{"id":5628,"date":"2016-11-19T09:36:28","date_gmt":"2016-11-19T12:36:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=5628"},"modified":"2016-11-19T20:46:30","modified_gmt":"2016-11-19T23:46:30","slug":"o-que-fazer-para-que-a-reforma-do-ensino-medio-de-certo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-que-fazer-para-que-a-reforma-do-ensino-medio-de-certo\/","title":{"rendered":"O que fazer para que a reforma do ensino m\u00e9dio d\u00ea certo?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-5629 alignright\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Choices.jpg\" alt=\"choices\" width=\"300\" height=\"238\" \/>A Medida Provis\u00f3ria sobre o ensino m\u00e9dio teve o grande m\u00e9rito de deixar claro que o atual formato do ensino m\u00e9dio \u00e9 invi\u00e1vel, e que \u00e9 necess\u00e1rio dar aos estudantes a possibilidade de optar por diferentes \u00e1reas de concentra\u00e7\u00e3o e aprofundamento, sejam mais acad\u00eamicas, de prepara\u00e7\u00e3o para o ensino superior, sejam mais pr\u00e1ticas, de qualifica\u00e7\u00e3o mais direta para o mercado de trabalho, ou ambas as coisas. N\u00e3o custa repetir: apesar de obrigat\u00f3rio, 40% dos jovens brasileiros, hoje, n\u00e3o completa o ensino m\u00e9dio; dos que completam, um ter\u00e7o consegue ir para o ensino superior, e dois ter\u00e7os termina sem nenhuma qualifica\u00e7\u00e3o \u00fatil para a vida profissional. Todo o ensino m\u00e9dio, praticamente, est\u00e1 organizado em um curr\u00edculo \u00fanico de prepara\u00e7\u00e3o para o ENEM, que seleciona uns poucos que conseguem entrar nas universidades federais. Os gastos p\u00fablicos por aluno se multiplicaram por quatro nos \u00faltimos 15 anos, mas a qualidade da educa\u00e7\u00e3o continuou p\u00e9ssima e n\u00e3o melhora. A reforma \u00e9 necess\u00e1ria, e vem sendo discutida h\u00e1 anos, mas o governo n\u00e3o explicou direito o que est\u00e1 propondo, e ainda existem muitas coisas a serem ajustadas e esclarecidas.<\/p>\n<p>O caminho \u00e9, como em todo o mundo, criar diferentes op\u00e7\u00f5es de estudo, adequadas aos diferentes interesses e condi\u00e7\u00f5es dos jovens, e fortalecer o lado mais pr\u00e1tico e aplicado da educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se o jovem, aos 15 anos de idade, j\u00e1 tem maturidade para fazer escolhas; a quest\u00e3o \u00e9 que, tendo que estudar tudo e treinar para o ENEM, os jovens acabam n\u00e3o aprendendo praticamente nada.<\/p>\n<p>Mas, ao diferenciar, o que deve permanecer como conhecimentos comuns, e quais devem ser as op\u00e7\u00f5es? Quanto tempo deve ser dedicado \u00e0 parte comum e \u00e0s partes opcionais? A MP transferiu a resposta da primeira pergunta para a Base Nacional Curricular Comum do ensino m\u00e9dio que ainda precisa ser escrita pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o; deu uma resposta equivocada \u00e0 segunda, ao escolher mal as \u00e1reas opcionais; e prop\u00f4s uma divis\u00e3o arbitr\u00e1ria do tempo entre a parte geral e a parte opcional, sem maiores explica\u00e7\u00f5es. Sem lidar de forma correta com estas tr\u00eas coisas, existe um grande risco de que a reforma proposta n\u00e3o se concretize como deveria.