{"id":60,"date":"2006-04-16T15:23:00","date_gmt":"2006-04-16T18:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=60"},"modified":"2008-08-03T18:10:23","modified_gmt":"2008-08-03T21:10:23","slug":"peter-fry-e-yvonne-maggie-sobre-cotas-nas-universidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/peter-fry-e-yvonne-maggie-sobre-cotas-nas-universidades\/","title":{"rendered":"Peter Fry e Yvonne Maggie sobre cotas nas universidades"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-style: italic;\">Peter Fry e Yvonne Maggie publicaram o seguinte texto no O Globo de 11 de abril:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Pol\u00edtica social de Alto Risco<\/span><\/p>\n<p>A C\u00e2mara dos Deputados votar\u00e1 nas pr\u00f3ximas semanas o projeto de lei 73\/99 que obriga todas as institui\u00e7\u00f5es federais de ensino superior a adotar 50% de cotas ou reserva de vagas para estudantes de escolas p\u00fablicas e dentro dessa cota um percentual de estudantes negros (pretos e pardos na classifica\u00e7\u00e3o do IBGE), ind\u00edgenas e outras minorias. Estas cotas ser\u00e3o aplicadas linearmente em todos os cursos das universidades federais.<\/p>\n<p>Por que essa medida \u00e9 pol\u00eamica? Uns dizem que vai reduzir a qualidade de ensino e pesquisa das universidades federais.  Pode ser.  Mas o que quer\u00edamos sugerir \u00e9 que esta lei traz conseq\u00fc\u00eancias que v\u00e3o muito al\u00e9m das portas das universidades.  Ela implica um projeto radicalmente novo de na\u00e7\u00e3o.  A lei, se aprovada, ir\u00e1 instituir, no \u00e2mbito federal, o negro como figura jur\u00eddica, o que j\u00e1 ocorreu em 2001 no Estado do Rio de Janeiro, com a aprova\u00e7\u00e3o da lei de reserva de vagas para as universidades estaduais votado por aclama\u00e7\u00e3o pela Assembl\u00e9ia Legislativa.<\/p>\n<p>O que significa instituir o negro como entidade jur\u00eddica? Significa uma mudan\u00e7a radical no nosso estatuto jur\u00eddico republicano, que, at\u00e9 agora, ignora \u201cra\u00e7a\u201d e pune o racismo como crime inafian\u00e7\u00e1vel e imprescrit\u00edvel como os demais crimes hediondos.  Se passar essa lei e os cidad\u00e3os ser\u00e3o divididos em duas \u201cra\u00e7as\u201d com direitos distintos de acordo com a sua perten\u00e7a a uma ou outra dessas duas categorias. A pol\u00edtica de cotas raciais, como vem sendo denominada, institui, portanto uma sociedade dividida entre \u201cbrancos\u201d e \u201cnegros\u201d. Em outros lugares do mundo esse tipo de engenharia social trouxe mais dor do que al\u00edvio para os problemas a que visava solucionar.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns que dizem que quem \u00e9 contra as cotas apenas defende os seus privil\u00e9gios.   A pol\u00edtica de cotas raciais em nada vai afetar as elites endinheiradas do pa\u00eds.  Estas continuar\u00e3o mandando os seus rebentos para os cursos pr\u00e9-vestibulares mais badalados, e encaminhar\u00e3o a sua prole menos competitiva para universidades no primeiro mundo.  As cotas s\u00e3o destinadas justamente para a classe m\u00e9dia baixa que s\u00f3 agora com a expans\u00e3o do ensino de segundo grau pode sonhar em ver os seus filhos entrarem na universidade. E essa classe m\u00e9dia ascendente \u00e9 justamente aquela em que gentes de todas as cores convivem nas mesmas fam\u00edlias e vizinhan\u00e7as.  Queremos cindir esse universo social em duas \u201cra\u00e7as\u201d?