{"id":5381,"date":"2016-02-08T16:18:32","date_gmt":"2016-02-08T19:18:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=5381"},"modified":"2016-02-08T17:32:31","modified_gmt":"2016-02-08T20:32:31","slug":"ideologia-politica-e-corrupcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/ideologia-politica-e-corrupcao\/","title":{"rendered":"Ideologia, pol\u00edtica e corrup\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-5382\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/corrruption.jpg\" alt=\"corrruption\" width=\"432\" height=\"247\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/corrruption.jpg 700w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/corrruption-420x240.jpg 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 432px) 85vw, 432px\" \/>Com as revela\u00e7\u00f5es que se sucedem sobre os esquemas de corrup\u00e7\u00e3o nos governos do PT, chama a aten\u00e7\u00e3o o fato de que ainda existem tantos, sobretudo em alguns meios intelectuais, que continuam\u00a0apoiando o\u00a0governo com diferentes argumentos, que v\u00e3o desde que tudo n\u00e3o passa de inven\u00e7\u00f5es (o argumento da nega\u00e7\u00e3o), ou que s\u00e3o todos pequenos pecados de menor import\u00e2ncia se comparados com tudo o que foi feito de bom nos \u00faltimos anos (o argumento ideol\u00f3gico) at\u00e9 que na verdade todos s\u00e3o assim, e ent\u00e3o n\u00e3o tem problema (o argumento c\u00ednico).<\/p>\n<p>O argumento da nega\u00e7\u00e3o \u00e9 um velho conhecido da psicologia social, com o nome de &#8220;disson\u00e2ncia cognitiva&#8221;. As pessoas se sentem mal quando t\u00eam que conviver com cren\u00e7as, convic\u00e7\u00f5es e realidades contradit\u00f3rias, e resolvem o problema buscando ignorar ou reinterpretar as ideias ou dados da realidade que mais incomodam. Todos fazemos isto de alguma forma, e o exemplo mais \u00f3bvio \u00e9 o das pessoas religiosas que t\u00eam que conciliar a cren\u00e7a na bondade de Deus com a maldade do mundo. Existem v\u00e1rias maneiras de reduzir o inc\u00f4modo, desde teorias complicadas at\u00e9 o argumento paranoico, que descarta todas as informa\u00e7\u00f5es negativas como obras ou mentiras de uma conspira\u00e7\u00e3o (do diabo, das elites, do Banco Mundial, da imprensa burguesa, dos judeus, dos comunistas, ou de quem seja). No extremo, a nega\u00e7\u00e3o pode levar a situa\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas como a recusa em olhar para os dados do mundo real ou o recurso \u00e0 viol\u00eancia contra os supostos inimigos.<\/p>\n<p>O argumento ideol\u00f3gico pode ser entendido como uma das maneiras de lidar com a disson\u00e2ncia cognitiva, e um exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 o dos comunistas hist\u00f3ricos diante das revela\u00e7\u00f5es sobre os crimes do stalinismo em diversos momentos \u2013 os julgamentos de Moscou dos anos 30, o pacto com Hitler nos anos 40, o antissemitismo nos 50, e o Gulag em todo este tempo, culminando com o\u00a0fim do &#8220;socialismo real&#8221;. Eram\u00a0fatos inadmiss\u00edveis para tantos que passaram a vida criticando e lutando contra a explora\u00e7\u00e3o \u00a0e os males do capitalismo e vendo na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica o exemplo de uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria. A primeira rea\u00e7\u00e3o era de nega\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 tudo propaganda do inimigo, parte da luta de classes, ou da guerra fria. A segunda era\u00a0colocar as informa\u00e7\u00f5es inc\u00f4modas em um canto isolado \u2013 \u00a0\u00e9 verdade, mas foram alguns erros, &#8220;mal feitos&#8221; e &#8220;desvios&#8221;, problemas do &#8220;culto \u00e0 personalidade&#8221;, n\u00e3o foi tanto assim, foi a culpa de algumas ovelhas negras, mas nada que coloque em quest\u00e3o as conquistas e as convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas de tantos anos. \u00a0Outros reagiram de forma extrema, pulando para o outro lado \u2013 o capitalismo na verdade s\u00f3 fez o bem, o colonialismo foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na \u00c1frica e \u00c1sia, e o mal absoluto \u00e9 o comunismo.<\/p>\n<p>O argumento c\u00ednico \u00e9 que\u00a0ningu\u00e9m \u00e9 melhor do que ningu\u00e9m, sempre foi assim, no Brasil e no resto do mundo. Todos roubam, mentem e se aproveitam das situa\u00e7\u00f5es de poder, e o m\u00e1ximo que se pode fazer \u00e9 acreditar que &#8220;nossos&#8221; ladr\u00f5es tamb\u00e9m fazem outras coisas que consideramos boas \u2013 como reduzir a pobreza, ou desenvolver a economia, ou dar poder a determinados setores dos quais gostamos, ou participamos.<\/p>\n<p>O argumento c\u00ednico \u00e9 sem d\u00favida melhor do que os outros dois, porque n\u00e3o deixa de olhar a realidade, e substitui a ideologia pelo pragmatismo. Ele se torna ainda mais forte entre n\u00f3s pelo fato de que o sistema pol\u00edtico-eleitoral brasileiro sempre foi financiado seja por interesses privados, seja com recursos p\u00fablicos manipulados pelos que est\u00e3o no poder, e os limites entre o apoio desinteressado e leg\u00edtimo e o apoio muito interessado s\u00e3o muito dif\u00edceis de ver. Quem for\u00a0puro que atire a primeira pedra.