32:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=5331"},"modified":"2019-02-08T05:07:52","modified_gmt":"2019-02-08T08:07:52","slug":"joao-batista-oliveira-curriculo-nacional-ruim-sem-ele-pior-com-ele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/joao-batista-oliveira-curriculo-nacional-ruim-sem-ele-pior-com-ele\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Batista Oliveira: Curr\u00edculo Nacional \u2013 ruim sem ele, pior com ele"},"content":{"rendered":"<p>O jornal <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>\u00a0publicou em 17 de novembro o artigo abaixo de Jo\u00e3o Batista Araujo e Oliveira<\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><strong>Curr\u00edculo Nacional \u2013 ruim sem ele, pior com ele<\/strong><\/div>\n<p>Este artigo \u00e9 ao mesmo tempo um alerta e uma convoca\u00e7\u00e3o. O alerta est\u00e1 no t\u00edtulo. Para fundamentar a convoca\u00e7\u00e3o, ao final, preciso, antes, apresentar os argumentos. Fa\u00e7o-o comparando a experi\u00eancia dos pa\u00edses onde a educa\u00e7\u00e3o funciona com a proposta rec\u00e9m-apresentada pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC). O limitado espa\u00e7o for\u00e7a a concis\u00e3o, para o que conto com a benevol\u00eancia do leitor.<\/p>\n<p>Um novo curr\u00edculo se faz ao longo de anos, dois a tr\u00eas pelo menos. Aqui se fez em inexplic\u00e1veis dois meses. Um curr\u00edculo se faz com debate. Muito debate. Muita discuss\u00e3o. Aqui n\u00e3o houve nada, parece que somos todos como Forest Gump. No m\u00e1ximo, abriu-se a possibilidade de sugest\u00f5es via e-mail para um buraco negro. Universidades e associa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, assim como as ONGs, omitiram-se.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, os convocados para elaborar e discutir as propostas normalmente s\u00e3o pesquisadores e profissionais das \u00e1reas espec\u00edficas, especialistas em curr\u00edculo e estudiosos do desenvolvimento e da aprendizagem. Eles assinam o documento, at\u00e9 mesmo registrando diverg\u00eancias. Aqui temos um documento \u00f3rf\u00e3o e an\u00f4nimo, de um consenso e uma uniformidade t\u00edpicos do pensamento \u00fanico. O MEC lava as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Um curr\u00edculo se concentra no essencial que todos devem aprender. Aqui n\u00e3o sabemos sequer se o proposto esgota os tais 60% da carga hor\u00e1ria ou se \u00e9 algo a ser trocado ou ampliado. No geral, um curr\u00edculo \u00e9 nacional. Aqui n\u00e3o sabemos a quem compete definir os conte\u00fados dos tais 40% restantes<\/p>\n<p>Um curr\u00edculo apresenta articula\u00e7\u00e3o expl\u00edcita entre os n\u00edveis de ensino. N\u00e3o \u00e9 o nosso caso. Todos os pa\u00edses t\u00eam curr\u00edculos diferenciados para o ensino m\u00e9dio; de novo, aqui n\u00e3o. Nem sequer se sabe se a forma\u00e7\u00e3o profissional estaria inclu\u00edda nos 40%.<\/p>\n<p>Um curr\u00edculo \u00e9 feito de forma articulada com a forma\u00e7\u00e3o de professores e com a capacidade dos professores existentes de entend\u00ea-lo e de o p\u00f4r em pr\u00e1tica. Aqui se imagina um professor que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Em outros pa\u00edses o curr\u00edculo \u00e9 tamb\u00e9m pensado para tornar vi\u00e1vel a produ\u00e7\u00e3o de livros e materiais did\u00e1ticos com diferentes perspectivas e abordagens. No nosso h\u00e1 forte amarra\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, o que tornar\u00e1 os livros did\u00e1ticos politicamente corretos, mas com pouca orienta\u00e7\u00e3o sobre o que deve ser ensinado e aprendido.<\/p>\n<p>Curr\u00edculos s\u00e3o pensados em articula\u00e7\u00e3o com propostas de avalia\u00e7\u00e3o, inclusive internacionais, como as do TIMSS e do Pisa. Se vingar a proposta do MEC, nosso desempenho nesses testes dever\u00e1 piorar.<\/p>\n<p>Finalmente, um curr\u00edculo deve ser avaliado a partir de tr\u00eas crit\u00e9rios: foco, rigor e coer\u00eancia. A maioria das propostas para as diferentes disciplinas n\u00e3o passa nesse teste.