{"id":6095,"date":"2018-08-12T07:38:04","date_gmt":"2018-08-12T10:38:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6095"},"modified":"2022-12-15T20:09:29","modified_gmt":"2022-12-15T23:09:29","slug":"ensino-medio-sem-aberracao-e-a-base-fraturada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/ensino-medio-sem-aberracao-e-a-base-fraturada\/","title":{"rendered":"Ensino m\u00e9dio sem aberra\u00e7\u00e3o, e a base fraturada"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align:center\"><p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ensino m\u00e9dio sem aberra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Publicado no jornal &nbsp;<em>O Globo,<\/em> 12\/8\/2018)<\/p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A poucos meses das elei\u00e7\u00f5es, antes que o governo termine, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o se mobiliza para organizar o novo ensino m\u00e9dio, reformado pela lei 13.415 de fevereiro de 2017. H\u00e1 pouca clareza, no entanto, sobre como isto ser\u00e1 feito, e muitas cr\u00edticas baseadas muitas vezes em pouca informa\u00e7\u00e3o sobre o problema e poss\u00edveis encaminhamentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A necessidade da reforma \u00e9 clara: dos jovens que t\u00eam hoje 25 anos, 13% completaram o ensino superior, 15% ainda est\u00e3o estudando neste n\u00edvel, 41% s\u00f3 completaram o ensino m\u00e9dio, e 31% n\u00e3o chegaram l\u00e1. Todas as escolas preparam para um exame \u00fanico, o ENEM, que obriga a todos a estudar um monte de mat\u00e9rias que ser\u00e3o esquecidas no dia seguinte, e s\u00f3 beneficia um pequeno n\u00famero que consegue entrar nas universidades p\u00fablicas ou ganhar uma das bolsas do PROUNI. Dos que entram em uma universidade, p\u00fablica ou privada, metade abandona antes de terminar. Entre 2004 e 2014, o Brasil triplicou os investimentos por aluno no ensino m\u00e9dio, mas a qualidade permanece estagnada: a grande maioria termina sem saber um m\u00ednimo de matem\u00e1tica e de linguagem, e fica com um t\u00edtulo que lhe serve de muito pouco na vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lei da reforma tentou juntar propostas que j\u00e1 vinham sendo elaboradas pela Comiss\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara de Deputados, liderada pelo Deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) e pelo Conselho de Secret\u00e1rios Estaduais de Educa\u00e7\u00e3o, e acomodar diferentes pontos de vista que foram se manifestando nos debates da proposta inicial, apresentada como Medida Provis\u00f3ria. Ficou meio tosca, mas algumas coisas importantes foram aprovadas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Ao inv\u00e9s de obrigar todo mundo a estudar tudo, os estudantes passam a se aprofundar em determinadas \u00e1reas (os \u201citiner\u00e1rios formativos\u201d), a partir de um conjunto m\u00ednimo de \u00e1reas comuns de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; O ensino t\u00e9cnico de n\u00edvel m\u00e9dio, que at\u00e9 hoje tem sido uma \u00e1rea adicional ao curr\u00edculo tradicional, passa a ficar dentro, como um dos itiner\u00e1rios poss\u00edveis<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Ao inv\u00e9s de organizar o curr\u00edculo por mat\u00e9rias e aulas tradicionais, os conte\u00fados passam a ser estabelecidos por grandes temas e compet\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; O tempo de aula, que hoje \u00e9 de quatro ou at\u00e9 menos horas por dia, passa a cinco horas, e, na medida do poss\u00edvel, para tempo integral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com isto, o ensino m\u00e9dio no Brasil deixa de ser uma aberra\u00e7\u00e3o e se torna mais parecido com o que ocorre no resto do mundo. Para que isto funcione, existem muitas coisas que precisam ser feitas. Primeiro, definir com clareza qual \u00e9 a parte comum e quais as principais trajet\u00f3rias, ou itiner\u00e1rios formativos, que os alunos podem seguir. O documento da Base Nacional Curricular Comum do Ensino M\u00e9dio publicado meses atr\u00e1s pelo MEC tentou fazer parte disso, mas n\u00e3o ficou bom. Segundo, substituir o atual ENEM unificado