{"id":5969,"date":"2018-04-11T10:42:01","date_gmt":"2018-04-11T13:42:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=5969"},"modified":"2018-04-11T11:38:43","modified_gmt":"2018-04-11T14:38:43","slug":"educacao-por-competencias-qual-e-a-questao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/educacao-por-competencias-qual-e-a-questao\/","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o por compet\u00eancias: qual \u00e9 a quest\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>O tema da educa\u00e7\u00e3o por compet\u00eancias, central na proposta do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o para a Base Nacional Curricular Comum do Ensino M\u00e9dio, merece uma discuss\u00e3o aprofundada. <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=5950\">Em meu coment\u00e1rio<\/a>, eu afirmei que o documento procura fugir, de prop\u00f3sito, da organiza\u00e7\u00e3o do conhecimento em disciplinas e linhas de pesquisa e estudo, que \u00e9 a forma em que o conhecimento se d\u00e1 e \u00e9 transmitido na pr\u00e1tica, e procura substitui-los por uma linguagem formal e abstrata de \u2018compet\u00eancias\u2019 e \u2018habilidades\u2019\u00a0 que pode ser \u00fatil em processos muito espec\u00edficos de treinamento para atividades pr\u00e1ticas, mas \u00e9 muito question\u00e1vel quando se pretende aplic\u00e1-la a processos formativos mais amplos.\u00a0 Claudia Costin, em uma mensagem, discordou, dizendo que \u00a0\u201ctodos os curr\u00edculos mais atualizados de pa\u00edses desenvolvidos trabalham com compet\u00eancias\u201d. \u00a0Charbel El-Hani lembrou que o termo \u201ccompet\u00eancias\u201d pode significar coisas muito distintas: para o su\u00ed\u00e7o Phillipe Perrenaud, cujo trabalho \u00e9 bem conhecido no Brasil, o foco s\u00e3o as compet\u00eancias para a vida, enquanto que, para a OECD, o foco seriam as compet\u00eancias para o mercado de trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que abordagens de educa\u00e7\u00e3o por compet\u00eancias tem sido adotadas em muitas partes do mundo, mas n\u00e3o em todas, como Claudia Costin faz crer. Uma an\u00e1lise da ado\u00e7\u00e3o internacional desta abordagem mostra que \u00a0que ela tem sido promovida por organiza\u00e7\u00f5es internacionais como a OECD e usada em muitos pa\u00edses da Europa, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina, mas n\u00e3o nos Estados Unidos nem nos pa\u00edses asi\u00e1ticos; que em muitos casos, como na Inglaterra e na \u00c1frica do Sul, reformas curriculares baseadas em compet\u00eancias foram revertidas; e que o que se entende por \u201ceduca\u00e7\u00e3o baseada em compet\u00eancias\u201d varia muito de pa\u00eds a pa\u00eds e entre diferentes n\u00edveis educacionais (Anderson-Levitt 2017).<\/p>\n<p>Mas do que se trata, afinal?\u00a0 Como o termo tem sido usado de maneiras muito diferentes, n\u00e3o existe uma resposta \u00fanica.\u00a0O conceito tem origem na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o vocacional nos Estados Unidos nos anos 70, e a ideia principal \u00e9 identificar com clareza as aptid\u00f5es que os trabalhadores deveriam adquirir para o desempenho de atividades espec\u00edficas no mercado de trabalho, concentrando a capacita\u00e7\u00e3o no desenvolvimento das compet\u00eancias e habilidades, e n\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o mais te\u00f3rica ou formal. Em uma an\u00e1lise que se tornou cl\u00e1ssica, a soci\u00f3loga inglesa Alyson Wolf mostra como esta ideia foi adotada entusiasticamente na Inglaterra nos anos 80 para a elabora\u00e7\u00e3o do que ficou conhecido como o \u201cNational Vocational Qualifications Framework\u201d, como isto n\u00e3o funcionou, e ela mesma foi uma das principais respons\u00e1veis por fazer com que esta orienta\u00e7\u00e3o fosse mais tarde abandonada (Wolf 1995, 2011).<\/p>\n<p>Mas a educa\u00e7\u00e3o por compet\u00eancias passou a ser adotada tamb\u00e9m em muitas partes para a educa\u00e7\u00e3o geral e a educa\u00e7\u00e3o superior, com diversas perspectivas e abordagens. \u00c9 um movimento que tem sido fortemente criticado por ignorar os conte\u00fados formativos e culturais que, em todos os n\u00edveis, devem fazer parte de qualquer processo educativo, e substitui-los por uma vis\u00e3o estritamente comportamentalista (Preston 2017). \u00a0No outro extremo, a proposta da Base Nacional do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o pode ser caracterizada como tendo uma vis\u00e3o relativista e \u201cp\u00f3s-moderna\u201d que tamb\u00e9m ignora os processos educativos e culturais mais b\u00e1sicos, como evidenciado pelos <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=5961\">coment\u00e1rios de Claudio de Moura Castro.