<\/p>\n<p><strong>As \u00e1reas de concentra\u00e7\u00e3o e aprofundamento<\/strong><\/p>\n<p>Idealmente, os estudantes deveriam ter liberdade de escolher os temas que queiram, ou uma combina\u00e7\u00e3o de temas. Na Europa, a primeira op\u00e7\u00e3o \u00e9 seguir uma trilha mais acad\u00eamica e outra mais profissional, cada uma delas oferecendo diferentes possibilidades de escolha. Assim, na Inglaterra, os estudantes que se dirigem ao ensino superior come\u00e7am escolhendo quatro ou cinco temas, e depois se preparam em tr\u00eas para o exame de <em>A Level<\/em>, que d\u00e1 acesso \u00e0 universidade. No <em>baccalaur\u00e9at<\/em> franc\u00eas, os estudantes n\u00e3o escolhem temas, mas grandes \u00e1reas como ci\u00eancias naturais, ci\u00eancias econ\u00f4micas e sociais ou literatura, que inclui filosofia, hist\u00f3ria e l\u00ednguas, e que tamb\u00e9m d\u00e1 acesso ao ensino superior. Para os que optam pelo ensino profissional, existe uma grande variedade de op\u00e7\u00f5es, como a aprendizagem profissional nas empresas, t\u00edpica dos pa\u00edses germ\u00e2nicos, ou os diplomas t\u00e9cnicos e liceus profissionais na Fran\u00e7a. Os Estados Unidos n\u00e3o t\u00eam um sistema separado de forma\u00e7\u00e3o profissional, mas existe uma grande variedade de op\u00e7\u00f5es, de n\u00edvel e conte\u00fado, dentro das <em>high schools<\/em>, que s\u00e3o as escolas de n\u00edvel m\u00e9dio, e que continuam nos <em>community colleges<\/em> de dois anos.<\/p>\n<p>O que todos estes pa\u00edses t\u00eam em comum \u00e9 que todas as op\u00e7\u00f5es est\u00e3o associadas a sistemas claros de avalia\u00e7\u00e3o externa. Na Inglaterra, os <em>A Levels<\/em> s\u00e3o administrados por v\u00e1rios <em>exam boards<\/em>, que s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es privadas ou ag\u00eancias independentes; os <em>bac<\/em> franceses s\u00e3o diplomas de validade nacional, assim como o <em>Abitur<\/em> alem\u00e3o e o <em>Matura<\/em> na Su\u00ed\u00e7a e outros pa\u00edses. Os Estados Unidos n\u00e3o t\u00eam um sistema de exames de Estado, mas duas institui\u00e7\u00f5es privadas, o <em>College Board<\/em> e o <em>ACT Inc.<\/em> oferecem diferentes testes gerais ou espec\u00edficos por \u00e1reas e conhecimento, que os estudantes podem fazer e que s\u00e3o utilizados pelas diferentes universidades na sele\u00e7\u00e3o de seus alunos. Para o ensino profissional, os alunos s\u00e3o avaliados por diferentes ag\u00eancias e institui\u00e7\u00f5es profissionais, p\u00fablicas ou privadas.<\/p>\n<p>O formato proposto na MP n\u00e3o cria um sistema separado de ensino profissional, como na Europa, nem um sistema aberto com muitas op\u00e7\u00f5es e grande diferencia\u00e7\u00e3o interna, como nos Estados Unidos. O que ela faz \u00e9 dividir o ensino m\u00e9dio em duas grandes alternativas, a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e a forma\u00e7\u00e3o profissional, ambas associadas\u00a0a uma base nacional comum, e cada qual com diferentes possibilidades de escolha: na alternativa acad\u00eamica, ou proped\u00eautica, as op\u00e7\u00f5es seriam linguagem, matem\u00e1tica, ci\u00eancias da natureza e ci\u00eancias humanas; as op\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o profissional n\u00e3o est\u00e3o especificadas, mas seria poss\u00edvel, em princ\u00edpio, oferecer qualquer uma das quase duzentas \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o profissional hoje existentes.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o explicou as raz\u00f5es da escolha destas \u00e1reas, mas \u00e9 f\u00e1cil ver que elas s\u00e3o uma repeti\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 nos par\u00e2metros nacionais curriculares da d\u00e9cada de 90, que divide o conhecimento entre tr\u00eas grandes \u00e1reas: (1) linguagens, c\u00f3digos e suas tecnologias; (2) Ci\u00eancias da natureza, matem\u00e1tica e suas tecnologias, e (3) ci\u00eancias humanas e suas tecnologias. O \u00fanico que a MP faz \u00e9 separar as matem\u00e1ticas das ci\u00eancias naturais.