{"id":5568,"date":"2016-08-31T07:01:51","date_gmt":"2016-08-31T10:01:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=5568"},"modified":"2016-08-31T12:32:26","modified_gmt":"2016-08-31T15:32:26","slug":"os-dois-senhores-da-educacao-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/os-dois-senhores-da-educacao-media\/","title":{"rendered":"Os dois senhores da educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia"},"content":{"rendered":"<p><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-5569\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/matthew-624-10-03-13.jpg\" alt=\"matthew-624-10-03-13\" width=\"300\" height=\"300\" \/>O Jornal <span style=\"text-decoration: underline;\">Folha de S\u00e3o Paulo<\/span>\u00a0publica hoje, 31 de agosto de 2016, um rico caderno \u00a0especial sobre o tema do ensino m\u00e9dio e t\u00e9cnico no Brasil, para o qual contribui com o texto abaixo:<\/em><\/p>\n<p><strong>Os Dois Senhores da Educa\u00e7\u00e3o M\u00e9dia<\/strong><\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, no mundo de hoje, \u00e9 chamada a atender a dois senhores: o da qualifica\u00e7\u00e3o para as atividades profissionais e acesso ao mercado de trabalho, e o da equidade social.<\/p>\n<p>No passado, a quest\u00e3o da equidade n\u00e3o se colocava: os jovens das fam\u00edlias mais ricas estudavam nas escolas de elite para as profiss\u00f5es de mais prest\u00edgio e mais bem pagas, e os mais pobres, ou n\u00e3o estudavam, ou iam para cursos pr\u00e1ticos onde eram preparados para empregos de menor prest\u00edgio e baixos sal\u00e1rios. O Brasil, nos anos 40, que at\u00e9 ent\u00e3o mal educava suas elites, tentou copiar o modelo europeu, dividindo a educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia entre cursos gerais, para os poucos que se preparavam para as universidades, e cursos profissionais (industriais, agr\u00edcolas, comerciais) para os filhos dos trabalhadores. Na Europa, com isto, foi poss\u00edvel ampliar a educa\u00e7\u00e3o e criar um operariado competente que se beneficiou do crescimento da economia, sem, entretanto, eliminar as diferen\u00e7as sociais entre os dois tipos de educa\u00e7\u00e3o. No Brasil, a educa\u00e7\u00e3o profissional de n\u00edvel m\u00e9dio estagnou, e os empres\u00e1rios, com fortes subs\u00eddios, tomaram em suas m\u00e3os a aprendizagem dos trabalhadores com o Sistema &#8220;S&#8221;.<\/p>\n<p>No Brasil e no mundo, agora, as coisas mudaram. Na Europa, o setor industrial diminuiu, os empregos para as qualifica\u00e7\u00f5es profissionais mais simples se reduziram, e a divis\u00e3o r\u00edgida entre educa\u00e7\u00e3o geral e educa\u00e7\u00e3o profissional come\u00e7ou a ser vista como discriminat\u00f3ria e em grande parte disfuncional. Enquanto isto, o Brasil ampliou o acesso ao ensino m\u00e9dio, que hoje \u00e9 obrigat\u00f3rio por lei, e eliminou de vez a possibilidade de trilhas diferentes de forma\u00e7\u00e3o &#8211; a educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, que antes era uma op\u00e7\u00e3o, hoje s\u00f3 \u00e9 aceita como um estudo complementar ao ensino convencional.<\/p>\n<p>Na Europa, ningu\u00e9m pensa em acabar com os diferentes tipos de forma\u00e7\u00e3o para a juventude, n\u00e3o s\u00f3 porque a economia moderna requer pessoas com perfis muito distintos, mas tamb\u00e9m porque as pessoas diferem em seus interesses, motiva\u00e7\u00f5es e capacidade de estudar e aprender, e n\u00e3o podem ser colocadas em um molde \u00fanico. Nos diferentes pa\u00edses europeus, a educa\u00e7\u00e3o comum, que terminava aos 11 ou 12 anos, agora vai at\u00e9 os 15 ou 16, os conte\u00fados gerais de linguagem, computa\u00e7\u00e3o e racioc\u00ednio matem\u00e1tico dos cursos t\u00e9cnicos s\u00e3o refor\u00e7ados, e os certificados t\u00e9cnicos de n\u00edvel m\u00e9dio, como bac t\u00e9cnico franc\u00eas, s\u00e3o valorizados