{"id":5603,"date":"2016-10-26T17:45:28","date_gmt":"2016-10-26T20:45:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=5603"},"modified":"2016-10-26T20:33:17","modified_gmt":"2016-10-26T23:33:17","slug":"os-pos-doutorados-e-as-prioridades-da-pesquisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/os-pos-doutorados-e-as-prioridades-da-pesquisa\/","title":{"rendered":"Os p\u00f3s-doutorados e as prioridades da pesquisa"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-5604\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/images.jpeg\" alt=\"images\" width=\"268\" height=\"379\" \/><\/p>\n<p>Agora que o Brasil forma quase vinte mil doutores por ano (Ph.Ds., n\u00e3o confundir com m\u00e9dicos), parece que o t\u00edtulo j\u00e1 n\u00e3o vale tanto quanto antigamente, e surgiu um novo &#8220;grau&#8221; acad\u00eamico aparentemente mais alto, mas que s\u00f3 existe entre n\u00f3s, o de p\u00f3s-doutor.\u00a0 No resto do mundo, os \u201cpostdoc\u201d s\u00e3o jovens doutores rec\u00e9m-formados em trabalhos tempor\u00e1rios de assistentes de ensino ou pesquisa, enquanto buscam um emprego regular. No Brasil, o \u201cp\u00f3s-doutor\u201d \u00e9 geralmente um professor universit\u00e1rio com doutorado que passou depois um per\u00edodo em alguma universidade no exterior, geralmente com uma bolsa de estudos do governo.<\/p>\n<p>Muitas vezes recebo projetos de bolsas de p\u00f3s-doutorado da CAPES e do CNPq para avaliar, e minha experi\u00eancia \u00e9 que eles podem ser divididos em tr\u00eas grupos. Em uma ponta, raros, est\u00e3o projetos interessantes e inovadores de trabalho em parceria com pesquisadores qualificados de uma universidade reconhecida no exterior. No meio est\u00e3o projetos interessantes e de qualidade, mas n\u00e3o existe colabora\u00e7\u00e3o efetiva com pesquisadores estrangeiros. Nestes casos, h\u00e1 sempre uma carta mais ou menos formal de um professor ou chefe de departamento de outro pa\u00eds dizendo que teria muito prazer em hospedar por um tempo com o professor fulano de tal, etc., mas nada al\u00e9m disto. E na outra ponta est\u00e3o projetos de pouca qualidade e relev\u00e2ncia, mas sempre \u00a0tamb\u00e9m com uma carta formal de aceita\u00e7\u00e3o (que afinal n\u00e3o custa nada, j\u00e1 que \u00e9 o governo brasileiro que paga a conta)<\/p>\n<p>\u00c9 relativamente f\u00e1cil avaliar os pedidos extremos \u2013 recomendar os primeiros e n\u00e3o os \u00faltimos. Fica mais dif\u00edcil avaliar os do meio: o projeto \u00e9 bom e interessante, o candidato tem um bom curr\u00edculo, mas ele precisa realmente passar um ano em Paris, Londres ou Boston, por exemplo, \u00e0s custas do contribuinte brasileiro?<\/p>\n<p>A \u00fanica maneira de decidir isto seria comparar cada projeto com outros semelhantes, sabendo de quantos recursos dispomos para este tipo de aux\u00edlio. Imagino que as ag\u00eancias de financiamento fa\u00e7am isto de algum modo, mas eu, como parecerista, nunca sou informado sobre quantas propostas existem e o destino das que ajudei a avaliar. Quais foram os crit\u00e9rios usados? Ser\u00e1 que aquele projeto horr\u00edvel que rejeitei acabou sendo aprovado, porque outros pareceristas gostaram? Ser\u00e1 que aquele projeto excelente que eu recomendei foi recusado? Porque minha \u00e1rea de pesquisa tem menos (ou mais) recursos do que a do departamento vizinho?<\/p>\n<p>O sistema de avalia\u00e7\u00e3o por pares, adotado h\u00e1 anos pela CAPES, CNPq, FAPESP e outras ag\u00eancias de financiamento de pesquisa, \u00e9 muito melhor do que seria se os projetos fossem avaliados por funcion\u00e1rios que entendem menos dos conte\u00fados do que os candidatos. Mas est\u00e1 longe de ser infal\u00edvel, por duas raz\u00f5es principais. A primeira \u00e9 que os membros dos comit\u00e9s assessores s\u00e3o indicados por professores e pesquisadores da \u00e1rea, e por isto podem tender a aprovar projetos que representam os diferentes interesses de suas \u00e1reas ou regi\u00f5es, e n\u00e3o necessariamente os melhores. Este problema \u00e9 especialmente s\u00e9rio em \u00e1reas mais controversas e cientificamente menos consolidadas, como as ci\u00eancias sociais, do que nas ci\u00eancias exatas. E segundo, porque \u00e9 dif\u00edcil dividir de maneira adequada os recursos entre as diversas \u00e1reas de pesquisa \u2013 cada uma, naturalmente, tende a puxar a brasa para sua sardinha. Estes problemas se tornam mais agudos em situa\u00e7\u00f5es como a de agora, em que os recursos para a pesquisa est\u00e3o se tornando mais escassos, e deveriam ser utilizados da melhor maneira poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Acredito que est\u00e1 na hora de mexer nisto. Minha primeira sugest\u00e3o seria deixar claro que o \u201cp\u00f3s-doutorado\u201d n\u00e3o \u00e9 um t\u00edtulo acad\u00eamico ao qual todos os professores universit\u00e1rios devam aspirar, e que bolsas de est\u00e1gios avan\u00e7ados no exterior s\u00f3 deveriam ser concedidas se houver, al\u00e9m da qualidade e relev\u00e2ncia, coopera\u00e7\u00e3o efetiva entre o pesquisador brasileiro e o de outra institui\u00e7\u00e3o, o que ocorre, por exemplo, quando a institui\u00e7\u00e3o no exterior contribui para cobrir os custos do projeto. Nenhuma universidade no mundo outorga ou reconhece o t\u00edtulo de \u201cp\u00f3s-doutorado\u201d.<\/p>\n<p>Segundo, as ag\u00eancias de financiamento precisam tornar mais transparentes, divulgando, para cada \u00e1rea do conhecimento, quantos pedidos receberam, quantos \u00a0e quais foram apoiados, e quantos recursos foram alocados para cada uma \u00e1rea, conforme quais crit\u00e9rios. E faz parte desta transpar\u00eancia informar aos avaliadores internos e externos o resultado final de cada avalia\u00e7\u00e3o da qual participaram. Isto vale para toda a \u00e1rea de apoio \u00e0 pesquisa e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o somente para os \u00a0pedidos de bolsas de p\u00f3s-doutorado.<\/p>\n<p>Finalmente, para evitar o corporativismo inerente \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o por pares, \u00e9 necess\u00e1rio subir um degrau, submetendo os resultados gerais das pol\u00edticas de apoio \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pesquisa, em conjunto e em cada \u00e1rea de pesquisa, a avalia\u00e7\u00f5es externas internacionais. O Brasil tem experi\u00eancias deste tipo, que deveriam se tornar sistem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>J\u00e1 foi o tempo, se \u00e9 que ele existiu um dia, em que as pol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o superior, ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o se limitavam a avaliar e financiar os bons projetos, tal como entendidos pelos colegas mais pr\u00f3ximos. \u00c9 necess\u00e1rio definir prioridades, n\u00e3o s\u00f3 dentro do setor de ci\u00eancia e tecnologia, mas inclusive em rela\u00e7\u00e3o a outras \u00e1reas de pol\u00edticas p\u00fablicas igualmente carentes de recursos, que precisam de evid\u00eancias claras e espec\u00edficas sobre a import\u00e2ncia dos investimentos em pesquisa e forma\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel. Ningu\u00e9m gosta de ter que definir prioridades, mas, sem isto, elas acabam se formando debaixo dos panos, e quase sempre na dire\u00e7\u00e3o errada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora que o Brasil forma quase vinte mil doutores por ano (Ph.Ds., n\u00e3o confundir com m\u00e9dicos), parece que o t\u00edtulo j\u00e1 n\u00e3o vale tanto quanto antigamente, e surgiu um novo &#8220;grau&#8221; acad\u00eamico aparentemente mais alto, mas que s\u00f3 existe entre n\u00f3s, o de p\u00f3s-doutor.\u00a0 No resto do mundo, os \u201cpostdoc\u201d s\u00e3o jovens doutores rec\u00e9m-formados em &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/os-pos-doutorados-e-as-prioridades-da-pesquisa\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Os p\u00f3s-doutorados e as prioridades da pesquisa&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[16,11],"tags":[],"class_list":["post-5603","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia-e-tecnologia","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5603"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5603\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5607,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5603\/revisions\/5607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}