<\/p>\n<p>Esta classifica\u00e7\u00e3o tem sua l\u00f3gica do ponto de vista formal, mas as op\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com o modo em que as \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o geralmente agrupadas no mundo real, e s\u00e3o certamente inadequadas como \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o a aprofundamento para o ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>De fato, a primeira \u00e1rea, das \u201clinguagens\u201d, tal como est\u00e1 nos par\u00e2metros curriculares do MEC, inclui coisas totalmente diferentes: l\u00edngua portuguesa, l\u00edngua estrangeira, educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, arte e inform\u00e1tica. Ainda que se possa entender que todas estas coisas s\u00e3o \u201clinguagens\u201d em um sentido muito amplo, como formas de express\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o e o campo profissional de quem se dedica \u00e0s l\u00ednguas, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e \u00e0 computa\u00e7\u00e3o (o termo \u201cinform\u00e1tica\u201d caiu em desuso) s\u00e3o totalmente diferentes.<\/p>\n<p>O mesmo problema ocorre com as outras duas \u00e1reas, ci\u00eancias naturais e ci\u00eancias humanas. As ci\u00eancias naturais hoje s\u00e3o um grande universo de conhecimentos muito distintos, que podem ser agrupados em ci\u00eancias exatas, dos objetos f\u00edsicos, e ci\u00eancias biol\u00f3gicas, dos seres vivos. A forma\u00e7\u00e3o e a orienta\u00e7\u00e3o profissional de quem se dedica a uma e outra \u00e1rea s\u00e3o totalmente diferentes, e n\u00e3o faz sentido agrup\u00e1-las como \u00e1rea \u00fanica de concentra\u00e7\u00e3o e aprofundamento. Na \u00e1rea das humanas, elas normalmente s\u00e3o divididas entre as ci\u00eancias sociais (economia, sociologia, demografia, etc.), que utilizam m\u00e9todos emp\u00edricos semelhantes aos das ci\u00eancias naturais, e as humanidades propriamente ditas, que t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o de hermen\u00eautica e interpreta\u00e7\u00e3o de textos, como a literatura e a filosofia. Esta divis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 estanque, porque a hist\u00f3ria, por exemplo, tem elementos das duas tradi\u00e7\u00f5es, e a filosofia anal\u00edtica est\u00e1 mais pr\u00f3xima da matem\u00e1tica \u00e9 mais pr\u00f3xima da l\u00f3gica e da matem\u00e1tica. Finalmente, a matem\u00e1tica, por si s\u00f3, \u00e9 uma mat\u00e9ria central da forma\u00e7\u00e3o comum, e pode ser uma especializa\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel para quem quer se preparar para o magist\u00e9rio ou para a pesquisa matem\u00e1tica, mas, nas \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o diferenciada do ensino m\u00e9dio, ela precisa ser dada no contexto das diversas \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o de forma isolada.<\/p>\n<p>Quais seriam, ent\u00e3o, as diversas \u00e1reas opcionais? Existem v\u00e1rias possibilidades, mas o princ\u00edpio geral deve ser que elas n\u00e3o podem ser simples amplia\u00e7\u00f5es das \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o geral, mas devem se aproximar, de forma ampla, das \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o profissional superior que os alunos ir\u00e3o buscar no n\u00edvel superior. (1) Uma delas, claramente, \u00e9 o que em ingl\u00eas tem sido denominado STEM, ou, em portugu\u00eas, CTEM \u2013 ci\u00eancia, tecnologia, engenharia e matem\u00e1tica. Al\u00e9m da matem\u00e1tica, f\u00edsica e qu\u00edmica, esta \u00e1rea deve incluir elementos de engenharia e tecnologia, tanto quanto poss\u00edvel de forma pr\u00e1tica e aplicada, que a educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia brasileira n\u00e3o tem; \u00e9 a op\u00e7\u00e3o para os jovens que querem se profissionalizar nas \u00e1reas da engenharia e da tecnologia de maneira geral. (2) A segunda \u00e1rea deve ser a das ci\u00eancias biol\u00f3gicas e da sa\u00fade, para os que se interessam pela \u00e1rea de ci\u00eancias m\u00e9dicas e de sa\u00fade de maneira geral. (3) A \u00e1rea que hoje se denomina de \u201chumanas\u201d deveria se dividir em duas, a das ci\u00eancias sociais, centradas da economia, sociologia, antropologia e direito, para os que se destinam \u00e0s profiss\u00f5es sociais como direito, administra\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e outras; e a das (4) humanidades, que inclui as l\u00ednguas, literatura e artes, que podem interessar mais aos que se dedicam \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, ao jornalismo, \u00e0 literatura e outras atividades culturais. \u00c9 um formato parecido com o bac franc\u00eas, com uma op\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social, outra liter\u00e1ria, e outra cient\u00edfica, com a diferen\u00e7a que esta \u00faltima seria dividida entre CTEM e as ci\u00eancias biol\u00f3gicas e da sa\u00fade<\/p>\n<p><strong>A base comum<\/strong><\/p>\n<p>Embora isto n\u00e3o esteja escrito em nenhum lugar, a interpreta\u00e7\u00e3o que parece estar prevalecendo \u00e9 que a parte comum seria uma esp\u00e9cie de vers\u00e3o resumida de todas as \u00e1reas opcionais, tais como definidas nos par\u00e2metros curriculares que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o tem adotado desde os anos 90, e as \u00e1reas de op\u00e7\u00e3o e aprofundamento seriam um detalhamento destas mesmas \u00e1reas. O resultado disto \u00e9 que a parte comum corre o risco de ficar inchada, sem romper com o modelo enciclop\u00e9dico que tem prevalecido at\u00e9 agora e n\u00e3o funciona, enquanto que as op\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o ficam esvaziadas. Nas discuss\u00f5es havidas anteriormente no Conselho dos Secret\u00e1rios Estaduais de Educa\u00e7\u00e3o, havia a ideia de que a parte comum n\u00e3o deveria ocupar mais do que 800 horas do total de 2400 que s\u00e3o o da grande maioria dos cursos de n\u00edvel m\u00e9dio (deixando de lado as escolas de tempo integral, que \u00e9 um assunto \u00e0 parte). A MP aumentou este m\u00ednimo para \u201cat\u00e9 1200 horas\u201d, e existem propostas de mudar a MP aumentando esta parte para 1800 horas, acabando, na pr\u00e1tica, com a id\u00e9ia da diversifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio mais importante \u00e9 que a base comum deveria ser pequena, e n\u00e3o engolir nem dominar as demais. O lugar da forma\u00e7\u00e3o geral \u00e9 na educa\u00e7\u00e3o fundamental, at\u00e9 os 14 anos quando os alunos deveriam dominar a l\u00edngua portuguesa, os conceitos matem\u00e1ticos mais gerais, e conhecimentos amplos sobre as ci\u00eancias naturais e sociais. Como, no Brasil, sabemos que a grande maioria dos estudantes chega ao ensino m\u00e9dio com grandes lacunas de capacita\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas e matem\u00e1tica, faz sentido continuar trabalhando nestas duas \u00e1reas com todos os estudantes ao longo do ensino m\u00e9dio, tanto quanto poss\u00edvel no contexto das diferentes \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento. O ingl\u00eas \u00e9 hoje, reconhecidamente, a l\u00edngua da comunica\u00e7\u00e3o internacional, cada vez mais requerida em todos os campos de atividade, e por isto deve constar tamb\u00e9m da base comum.