e d\u00e3o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o brasileira por um curr\u00edculo m\u00e9dio \u00fanico, pautado por um Exame Nacional tamb\u00e9m \u00fanico, tem uma explica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, e outra ideol\u00f3gica. A pr\u00e1tica \u00e9 que o prest\u00edgio e a renda proporcionados pelos diplomas universit\u00e1rios ainda s\u00e3o relativamente muito altos, \u00a0quando comparados os os diplomas de n\u00edvel m\u00e9dio, e o ensino t\u00e9cnico, com a exce\u00e7\u00e3o dos cursos altamente seletivos dos institutos federais e estaduais, ainda \u00e9 visto pela popula\u00e7\u00e3o como um caminho menos desejado. A ideol\u00f3gica \u00e9 a no\u00e7\u00e3o, buscada nos escritos de Gramsci dos anos 20, e adotada pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, de que a educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, voltada para as necessidades do mercado de trabalho, aliena os trabalhadores e os impede de desenvolver a consci\u00eancia cr\u00edtica e revolucion\u00e1ria que s\u00f3 uma educa\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica tradicional poderia proporcionar.<\/p>\n<p>O resultado desta op\u00e7\u00e3o foi que ela n\u00e3o consegue atender a nenhum de seus dois senhores. A educa\u00e7\u00e3o geral \u00e9 de p\u00e9ssima qualidade, e n\u00e3o produz os quadros t\u00e9cnicos e profissionais com a qualidade e a quantidade necess\u00e1rios para economia moderna; e o sistema escolar \u00e9 fortemente estratificado, com milh\u00f5es de estudantes submetidos a um curr\u00edculo tradicional que poucos conseguem acompanhar, na disputa encarni\u00e7ada no ENEM pelas poucas vagas dispon\u00edveis na educa\u00e7\u00e3o superior de qualidade. Parece uma competi\u00e7\u00e3o por compet\u00eancias, mas por detr\u00e1s dela est\u00e3o as profundas diferen\u00e7as de condi\u00e7\u00f5es de vida e oportunidades que persistem na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>\u00c9 este duplo fracasso, de relev\u00e2ncia econ\u00f4mica e equidade social, que leva \u00e0 necessidade de se transformar profundamente o ensino m\u00e9dio brasileiro, aproximando-o do que ocorre no resto do mundo, com uma pluralidade de caminhos e alternativas, gerais e profissionais, te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas, capazes de dar oportunidades e atender \u00e0s condi\u00e7\u00f5es e necessidades de uma popula\u00e7\u00e3o heterog\u00eanea e de uma economia que precisa de pessoas capacitadas em todos os n\u00edveis para se desenvolver.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Jornal Folha de S\u00e3o Paulo\u00a0publica hoje, 31 de agosto de 2016, um rico caderno \u00a0especial sobre o tema do ensino m\u00e9dio e t\u00e9cnico no Brasil, para o qual contribui com o texto abaixo: Os Dois Senhores da Educa\u00e7\u00e3o M\u00e9dia A educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, no mundo de hoje, \u00e9 chamada a atender a dois senhores: o &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/os-dois-senhores-da-educacao-media\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Os dois senhores da educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[41,22],"tags":[],"class_list":["post-5568","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-profissionalvocational-education","category-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5568","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5568"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5568\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5573,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5568\/revisions\/5573"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5568"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5568"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5568"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}