{"id":56,"date":"2006-04-12T09:21:00","date_gmt":"2006-04-12T12:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=56"},"modified":"2008-08-03T18:12:49","modified_gmt":"2008-08-03T21:12:49","slug":"contribuicao-de-claudio-de-moura-castro-o-relatorio-de-mr-saturnino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/contribuicao-de-claudio-de-moura-castro-o-relatorio-de-mr-saturnino\/","title":{"rendered":"Contribui\u00e7\u00e3o de Claudio de Moura Castro: o relat\u00f3rio de Mr. Saturnino"},"content":{"rendered":"<p>Cl\u00e1udio de Moura Castro, que dispensa apresenta\u00e7\u00f5es, nos envia o seguinte texto, preparado para um livro comemorativo a ser publicado pela Linha Direta:<\/p>\n<p>Saturno envia ao Brasil um disco voador. Para evitar as dificuldades de pron\u00fancia, chamemos de Mr. Saturnino o chefe da miss\u00e3o explorat\u00f3ria do MEC de l\u00e1. Seus termos de refer\u00eancia: entender a nossa educa\u00e7\u00e3o. Para isso, compra todas as revistas e peri\u00f3dicos sobre o assunto. Metodicamente, p\u00f5e-se a analisar o que dizem.<\/p>\n<p>Mr. Saturnino fica impressionad\u00edssimo. L\u00ea centenas de artigos exibindo teorias complexas e abstratas. H\u00e1 duelos doutrin\u00e1rios, travados em linguagem rebuscada e adjetiva\u00e7\u00e3o exaltada. Fala-se de Vygotsky, Piaget, Paulo Freire, Foucault, Habermas, Deleuze, e muitos outros. Denuncia-se a \u2018sociedade disciplinar\u2019, em coro com Foucault. Disparam-se estocadas nos \u2018conteudistas\u2019 (Mr Saturnino n\u00e3o entendeu o termo, mas concluiu que seriam pessoas abomin\u00e1veis) e nos incautos que defendem um tal m\u00e9todo f\u00f4nico. Exalta-se o \u2018esp\u00edrito cr\u00edtico\u2019, a \u2018transversalidade dos conhecimentos\u2019 e a \u2018forma\u00e7\u00e3o do homem integral\u2019. Que pa\u00eds avan\u00e7ado \u00e9 esse Brasil!<\/p>\n<p>E como deve ser boa a sua educa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que t\u00e3o doutos \u2018scholars\u2019 sequer julgam necess\u00e1rio deter-se nos seus resultados. De fato, n\u00e3o h\u00e1 registros de  problemas dignos de nota \u2013 pelo menos, as revistas n\u00e3o os mencionam.<\/p>\n<p>Embevecido, despacha para Saturno um relat\u00f3rio, sugerindo que l\u00e1 se adotem as teorias discutidas t\u00e3o calorosamente no Brasil.<\/p>\n<p>Mas fazia parte dos termos de refer\u00eancia de sua miss\u00e3o visitar outros pa\u00edses mais ricos. Imagina ele que l\u00e1 encontraria teorias ainda mais sofisticadas. Ordena ao seu piloto que fa\u00e7a um plano de v\u00f4o para visitar a Cor\u00e9ia e Cingapura, famosas pela excel\u00eancia de suas escolas.  Mas enquanto a tripula\u00e7\u00e3o checa mapas e rotas, algu\u00e9m lembra que s\u00e3o pa\u00edses com uma pedagogia muito peculiar. Os educadores acreditam que basta sentar e estudar at\u00e9 aprender. O segredo do sucesso seria o car\u00e1ter obsessivo dos estudantes. Uma aberra\u00e7\u00e3o da personalidade.<\/p>\n<p>Mr. Saturnino pede ent\u00e3o planos de v\u00f4o para a Finl\u00e2ndia, pa\u00eds que teria a melhor educa\u00e7\u00e3o no mundo e mais a Fran\u00e7a e Inglaterra, pa\u00edses com ensinos de enorme fama. Cansado de tantas teorias, organiza visitas \u00e0s escolas desses pa\u00edses, para ver como conduzem suas salas de aula. A perplexidade toma conta de sua equipe.<\/p>\n<p>As escolas adotam livros-texto e estes s\u00e3o usados metodicamente nas aulas, orientando o passo a passo da aprendizagem. N\u00e3o \u00e9 curioso que os educadores n\u00e3o se rebelem contra a tirania e autoritarismo dos manuais? Pelo pouco que entendeu do que seriam \u2018conteudistas\u2019, concluiu que na Europa os professores o s\u00e3o, cometendo uma horrenda heresia.