<\/p>\n<p>E o que mais? Existe muita coisa pesquisada e escrita sobre as compet\u00eancias gerais que todos os jovens devem ter para participar plenamente, como cidad\u00e3o e profissional, na sociedade moderna. Al\u00e9m de saber ler, escrever e raciocinar com n\u00fameros, s\u00e3o importantes as chamadas compet\u00eancias emocionais, como a capacidade de trabalhar em grupo, a persist\u00eancia, a curiosidade, o empreendedorismo, a autodisciplina e a estabilidade emocional. Estas compet\u00eancias podem e devem ser desenvolvidas na escola, mas de forma pr\u00e1tica, no dia a dia do estudo, e n\u00e3o na forma de aulas tradicionais. O dom\u00ednio das novas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m considerado uma compet\u00eancia geral, mas o que importa aqui, para os que n\u00e3o s\u00e3o nem v\u00e3o ser profissionais da \u00e1rea, \u00e9 a compet\u00eancia para fazer uso dos instrumentos dispon\u00edveis, e n\u00e3o o conhecimento detalhado as tecnologias de ICT. Faz mais sentido desenvolver estes conhecimentos no contexto das \u00e1reas opcionais do que de forma separada.<\/p>\n<p>Restam as ci\u00eancias sociais, as ci\u00eancias naturais, as artes e a filosofia. A MP foi muito criticada por ter, aparentemente, banido o ensino da sociologia, da filosofia, das artes e da educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica do ensino m\u00e9dio. O que ela fez, na verdade, foi suprimir a obrigatoriedade do ensino destas disciplinas, que podem perfeitamente continuar a ser dadas de diferentes formas, ao lado de outras igualmente importantes como a economia, o direito e a antropologia.<\/p>\n<p>Quanto das ci\u00eancias sociais deveriam estar na base comum? Existe um argumento convincente por continuar refor\u00e7ando, entre todos os estudantes, a capacidade de entender como funcionam as institui\u00e7\u00f5es e quais s\u00e3o as quest\u00f5es sociais e econ\u00f4micas na sociedade em que vivem: como funciona uma democracia representativa, qual s\u00e3o os pap\u00e9is dos tr\u00eas poderes, como se organiza o sistema federativo, como est\u00e1 estruturada sociedade e a economia, o que s\u00e3o os direitos sociais, os problemas de pobreza e desigualdade, e assim por diante, no Brasil e no contexto internacional. \u00c9 poss\u00edvel estudar estas coisas pela hist\u00f3ria, pela sociologia, pela economia ou pelo direito. A base comum poderia conter um componente com estes conte\u00fados, sem especificar a disciplina que em deveria ser ensinada. Ou seja, seria organizada por quest\u00f5es e problemas, e n\u00e3o por teorias ou conceitos abstratos.<\/p>\n<p>E como lidar com as ci\u00eancias naturais? \u00c9 importante n\u00e3o cair na fal\u00e1cia de tentar ensinar o \u201cm\u00e9todo cient\u00edfico\u201d ou ci\u00eancia de maneira geral, sem conte\u00fados concretos. A quest\u00e3o de se existe ou n\u00e3o um m\u00e9todo cient\u00edfico geral, que possa ser ensinado a todas pessoas e que vale para todas as ci\u00eancias, \u00e9 um tema filos\u00f3fico especializado da epistemologia, que n\u00e3o cabe em um curso de n\u00edvel m\u00e9dio; e n\u00e3o seria poss\u00edvel colocar, na base curricular comum, uma vers\u00e3o ainda mais resumida e superficial das diversas disciplinas cient\u00edficas do que a que existe hoje no ensino m\u00e9dio. A alternativa seria escolher uma lista de temas de natureza cient\u00edfica e de grande relev\u00e2ncia \u2013 energia, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; doen\u00e7as