<\/a><\/p>\n<p>V\u00e1rios documentos recentes da OECD elaboram o que denominam de \u201ccompet\u00eancias para o s\u00e9culo XXI\u201d, propostas como o caminho para a educa\u00e7\u00e3o para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas (OECD 2018). Em um esquema bastante instrutivo, o texto da OECD divide as compet\u00eancias em tr\u00eas categorias, o <em>conhecimento\u00a0<\/em>(disciplinar, interdisciplinar, epist\u00eamico e procedural), as <em>habilidades<\/em>\u00a0(skills) (cognitivas e meta-cognitivas, sociais e emocionais, e f\u00edsicas e pr\u00e1ticas) e as <em>atitudes e valores<\/em>\u00a0(pessoais, locais, societais e globais). Diz o documento da OECD:<\/p>\n<p>\u201cO conceito de compet\u00eancia implica mais do que apenas a aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos e habilidades; envolve a mobiliza\u00e7\u00e3o de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para atender demandas complexas. Alunos preparados para o futuro precisar\u00e3o de conhecimento amplo e especializado. O <em>conhecimento disciplinar continuar\u00e1 a ser importante, como a mat\u00e9ria-prima a partir da qual o novo conhecimento \u00e9 desenvolvido<\/em>, juntamente com a capacidade de pensar al\u00e9m das fronteiras das disciplinas e \u201cconectar os pontos\u201d. <em>Conhecimento epist\u00eamico, ou conhecimento sobre as disciplinas, como saber pensar como um matem\u00e1tico, historiador ou cientista, tamb\u00e9m ser\u00e1 significativo, permitindo que os estudantes ampliem seus conhecimentos disciplinares<\/em>. O conhecimento processual \u00e9 adquirido pela compreens\u00e3o de como algo \u00e9 feito &#8211; a s\u00e9rie de passos ou a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para atingir um objetivo. Alguns conhecimentos procedurais s\u00e3o espec\u00edficos de determinados dom\u00ednios, outros transfer\u00edveis entre dom\u00ednios. Ele geralmente se desenvolve atrav\u00e9s da solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de problemas, como por meio do <em>design thinking\u00a0<\/em>e do pensamento sist\u00eamico.\u201d (p. 5, tradu\u00e7\u00e3o e grifos meus).<\/p>\n<p>Em outras palavras, a interdisciplinaridade, o pensamento cr\u00edtico, as atitudes, valores e tudo mais n\u00e3o se desenvolvem <em>no lugar <\/em>da forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica nas disciplinas, mas em adi\u00e7\u00e3o a elas.<\/p>\n<p>Em uma an\u00e1lise detalhada dos diferentes sentidos e usos do conceito de educa\u00e7\u00e3o por compet\u00eancias, o professor Elio Carlos Ricardo, da Universidade de S\u00e3o Paulo, escrevia em 2010 que \u201cn\u00e3o caberia colocar a no\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias em meio a falsas dicotomias, como compet\u00eancias <em>versus <\/em>conte\u00fados, cultura geral <em>versus <\/em>utilitarismo ou teoria <em>versus <\/em>pr\u00e1tica. Ao contr\u00e1rio, todas essas dimens\u00f5es dos saberes integram as compet\u00eancias que s\u00e3o pertinentes tanto quanto responderem a situa\u00e7\u00f5es desconhecidas\u201d. Sobre as diretrizes curriculares do ensino m\u00e9dio ent\u00e3o aprovadas pelo governo, ele assinalava que \u201cao mesmo tempo em que as DCNEM sugerem uma estrutura curricular na perspectiva das compet\u00eancias, n\u00e3o houve uma discuss\u00e3o te\u00f3rica que apresentasse a no\u00e7\u00e3o de compet\u00eancia como alternativa did\u00e1tica vi\u00e1vel para enfrentar os problemas de ensino e aprendizagem\u201d (Ricardo 2010).<\/p>\n<p>\u00c9 esta a discuss\u00e3o e esclarecimento de ideias que ainda precisam ser feitos.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Anderson-Levitt, Kathryn. 2017. &#8220;Global Flows of Competence-based Approaches in Primary and Secondary Education.&#8221;\u00a0 <em>Cahiers de la recherche sur l\u2019\u00e9ducation et les savoirs<\/em>(16):47-72.<\/p>\n<p>OECD. 2018. <em>The Future of Education and Skills &#8211; The Future we want<\/em>.<\/p>\n<p>Preston, John. 2017. <em>Competence Based Education and Training (CBET) and the End of Human Learning &#8211; The Existential Threat of Competency<\/em>: Palgrave Macmillan.<\/p>\n<p>Ricardo, Elio Carlos. 2010. &#8220;Discuss\u00e3o acerca do Ensino por compet\u00eancias: problemas e alternativas.&#8221;\u00a0 <em>Cadernos de Pesquisa\u00a0<\/em>40 (140).<\/p>\n<p>Wolf, Alison. 1995. <em>Competence-based assessment<\/em>, <em>Assessing assessment<\/em>. Buckingham England;, Philadelphia: Open University Press.<\/p>\n<p>Wolf, Alison. 2011. <em>Review of Vocational Education \u2013 The Wolf Report<\/em>. London: Stationary Office.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tema da educa\u00e7\u00e3o por compet\u00eancias, central na proposta do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o para a Base Nacional Curricular Comum do Ensino M\u00e9dio, merece uma discuss\u00e3o aprofundada. 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