<\/p>\n<p>Havia lido que \u2018a linguagem serve para articular a experi\u00eancia do grupo que a usa, formando um modo de express\u00e3o que varia, dependendo da constitui\u00e7\u00e3o desse grupo, de sua hist\u00f3ria e da pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o da linguagem\u2019. Na Europa, o texto escrito tem um \u00fanico significado que dever ser buscado pelo aluno e mostrado nas provas. Que falta de sensibilidade cultural!<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m aprendido no Brasil que \u2018o aluno \u00e9 um ser concreto, produto de uma realidade social e econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural. Essa realidade \u00e9 o ponto de partida para o processo de apropria\u00e7\u00e3o do saber sistematizado, na busca de supera\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o desarticulada de mundo, em dire\u00e7\u00e3o a uma consci\u00eancia cr\u00edtica. Nesse processo, o aluno desempenha o papel de construtor e reconstrutor do pr\u00f3prio conhecimento\u2019. Mas Europa adota curr\u00edculos oficiais e detalhados. O que acontece na sala de aula est\u00e1 indicado nos regulamentos ministeriais. Depois de ler tanto sobre o construtivismo, ficou chocado de constatar que, na Inglaterra, \u00e9 o governo central quem decide as formas de \u2018construir socialmente o conhecimento\u2019. Pior, os regulamentos indicam o que ensinar, como ensinar e como distribuir o tempo da aula entre diferentes atividades.. Mais confusa ainda ficou a sua cabe\u00e7a ao verificar que, com a introdu\u00e7\u00e3o de t\u00e3o abjeto detalhamento para as aulas, o ensino na Inglaterra havia dado um salto consider\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nota outra heresia. Nos pa\u00edses visitados, o m\u00e9todo f\u00f4nico \u00e9 o \u00fanico aceito pelas autoridades. Na Fran\u00e7a o m\u00e9todo global foi at\u00e9 proibido pelo Ministro. Mr Saturnino fica abismado de ver que, na Cidade da Luz, pairam as trevas sobre os melhores m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda ressoando em sua cabe\u00e7a as advert\u00eancias de Foucault, mostrando que a escola (tal como pris\u00f5es e quart\u00e9is) \u00e9 uma \u2018institui\u00e7\u00e3o de sequestro\u2019. Mr. Saturnino fica abismado ao ver na Fran\u00e7a uma disciplina f\u00e9rrea na sala de aula: ningu\u00e9m conversa. E os recalcitrantes se arriscam a uma reguada, aplicada com compet\u00eancia pela professora &#8211; e sob o benepl\u00e1cito da lei. Tudo errado pensou, n\u00e3o leram a imperec\u00edvel obra de Foucault, seu compatriota, onde denuncia uma escola onde h\u00e1 a necessidade de \u2018criar mecanismos de vigil\u00e2ncia e as conseq\u00fcentes puni\u00e7\u00f5es para aqueles que, por um motivo ou outro, n\u00e3o se adaptassem a um modelo preestabelecido de perfei\u00e7\u00e3o humana\u2019. Como \u00e9 poss\u00edvel tal ignor\u00e2ncia, se os long\u00ednquos brasileiros citam Foucault a cada momento?<\/p>\n<p>E a interdisciplinaridade, conquista te\u00f3rica irrevers\u00edvel de pensadores de vanguarda? Vejam s\u00f3, adota-se uma grade curricular, onde cada professor ensina a sua disciplina, com m\u00ednimas visitas \u00e0 ci\u00eancia do vizinho. Pobres europeus, n\u00e3o descobriram que \u00e9 preciso \u2018romper com a segmenta\u00e7\u00e3o e o fracionamento\u2019 e, assim, \u2018compreend\u00ea-lo como express\u00e3o e base do projeto pol\u00edtico e pedag\u00f3gico da escola, culturalmente determinado\u2019.