tropicais, os avan\u00e7os da medicina, etc. \u2013 e a partir deles mostrar como eles s\u00e3o estudados, que resultados t\u00eam sido obtidos, etc. Tal como nas ci\u00eancias sociais, n\u00e3o seria um curso de ci\u00eancias, mas de temas de natureza cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>E o que fazer com educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e artes? A educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, como \u00e1rea de estudo, faz parte da \u00e1rea de ci\u00eancias biol\u00f3gicas e da sa\u00fade. Como pr\u00e1tica, \u00e9 importante, mas n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria disciplinar. O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, ou as secretarias estaduais, podem requerer que as escolas ofere\u00e7am aos estudantes oportunidade para as pr\u00e1ticas desportivas, mas isto n\u00e3o entra no curr\u00edculo propriamente dito. Quanto \u00e0s artes, elas podem ser mat\u00e9ria de estudo dentro da op\u00e7\u00e3o das humanidades, e as artes perform\u00e1ticas (dan\u00e7a, m\u00fasica, teatro) podem ser mat\u00e9rias de forma\u00e7\u00e3o profissional, mas n\u00e3o faz sentido incluir artes em geral na base curricular comum obrigat\u00f3ria, da mesma maneira que n\u00e3o faz sentido incluir ci\u00eancias sociais ou ci\u00eancias naturais em geral.<\/p>\n<p><strong>Tempos e sequ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 importante evitar dois equ\u00edvocos aqui, o de aumentar demasiadamente o tempo da parte comum, e o de juntar toda a parte comum no primeiro ou nos dois primeiros anos do ensino m\u00e9dio, deixando as op\u00e7\u00f5es para o final. Nos dois casos, trata-se de uma resist\u00eancia ao que precisa ser feito, que \u00e9 aproveitar ao m\u00e1ximo os tr\u00eas anos do ensino m\u00e9dio para o que os estudantes possam se aprofundar em suas \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o. O correto seria n\u00e3o dedicar mais do que 1\/3 do tempo do ensino m\u00e9dio para a parte comum, ou seja, 800 horas, e n\u00e3o 1200 como est\u00e1 na MP. Tanto quanto poss\u00edvel, os conte\u00fados da parte comum deveriam ser dados de forma articulada e no contexto das \u00e1reas opcionais de forma\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o de forma separada. Existem bons argumentos para fazer do primeiro ano do ensino m\u00e9dio um per\u00edodo de orienta\u00e7\u00e3o, com mais mat\u00e9rias eletivas, levando a um maior afunilamento nos anos subsequentes.<\/p>\n<p>A MP, al\u00e9m da diversifica\u00e7\u00e3o do ensino m\u00e9dio, trata da cria\u00e7\u00e3o de escolas de tempo integral. N\u00e3o \u00e9 algo que possa ser implementado a curto prazo. S\u00f3 3% dos alunos do ensino m\u00e9dio brasileiro est\u00e3o em escolas de tempo integral hoje, e a previs\u00e3o do governo \u00e9 no m\u00e1ximo dobrar isto em 4 anos, e passar a conta para o Estados depois. Nas escolas de tempo integral, o tempo adicional deveria ser dedicado \u00e0s \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o e aprofundamento, e n\u00e3o ao aumento do tempo da parte comum. Infelizmente, a MP n\u00e3o tratou de um problema muito mais s\u00e9rio, que \u00e9 o das escolas noturnas, aonde est\u00e3o cerca de 25% dos estudantes de n\u00edvel m\u00e9dio, em sua grande maioria jovens que precisam ter apoio e condi\u00e7\u00f5es para estudar durante o dia.