<\/p>\n<p>Mas, afinal, o que h\u00e1 de t\u00e3o ruim nessa proposta? Exemplos ajudam o leitor a avaliar o monstrengo diante do qual nos encontramos. Na educa\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 fundamental assegurar o pleno desenvolvimento das crian\u00e7as, com base no que sabemos sobre a ci\u00eancia do desenvolvimento humano. Mas a proposta n\u00e3o trata disso, fala de direitos \u00e9ticos, pol\u00edticos e est\u00e9ticos. Educa\u00e7\u00e3o infantil s\u00f3 faz diferen\u00e7a, especialmente para os mais pobres, com curr\u00edculos rigorosos. Quem cuidar\u00e1 isso? Munic\u00edpios? Escolas? Cada educador? A proposta nem sequer fala em prepara\u00e7\u00e3o para alfabetizar. E confunde a forma de aprender das crian\u00e7as \u2013 brincar \u2013 com objetivos, conte\u00fados ou direitos. Muita ideologia para pouca psicologia.<\/p>\n<p>A alfabetiza\u00e7\u00e3o continua maltratada. Caligrafia n\u00e3o foi inclu\u00edda, quando se sabe de seu papel fundamental no processo de aprendizagem. Digita\u00e7\u00e3o, sim! Bem-vindo \u00e0 Finl\u00e2ndia! Flu\u00eancia de leitura \u00e9 tema ignorado na proposta.<\/p>\n<p>O termo alfabetiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 definido de maneira correta e no seu sentido pr\u00f3prio, mas \u00e9 usado de forma gen\u00e9rica e in\u00fatil, para falar em alfabetiza\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica, cient\u00edfica ou est\u00e9tica. Muito engra\u00e7adinho, talvez, mas apenas isso. J\u00e1 o letramento perdeu seu car\u00e1ter de g\u00eameo siam\u00eas da alfabetiza\u00e7\u00e3o, mas agora se aplica a todas as disciplinas. Academia Brasileira de Letras, vinde em nosso aux\u00edlio!<\/p>\n<p>O curr\u00edculo de L\u00edngua Portuguesa continua a tradi\u00e7\u00e3o dos par\u00e2metros curriculares nacionais (PCNs) de privilegiar os usos sociais da l\u00edngua. S\u00f3 que agora os \u201cusos sociais\u201d reinam absolutos; a gram\u00e1tica deve ser ensinada quando e como o professor julgar relevante. Isso \u00e9 p\u00f3s-moderninho? De tudo, a proposta da L\u00edngua Portuguesa \u00e9 a mais tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>O curr\u00edculo de Matem\u00e1tica \u00e9 melhorzinho, mas n\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o para ensinar e aprender fatos fundamentais: a velha, boa e essencial tabuada, nem as propriedades das opera\u00e7\u00f5es \u2013 fragmentos disso aparecem no s\u00e9timo ano. H\u00e1 t\u00f3picos introduzidos muito cedo, como os problemas orais, e outros muito tarde, como o uso da reta numerada.<\/p>\n<p>O curr\u00edculo de ci\u00eancias tamb\u00e9m sucumbiu \u00e0 conveni\u00eancia dos usos sociais. Em vez de se ancorar em poucos conceitos cient\u00edficos s\u00f3lidos, a proposta devaneia num parque tem\u00e1tico. Ter opini\u00e3o \u00e9 preciso, formular hip\u00f3teses e desenvolver esp\u00edrito cr\u00edtico, idem. Mas compreender conceitos cient\u00edficos com rigor n\u00e3o \u00e9 preciso.<\/p>\n<p>Para ilustrar um de in\u00fameros problemas ideol\u00f3gicos, escolho a quest\u00e3o do respeito dos \u201csaberes\u201d do aluno. Na proposta isso \u00e9 supervalorizado em detrimento da fun\u00e7\u00e3o da escola, que \u00e9 a de ensinar, e da centralidade de uma abordagem pedag\u00f3gica que ajude o aluno a identificar, justificar e aprender a partir do erro. H\u00e1 imensa literatura sobre estrat\u00e9gias eficazes para identificar e lidar com concep\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas e cient\u00edficas equivocadas ou com erros ortogr\u00e1ficos ou l\u00f3gicos. Esse \u00e9 um dos in\u00fameros conceitos politicamente corretos que constituem a espinha dorsal do novo curr\u00edculo.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 feliz com essa proposta, manifeste-se. Ouse. Procure a m\u00eddia ou as ONGs, a Academia Brasileira de Ci\u00eancias ou at\u00e9 escreva para o ministro da Educa\u00e7\u00e3o. Pe\u00e7a que ele esclare\u00e7a as quest\u00f5es levantadas neste artigo. Provoque o debate. No m\u00ednimo, <a href=\"mailto:joao@alfaebeto.org.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escreva para o autor<\/a>, dando ideias e contribui\u00e7\u00f5es para o debate<\/p>\n<p>* JO\u00c3O BATISTA ARA\u00daJO E OLIVEIRA \u00c9 PRESIDENTE DO INSTITUTO ALFA E BETO<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornal O Estado de S\u00e3o Paulo\u00a0publicou em 17 de novembro o artigo abaixo de Jo\u00e3o Batista Araujo e Oliveira Curr\u00edculo Nacional \u2013 ruim sem ele, pior com ele Este artigo \u00e9 ao mesmo tempo um alerta e uma convoca\u00e7\u00e3o. O alerta est\u00e1 no t\u00edtulo. 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