{"id":6130,"date":"2018-10-08T09:46:50","date_gmt":"2018-10-08T12:46:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6130"},"modified":"2021-05-29T16:04:00","modified_gmt":"2021-05-29T19:04:00","slug":"luisa-f-schwartzman-por-que-mais-repressao-nao-gera-mais-seguranca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/luisa-f-schwartzman-por-que-mais-repressao-nao-gera-mais-seguranca\/","title":{"rendered":"Luisa F. Schwartzman: In\u00fatil Repress\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Vers\u00e3o ampliada de <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/opiniao\/inutil-repressao-23153341\">artigo publicado no O Globo, 13 de outubro de 2018)<\/a><\/p>\n<span hidden class=\"__iawmlf-post-loop-links\" data-iawmlf-links=\"[{&quot;id&quot;:211,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/oglobo.globo.com\\\/opiniao\\\/inutil-repressao-23153341&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;checks&quot;:[],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:null,&quot;process&quot;:&quot;done&quot;},{&quot;id&quot;:212,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.utm.utoronto.ca\\\/sociology\\\/faculty-staff\\\/schwartzman-luisa&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20200811161749\\\/https:\\\/\\\/www.utm.utoronto.ca\\\/sociology\\\/faculty-staff\\\/schwartzman-luisa&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.utm.utoronto.ca\\\/sociology\\\/people\\\/luisa-farah-schwartzman&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-17 19:44:40&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-22 00:46:50&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-27 03:04:20&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-03 12:36:51&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-11 17:25:58&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-18 02:46:39&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-23 02:51:06&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-29 21:03:58&quot;,&quot;http_code&quot;:206}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-29 21:03:58&quot;,&quot;http_code&quot;:206},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]\"><\/span>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sucesso de Jair Bolsonaro e de outros candidatos a governador, deputado, senador, que defendem uma pol\u00edtica tipo &#8220;linha dura&#8221; nessas elei\u00e7\u00f5es tem a ver com a inseguran\u00e7a pol\u00edtica e com a inseguran\u00e7a do dia-a-dia que o brasileiro est\u00e1 vivendo. Eu vou focar hoje na inseguran\u00e7a do dia-a-dia, que \u00e9 a quest\u00e3o da viol\u00eancia, do crime e da seguran\u00e7a  p\u00fablica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica de muitas pessoas que defendem mais repress\u00e3o \u00e9 a seguinte: o problema da seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil \u00e9 a impunidade. Ou seja, se a pol\u00edcia prender mais bandidos, se os jovens de 16 anos que cometem um crime tamb\u00e9m forem para a pris\u00e3o, se as senten\u00e7as forem mais severas, e se a gente tiver mais leis e mais policiamento que n\u00e3o deixe as pessoas usarem ou venderem drogas, fazerem barulho na rua, etc, as nossas cidades v\u00e3o ficar mais seguras. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil \u00e9 hoje a terceira popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo, ficando s\u00f3 atr\u00e1s da China e dos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, que parece ser o nosso modelo de repress\u00e3o, existem comunidades (em geral de maioria pobres e negras) onde mais da metade dos homens jovens est\u00e3o presos, e uma boa parte das pessoas soltas est\u00e3o em liberdade condicional. Isso significa que as crian\u00e7as crescem sem pai, que as fam\u00edlias tem menos uma pessoa para trabalhar. As pessoas que s\u00e3o ex-presidi\u00e1rias t\u00eam dificuldade de conseguir emprego, porque ningu\u00e9m quer contratar um ex-presidi\u00e1rio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil (assim como nos EUA), a maioria das pessoas s\u00e3o presas por crimes n\u00e3o-violentos: vender drogas, roubos e furtos, etc. A repress\u00e3o ao tr\u00e1fico de drogas, nos dois pa\u00edses, foi uma das grandes causas do crescimento da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, entrar numa pris\u00e3o significa fazer um pacto de longo prazo com o mundo do crime. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, as organiza\u00e7\u00f5es do tr\u00e1fico de drogas (as gangues americanas, e organiza\u00e7oes grandes como o PCC e o Comando Vermelho no Brasil) dominam a vida do dia-a-dia nas pris\u00f5es. Especialmente no Brasil (mas tamb\u00e9m, de certa forma, nos Estados Unidos) existe um acordo t\u00e1cito entre a administra\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios e o crime organizado onde este \u00faltimo tem muito poder para regular a vida dos presidi\u00e1rios. As gangues nos EUA e os traficantes no Brasil t\u00e9m um poder enorme sobre a qualidade de vida dos prisioneiros, especialmente quem vai apanhar dentro da pris\u00e3o, e quem vai receber um tratamento melhor. No Brasil, onde o tr\u00e1fico tem relativamente mais poder nas pris\u00f5es, e tamb\u00e9m nas comunidades de onde vem e voltam os prisioneiros, o tr\u00e1fico \u00e9 a conex\u00e3o do prisioneiro com o mundo l\u00e1 fora, em termos de visitas de familiares, produtos para comprar, e at\u00e9 a chance de conseguir sair da pris\u00e3o, e a vida que o preso vai ter depois de solto. Tudo isso est\u00e1 condicionado \u00e0 pessoa se afiliar ao tr\u00e1fico. As pris\u00f5es s\u00e3o escolas de viol\u00eancia: apanhar e bater na pris\u00e3o \u00e9 algo corriqueiro. As pesquisas sobre contextos de guerra, de viol\u00eancia urbana, e das pris\u00f5es, mostram que a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma coisa natural dos seres humanos: as pessoas aprendem e se acostumam a matar, bater, e torturar \u00e0 medida em que isso se torna &#8220;normal&#8221; na sua vida. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A melhora da seguran\u00e7a p\u00fablica, paradoxalmente, passa, em muitos casos, por uma pol\u00edtica de menos repress\u00e3o. A legaliza\u00e7\u00e3o das drogas significaria menos pessoas presas, menos traficantes acertando d\u00edvidas de forma violenta e fora do sistema legal, e a remo\u00e7\u00e3o de uma fonte importante de renda para o crime organizado. Legalizar n\u00e3o significa que qualquer pesssoa pode vender drogas como quiser e ter acesso a drogas em qualquer lugar, de qualquer maneira. Se pode regular quem pode vender, onde, e para quem, e fornecer servi\u00e7os de sa\u00fade aos usu\u00e1rios de drogas para eles se livrarem do v\u00edcio ou que tomem drogas em condi\u00e7\u00f5es mais seguras. Oferecer penas alternativas em rela\u00e7\u00e3o a crimes pequenos, que n\u00e3o levem os jovens \u00e0 pris\u00e3o e deem a eles uma segunda chance, poderia tirar muitos jovens do mundo do crime organizado. E num pa\u00eds onde crian\u00e7as de 13 anos \u00e0s vezes trabalham como &#8220;soldados&#8221; do tr\u00e1fico, talvez a gente tivesse que buscar modelos de reintegra\u00e7\u00e3o desses jovens \u00e0 sociedade, como se tem feito em alguns pa\u00edses onde guerras civis usaram soldados-crian\u00e7a que, como alguns desses jovens, se acostumaram a matar desde cedo, antes de poderem se desenvolver como pessoas adultas. A redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, enquanto isso, s\u00f3 vai trazer mais recrutas para o crime organizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um ponto final \u00e9 a quest\u00e3o das armas. Bolsonaro e outros pol\u00edticos oferecem dar armas para as pessoas se defenderem. A pol\u00edcia andar fortemente armada tamb\u00e9m \u00e9 considerada por alguns uma medida necess\u00e1ria para combater o crime. Mas essas armas terminam nas m\u00e3os de criminosos, seja pelo com\u00e9rcio de armas entre a pol\u00edcia e o tr\u00e1fico, seja porque um criminoso muitas vezes usa a arma de uma pessoa despreparada contra ela mesma.  A presen\u00e7a de armas torna brigas de bar, de fam\u00edlia, entre meninos nas escolas, etc, de uma situa\u00e7\u00e3o onde algu\u00e9m fica com um olho roxo, para a uma situa\u00e7\u00e3o em que o resultado \u00e9 a morte. Enfim, ao inv\u00e9s de aumentar a seguran\u00e7a, as armas diminuem a seguran\u00e7a para todos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">_________________________<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.utm.utoronto.ca\/sociology\/faculty-staff\/schwartzman-luisa\">Luisa F. Schwartzman \u00e9 professora de Sociologia da Universidade de Toronto, Mississauga<\/a><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Vers\u00e3o ampliada de artigo publicado no O Globo, 13 de outubro de 2018) O sucesso de Jair Bolsonaro e de outros candidatos a governador, deputado, senador, que defendem uma pol\u00edtica tipo &#8220;linha dura&#8221; nessas elei\u00e7\u00f5es tem a ver com a inseguran\u00e7a pol\u00edtica e com a inseguran\u00e7a do dia-a-dia que o brasileiro est\u00e1 vivendo. 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