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o das avalia\u00e7\u00f5es e o ENEM<\/strong><\/p>\n<p>O ENEM atual \u00e9 incompat\u00edvel com uma educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia diversificada. No novo sistema, ser\u00e1 necess\u00e1rio ter uma avalia\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias gerais, em uso de l\u00edngua portuguesa e matem\u00e1tica, e avalia\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para cada uma das \u00e1reas opcionais. O atual ENEM est\u00e1 feito para selecionar pessoas para as universidades, e por isto tem um sistema milim\u00e9trico de pontua\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem interpreta\u00e7\u00e3o clara: n\u00e3o h\u00e1 nada que indique que o estudante que tire 750 na prova seja mais capacitado para fazer um curso superior do que um que tire 730. O novo ENEM deveria ser fortemente baseado em compet\u00eancias, e n\u00e3o em conte\u00fados, e os resultados deveriam ser apresentados do que eles significam \u2013 n\u00e3o em pontos, mas em termos do desempenho esperado \u2013 insatisfat\u00f3rio, satisfat\u00f3rio, bom, excelente, etc. A quest\u00e3o de como as universidades selecionam seus alunos \u00e9 um problema delas, que t\u00eam autonomia para isto, e n\u00e3o pode ser resolvida colocando uma camisa de for\u00e7a sobre o ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desenvolver avalia\u00e7\u00f5es gerais para as \u00e1reas profissionais. Ao contr\u00e1rio das \u00e1reas acad\u00eamicas, as \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o profissional s\u00e3o muito dispersas, e n\u00e3o podem ser concentradas em um n\u00famero pequeno de op\u00e7\u00f5es. O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o trabalha com um agrupamento de \u201ceixos formativos\u201d, mas basta olhar para o conte\u00fado dos eixos para vermos que se s\u00e3o coisas muito diferentes, que n\u00e3o poderiam ser avaliadas pelo mesmo teste. Assim, por exemplo, o eixo 1, de ambiente e sa\u00fade, inclui cerca de 30 cursos, incluindo an\u00e1lises cl\u00ednicas, agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade, meio ambiente e enfermagem.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um amplo sistema de certifica\u00e7\u00e3o profissional, trabalhando com institui\u00e7\u00f5es existentes ou criando novas. O problema \u00e9 menos complexo do que aparenta, porque, na realidade, as matr\u00edculas est\u00e3o muito concentradas em alguns cursos: metade dos estudantes est\u00e3o em 8 \u00e1reas (enfermagem, administra\u00e7\u00e3o, inform\u00e1tica, seguran\u00e7a do trabalho, edifica\u00e7\u00f5es, log\u00edstica, mec\u00e2nica e eletrot\u00e9cnica), e 80% em trinta. \u00c9 poss\u00edvel come\u00e7ar com a certifica\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de maior demanda ou que sejam priorit\u00e1rias por outras raz\u00f5es e ir ampliando aos poucos. Para as \u00e1reas sem certifica\u00e7\u00e3o externa, valem os diplomas oferecidos pelas escolas credenciadas para dar os cursos.<\/p>\n<p><strong>O processo de diversifica\u00e7\u00e3o e o ensino t\u00e9cnico: quem vai fazer o que?<\/strong><\/p>\n<p>Uma cr\u00edtica que tem sido feita \u00e0 proposta de diversifica\u00e7\u00e3o \u00e9 que as escolas n\u00e3o teriam professores e recursos oferecer as diversas op\u00e7\u00f5es, e que a redu\u00e7\u00e3o da parte comum poderia levar \u00e0 ociosidade de muitos professores. De fato, existe car\u00eancia de professores qualificados, instala\u00e7\u00f5es e equipamentos, e isto precisa melhorar, mas n\u00e3o seria dif\u00edcil para as escolas, desde j\u00e1, reorganizarem os espa\u00e7os e professores que t\u00eam atualmente em um novo formato. Assim, o professor de sociologia, por exemplo, teria mais tempo para se dedicar aos alunos que escolhessem a \u00e1rea de ci\u00eancias sociais, e n\u00e3o seriam obrigados e ensinar as mesmas coisas para os estudantes de outras op\u00e7\u00f5es, que s\u00f3 precisariam da parte comum dos temas sociais. Nas cidades maiores, algumas escolas poderiam desenvolver mais determinadas \u00e1reas, e os alunos poderiam escolher as escolas de sua prefer\u00eancia.