por um conjunto de provas distintas a ser feitas pelos alunos conforme suas trajet\u00f3rias e expectativas de estudo. Terceiro, fortalecer o ensino t\u00e9cnico e profissional de n\u00edvel m\u00e9dio, que pode ser a melhor op\u00e7\u00e3o para muitos, mas n\u00e3o pode ser um beco sem sa\u00edda para quem queira continuar estudando. Quarto, acabar efetivamente com o ensino m\u00e9dio noturno, que n\u00e3o funciona na pr\u00e1tica e ainda \u00e9 a realidade de 25% dos alunos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais complicado do que tudo isto ser\u00e1 mudar a cultura das escolas e a pr\u00e1tica tradicional de nossos professores, de que a educa\u00e7\u00e3o se reduz a horas de aula com os professores falando e os alunos repetindo. No novo ensino m\u00e9dio, devem preponderar o aprofundamento dos temas, o desenvolvimento de projetos, os altos padr\u00f5es de exig\u00eancia e, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que nem todos podem fazer de tudo, mas cada um deve poder fazer o melhor dentro de suas escolhas e suas possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><p>O MEC e o Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o fazem bem em querer terminar este ano com pelo menos as linhas mestras do novo sistema j\u00e1 esbo\u00e7ados. Mas \u00e9 importante entender que este \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o de um longo processo que precisa ser acompanhado de outras reformas, n\u00e3o menos importantes, na educa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-escolar, fundamental e superior.<\/p>\n<hr><\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><p style=\"text-align: center;\"><strong>Fraturas na Base<\/strong><\/p>\n<p>Para quem quiser se aprofundar sobre os problemas da Base Nacional Curricular Comum elaborada pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, o Instituto Alfaebeto acaba de publicar um &nbsp;livro que pode ser baixado gratuitamente, Fraturas na Base: Fragilidades estruturais da BNCC,&nbsp; editado por Jo\u00e3o Batista Araujo e Oliveira, que critica tanto o conte\u00fado do texto quanto o processo pelo qual ele foi preparado.<\/p>\n<p>Segundo o editor, &#8220;o produto peca por diversas raz\u00f5es. O nome do documento j\u00e1 suscita problemas. Na maioria dos pa\u00edses o nome usado para o documento nacional de orienta\u00e7\u00e3o da atividade escolar \u00e9 programa de ensino ou curr\u00edculo. Esse documento indica, com clareza, o que deve ser ensinado nas diferentes etapas de ensino. O que varia nos diversos pa\u00edses \u00e9 o grau de detalhamento. J\u00e1 a nossa base ficou no meio do caminho \u2013 ningu\u00e9m sabe ao certo se falta algo ou o que ainda ser\u00e1 preciso fazer nos estados e munic\u00edpios. E o documento n\u00e3o prima pela clareza&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Um segundo problema decorre do primeiro: por n\u00e3o se definir como curr\u00edculo a BNCC n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o os pilares b\u00e1sicos de um curr\u00edculo \u2013 estrutura e sequ\u00eancia. Praticamente s\u00f3 a Matem\u00e1tica recebe um tratamento adequado. Tamb\u00e9m \u2013 como ficar\u00e1 claro da leitura dos v\u00e1rios cap\u00edtulos deste livro &#8211; a BNCC n\u00e3o passa no teste dos tr\u00eas crit\u00e9rios fundamentais para avaliar a qualidade de um curr\u00edculo, foco, rigor e consist\u00eancia. Mas, dir\u00e3o os seus proponentes \u2013 afinal a BNCC n\u00e3o \u00e9 curr\u00edculo, portanto&#8230;. n\u00e3o precisa ter essas caracter\u00edsticas&#8230; Mas ent\u00e3o, afinal o que \u00e9 essa BNCC? E quais seriam crit\u00e9rios adequados para sua formula\u00e7\u00e3o e sua avalia\u00e7\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>Boa leitura!<\/p><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ensino m\u00e9dio sem aberra\u00e7\u00e3o (Publicado no jornal &nbsp;O Globo, 12\/8\/2018) A poucos meses das elei\u00e7\u00f5es, antes que o governo termine, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o se mobiliza para organizar o novo ensino m\u00e9dio, reformado pela lei 13.415 de fevereiro de 2017. 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