<\/p>\n<p>No Brasil havia aprendido que a avalia\u00e7\u00e3o \u2018ser\u00e1 enriquecedora, desde que seja parte de um processo de constru\u00e7\u00e3o de saberes e conhecimentos, sobre intencionalidades e conte\u00fados, metodologias e fins propostos com conseq\u00fcentes tomadas de decis\u00e3o\u2019. A bem da verdade, n\u00e3o estava seguro haver entendido, mas ficou impressionado com a erudi\u00e7\u00e3o. Foi um choque ver na Europa \u2018ditados\u2019, \u2018para casa\u2019, provas e reda\u00e7\u00e3o (esta \u00faltima, com estrutura fixa e definida no curr\u00edculo nacional). Competem todos febrilmente pelas notas e at\u00e9 pelas medalhas. Um brasileiro havia se queixado  de que \u2018parte de nossa sociedade ainda utiliza r\u00e9gua e compasso para medir os indiv\u00edduos em fun\u00e7\u00e3o de suas conquistas\u2019. Mas na Europa, \u00e9 a r\u00e9gua e compasso para todos (e as vezes, a r\u00e9gua sozinha, para golpear a munheca do infrator). Uma l\u00e1stima.<\/p>\n<p>Ainda mais decepcionante foi ver como funciona a burocracia escolar da Europa. Os diretores s\u00e3o escolhidos pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, sem qualquer consulta \u00e0s bases. Os diretores ousam mandar, tampouco consultando alunos ou professores. No Brasil, Mr. Saturnino havia prestado aten\u00e7\u00e3o \u00e0s den\u00fancias contra o autoritarismo. Mas parece que os europeus n\u00e3o descobriram tais abusos do poder.<\/p>\n<p>Outra surpresa foi descobrir que h\u00e1 inspetores nacionais que, sem mais nem menos, visitam as escolas. Arrogantemente, v\u00e3o se sentar nas salas de aula, de prancheta em punho, anotando os erros e acertos dos professores. E pobre do mestre que barbeirar seriamente. Suas promo\u00e7\u00f5es tornam-se mais problem\u00e1ticas. Sobre tal assunto, lembra-se haver lido que no Brasil isso seria inaceit\u00e1vel, uma verdadeira agress\u00e3o \u00e0 escola e \u00e0 dignidade do professor.<\/p>\n<p>Finalmente, registrou que os pobres alunos s\u00e3o obrigados a assistir aulas por at\u00e9 seis horas todos os dias. E s\u00e3o massacrados com intermin\u00e1veis deveres de casa.<\/p>\n<p>Interessado no comportamento bizarro dos professores, perguntou-lhes o que achavam de Vigotsky e de Piaget. O primeiro, n\u00e3o conheciam. Mas conheciam Piaget: era um excelente rel\u00f3gio su\u00ed\u00e7o, embora muito caro. Mr Saturnino estava completamente perdido. Como era poss\u00edvel que os professores n\u00e3o houvessem se dedicado com afinco a ler as obras completas desses dois luminares? Como seria poss\u00edvel dar boas aulas sem tal conhecimento?<\/p>\n<p>Mr Saturnino termina as visitas profundamente desapontado com as escolas europ\u00e9ias. Fazem tudo errado. Os grandes te\u00f3ricos mandam fazer, elas fazem o contr\u00e1rio. Est\u00e1 decidido, no seu relat\u00f3rio vai botar os europeus nos seus med\u00edocres lugares. Tanta riqueza material e tanto atraso pedag\u00f3gico, diante de um Brasil pobre, mas s\u00e1bio em assuntos de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Temendo a sabatina que poderia vir de algum superior ranzinza, Mr Saturnino resolve olhar um pouco os resultados das avalia\u00e7\u00f5es &#8211; que n\u00e3o s\u00e3o jamais mencionadas nas revistas brasileiras que leu. H\u00e1 um tal SAEB, indicando que, na quarta s\u00e9rie, metade dos alunos l\u00ea mal e entende menos ainda. O INAF indica que tr\u00eas quartos da popula\u00e7\u00e3o adulta \u00e9 analfabeta funcional. Em uma prova internacional de 1991, o Brasil heroicamente conquista o pen\u00faltimo lugar, escapando do \u00faltimo, porque Mo\u00e7ambique estava em plena guerra civil. Mas no PISA, em 2001, o Brasil n\u00e3o escapa e fica em \u00faltimo lugar.