<\/p>\n<p>As escolas tradicionais da rede p\u00fablica teriam muito mais dificuldade em oferecer as op\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e profissional, principalmente as que demandem equipamento e professores com pr\u00e1tica profissional. Na educa\u00e7\u00e3o profissional, a MP prev\u00ea a possibilidade de admitir professores por \u201cnot\u00f3rio saber\u201d, ou seja, pelo reconhecimento de compet\u00eancias sem necessidade de licenciaturas convencionais, o que \u00e9 uma necessidade. N\u00e3o existe a obriga\u00e7\u00e3o nem a expectativa de que todas as escolas ofere\u00e7am op\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Hoje, no pa\u00eds, existem quase dois milh\u00f5es de estudantes em cursos t\u00e9cnicos de n\u00edvel m\u00e9dio proporcionados por sistemas estaduais, como o Centro Paula Souza em S\u00e3o Paulo; pelos institutos federais de ci\u00eancia e tecnologia; por escolas particulares; e por escolas do SENAI, SESI e SESC, entre outras. A expectativa \u00e9 que, no novo formato, estas institui\u00e7\u00f5es possam ampliar a provis\u00e3o destes cursos, sozinhas ou em parcerias com as redes p\u00fablicas. Um ter\u00e7o dos alunos de cursos t\u00e9cnicos s\u00e3o mais velhos e est\u00e3o em cursos \u201csubsequentes\u201d ou seja, j\u00e1 terminaram o ensino m\u00e9dio e agora buscam uma qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que tenha valor no mercado de trabalho. Este tipo de curso continuar\u00e1 sendo necess\u00e1rio, e precisa ser ampliado.<\/p>\n<p>A nova legisla\u00e7\u00e3o, se aperfei\u00e7oada, pode abrir novas perspectiva para o ensino m\u00e9dio, mas, para que isto aconte\u00e7a, v\u00e3o ser necess\u00e1rias pol\u00edticas espec\u00edficas de apoio t\u00e9cnico e financeiro, capacita\u00e7\u00e3o de professores, e um forte envolvimento do setor produtivo com a educa\u00e7\u00e3o profissional. \u00c9 um caminho logo e dif\u00edcil para um pa\u00eds que nunca conseguiu fazer isto direito, mas \u00e9 preciso come\u00e7ar, sabendo que n\u00e3o h\u00e1 muito perder com o atual sistema.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Medida Provis\u00f3ria sobre o ensino m\u00e9dio teve o grande m\u00e9rito de deixar claro que o atual formato do ensino m\u00e9dio \u00e9 invi\u00e1vel, e que \u00e9 necess\u00e1rio dar aos estudantes a possibilidade de optar por diferentes \u00e1reas de concentra\u00e7\u00e3o e aprofundamento, sejam mais acad\u00eamicas, de prepara\u00e7\u00e3o para o ensino superior, sejam mais pr\u00e1ticas, de qualifica\u00e7\u00e3o &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-que-fazer-para-que-a-reforma-do-ensino-medio-de-certo\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O que fazer para que a reforma do ensino m\u00e9dio d\u00ea certo?&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[41,52],"tags":[],"class_list":["post-5628","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-profissionalvocational-education","category-educacao-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5628"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5628\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5636,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5628\/revisions\/5636"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}