<\/p>\n<p>Dir\u00e3o os proponentes dessa pol\u00edtica que o pa\u00eds j\u00e1 \u00e9 dividido na pr\u00e1tica, na realidade, no dia a dia. Mas \u00e9 justamente contra isso que o anti-racista deve lutar. A luta contra o racismo deve ser priorit\u00e1ria, dever de todo o cidad\u00e3o. No entanto, o rem\u00e9dio que est\u00e1 sendo ofertado em uma bandeja de prata, \u00e9 um rem\u00e9dio barato (posto que \u00e9 uma pol\u00edtica de custo zero que n\u00e3o  ir\u00e1 onerar os cofres p\u00fablicos) e  arriscado, pois o seu custo social pode ser muito alto. \u00c9 uma pol\u00edtica de curto prazo cujas conseq\u00fc\u00eancias ser\u00e3o sentidas no longo prazo.<\/p>\n<p>Outros defensores das cotas acusam aqueles que t\u00eam d\u00favidas, de racistas, evidentemente no intuito de calar a cr\u00edtica. Mas as nossas cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica de cotas raciais partem de um anti-racismo que se espanta com a forte correla\u00e7\u00e3o entre cor escura e pobreza, e que se revolta perante o preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o, velados ou n\u00e3o, que contribuem para tal desigualdade. Um anti-racismo que percebe com toda clareza que a discrimina\u00e7\u00e3o e o preconceito derivam das representa\u00e7\u00f5es sociais que hierarquizam entidades denominadas \u201cra\u00e7as\u201d.  Por isso, nos sentimos na obriga\u00e7\u00e3o de lutar contra essas representa\u00e7\u00f5es, uma vez que \u00e9 a persist\u00eancia delas que possibilita a continuidade da discrimina\u00e7\u00e3o e, portanto, da desigualdade.<\/p>\n<p>O debate sobre as cotas \u00e9 um debate sobre o Brasil. O que est\u00e1 em pauta s\u00e3o dois projetos de combate ao racismo: um pela via do fortalecimento das identidades \u201craciais\u201d e, em \u00faltima an\u00e1lise, do genoc\u00eddio dos \u201cpardos\u201d, \u201ccaboclos\u201d, \u201cmorenos\u201detc.; outro pela via do anti-racismo que procura concentrar esfor\u00e7os na diminui\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as de classe e uma luta cont\u00ednua contra as representa\u00e7\u00f5es negativas atribu\u00eddas \u00e0s pessoas mais escuras.   Esses projetos tamb\u00e9m s\u00e3o projetos distintos de na\u00e7\u00e3o.  Um vislumbra uma na\u00e7\u00e3o pautada das diferen\u00e7as \u201c\u00e9tnicas\/raciais\u201d\u2014isto \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o de comunidades.  Outro projeto aposta na constru\u00e7\u00e3o de uma cidadania com direitos em comum independentemente de \u201cra\u00e7a\u201d, \u201cetnia\u201d, g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual, etc., salvaguardando o direito de cada individuo a seguir o estilo de vida que mais lhe conv\u00e9m\u2014isto \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos.  Enfim, argumentamos que n\u00e3o se pode acabar com o racismo com uma pol\u00edtica que entroniza a \u201cra\u00e7a\u201d. Quando o Estado legisla sobre esta mat\u00e9ria ele funda a \u201cra\u00e7a\u201d, cria justamente aquilo que quer ver destru\u00eddo. Merecemos melhor solu\u00e7\u00e3o para os graves problemas que nos assolam.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Fry e Yvonne Maggie publicaram o seguinte texto no O Globo de 11 de abril: Pol\u00edtica social de Alto Risco A C\u00e2mara dos Deputados votar\u00e1 nas pr\u00f3ximas semanas o projeto de lei 73\/99 que obriga todas as institui\u00e7\u00f5es federais de ensino superior a adotar 50% de cotas ou reserva de vagas para estudantes de &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/peter-fry-e-yvonne-maggie-sobre-cotas-nas-universidades\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Peter Fry e Yvonne Maggie sobre cotas nas universidades&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[11,14],"tags":[],"class_list":["post-60","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-superior","category-politica-racial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":499,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60\/revisions\/499"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}