<\/p>\n<p>Em contraste, a Finl\u00e2ndia sai em primeiro lugar, no mesmo PISA. Inglaterra e Fran\u00e7a obt\u00eam posi\u00e7\u00f5es invej\u00e1veis. Como \u00e9 poss\u00edvel? Esses europeus fazem tudo errado e terminam com os sistemas de melhor desempenho!<\/p>\n<p>Nesse momento, Mr Saturnino n\u00e3o entende mais nada. Sua primeira d\u00favida \u00e9 muito simples. Por que, as mentes t\u00e3o portentosas e ilustradas do Brasil nunca escrevem que a educa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds obt\u00e9m resultados t\u00e3o p\u00edfios? Em vez disso, as discuss\u00f5es s\u00e3o sempre sobre teorias abstratas e sobre planos grandiosos para transformar radicalmente o mundo. A segunda d\u00favida \u00e9 pouco lisonjeira para os geniais autores que leu. Se suas teorias s\u00e3o t\u00e3o boas, por que n\u00e3o permitiram ao pa\u00eds obter melhores resultados \u2013 que mais n\u00e3o fosse, melhores que seus visinhos?<\/p>\n<p>Coincidiu sua estada em Paris com o lan\u00e7amento do Beaujolais nouveau. Sentado em uma brasserie, bebericando uma amostra da nova safra, d\u00e1 voltas \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. Como seria poss\u00edvel que os melhores resultados estivessem em uma Europa tradicional e autorit\u00e1ria, ainda praticando uma educa\u00e7\u00e3o que as melhores cabe\u00e7as do globo afirmavam estar irremediavelmente errada. Em contraste, o Brasil, totalmente au courrant de todas as teorias recentes, tinha uma educa\u00e7\u00e3o pra l\u00e1 de lament\u00e1vel.<\/p>\n<p>Auxiliado pelo Beaujoulais, vem a inspira\u00e7\u00e3o! O PISA e outros tais resultados eram medidas rasteiras de habilidades mecanicistas. Nada a ver com as conseq\u00fc\u00eancias imensur\u00e1veis de uma educa\u00e7\u00e3o liberadora e integral. Os testes eram uma medida apenas da qualidade da produ\u00e7\u00e3o de \u2018robozinhos\u2019, d\u00f3ceis e intelectualmente castrados. A verdadeira meta de uma educa\u00e7\u00e3o deveria ser a criatividade e a constru\u00e7\u00e3o do \u2018homem integral\u2019. A Europa produz rob\u00f4s enquanto a boa educa\u00e7\u00e3o produz cidad\u00e3os conscientes e criativos. Pronto. Estava resolvido o dilema.<\/p>\n<p>Satisfeito, paga a conta e sai vagando alegremente pelo Quartier Latin. Por puro acaso, passa pelo Liceu Louis, le Grand, um dos melhores da Fran\u00e7a. Casualmente, pega um folheto, explicando que, no s\u00e9culo XVIII foi necess\u00e1rio construir um calabou\u00e7o com capacidade para 100 alunos, pois andavam muito rebeldes. Mais uma confirma\u00e7\u00e3o do autoritarismo das escolas.<\/p>\n<p>Contudo, ao caminhar pelos bulevares, vai vendo os nomes de ruas, est\u00e1tuas e monumentos. Neles se festejava a mem\u00f3ria de escritores, escultores, pintores, atores, compositores e cientistas franceses. Eram centenas, famosos pelo mundo afora. Mr. Saturnino ficou pensando. Ser\u00e1 que todos levaram reguadas da professora?<\/p>\n<p>Nesse momento, Mr. Saturnino s\u00f3 tem uma preocupa\u00e7\u00e3o: descobrir uma maneira de interceptar seu relat\u00f3rio sobre o Brasil, antes que seja visto pela burocracia do seu MEC.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00e1udio de Moura Castro, que dispensa apresenta\u00e7\u00f5es, nos envia o seguinte texto, preparado para um livro comemorativo a ser publicado pela Linha Direta: Saturno envia ao Brasil um disco voador. Para evitar as dificuldades de pron\u00fancia, chamemos de Mr. Saturnino o chefe da miss\u00e3o explorat\u00f3ria do MEC de l\u00e1. 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