<\/p>\n<p>Mas \u00e9, tamb\u00e9m, um argumento falacioso, porque generaliza e \u00e9 superficial. Embora exista corrup\u00e7\u00e3o em toda parte, e que ningu\u00e9m seja santo, nem todos os pa\u00edses e nem todas as pessoas s\u00e3o igualmente corruptas, e \u00e9 certamente melhor viver em uma sociedade com menos do que com mais corrup\u00e7\u00e3o, assim como \u00e9 melhor viver em uma sociedade com menos do que com mais crime e viol\u00eancia. Mais ainda, a hist\u00f3ria mostra que os regimes aonde predomina o imp\u00e9rio da lei, e n\u00e3o a vontade dos que est\u00e3o no governo, s\u00e3o em geral muito mais bem-sucedidos economicamente, e mais igualit\u00e1rios, do que os que toleram a corrup\u00e7\u00e3o em nome de ideologias, de supostas causas sociais, ou da tese c\u00ednica de que ningu\u00e9m \u00e9 culpado, porque &#8220;todo mundo faz&#8221;. Os crimes de uns, se houver, n\u00e3o podem jamais justificar os crimes dos outros.<\/p>\n<p>Como explicar as diferen\u00e7as, e como reduzir a corrup\u00e7\u00e3o?\u00a0 N\u00e3o existem respostas simples, mas muitas indica\u00e7\u00f5es de caminhos a seguir. Embora existam exemplos de democracias corruptas e ditaduras relativamente honestas, o potencial de corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 muito maior nos regimes pol\u00edticos fechados e intervencionistas, em que a distribui\u00e7\u00e3o de recursos e privil\u00e9gios se d\u00e1 de forma autocr\u00e1tica, quando o governo decide favorecer determinados grupos para receber financiamentos, subs\u00eddios e contratos para a realiza\u00e7\u00e3o de obras p\u00fablicas por crit\u00e9rios pouco expl\u00edcitos. Uma imprensa aberta a vigilante limita a possibilidade de conluios deste tipo, e favorece a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas mais abertas e competitivas. A pol\u00eamica ideol\u00f3gica entre \u201cestado m\u00ednimo\u201d vs. \u201cestado forte\u201d n\u00e3o capta a verdadeira natureza dos problemas de corrup\u00e7\u00e3o associados ao setor p\u00fablico. \u00c9 poss\u00edvel ter um estado enxuto e eficiente, capaz de implementar as pol\u00edticas que interessam \u00e0 sociedade, assim como estados inchados e infiltrados por todo tipo de interesses privados e conluios corruptos. A organiza\u00e7\u00e3o do sistema partid\u00e1rio e eleitoral pode fazer muita diferen\u00e7a: para reduzir a corrup\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio aproximar ao m\u00e1ximo os mandatos pol\u00edticos \u00e0s prefer\u00eancias dos eleitores, e reduzir ao m\u00ednimo a possibilidade de captura dos l\u00edderes pol\u00edticos por grupos de interesse ocultos. Mecanismos para isto incluem a exig\u00eancia de fidelidade partid\u00e1ria, a transpar\u00eancia no financiamento de campanhas, proporcionalidade correta na representatividade no legislativo, e outras medidas no mesmo sentido.<\/p>\n<p>A atual crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica brasileira, se nos servir de algo, deve nos ajudar a entender que o pa\u00eds precisa de reformas econ\u00f4micas, pol\u00edticas e institucionais muito mais profundas do que a simples substitui\u00e7\u00e3o de um partido por outro, ou de uma ideologia por outra no governo. \u00a0O que precisamos \u00e9 identificar e apoiar, entre as diferentes correntes e lideran\u00e7as pol\u00edticas, aquelas que sejam \u00a0menos dependentes dos recursos da corrup\u00e7\u00e3o e se mostrem mais capazes de entender os problemas e liderar as transforma\u00e7\u00f5es, e aquelas sobre as quais n\u00e3o h\u00e1 como ter mais esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Para quem quiser se aprofundar, escrevi dez anos atr\u00e1s um texto mais amplo sobre o tema, <a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/CoesaoSocialDemocraciaECorrupcao\" target=\"_blank\">&#8220;Coes\u00e3o Social, Democracia e Corrup\u00e7\u00e3o<\/a>&#8220;, que pode ser baixado da Internet.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com as revela\u00e7\u00f5es que se sucedem sobre os esquemas de corrup\u00e7\u00e3o nos governos do PT, chama a aten\u00e7\u00e3o o fato de que ainda existem tantos, sobretudo em alguns meios intelectuais, que continuam\u00a0apoiando o\u00a0governo com diferentes argumentos, que v\u00e3o desde que tudo n\u00e3o passa de inven\u00e7\u00f5es (o argumento da nega\u00e7\u00e3o), ou que s\u00e3o todos pequenos pecados &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/ideologia-politica-e-corrupcao\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Ideologia, pol\u00edtica e corrup\u00e7\u00e3o&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[37,21],"tags":[],"class_list":["post-5381","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-democraciademocracy","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5381","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5381"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5381\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5386,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5381\/revisions\/5386"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5381"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5381"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5381"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}