{"id":6143,"date":"2018-10-22T19:50:16","date_gmt":"2018-10-22T22:50:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6143"},"modified":"2018-10-22T19:50:20","modified_gmt":"2018-10-22T22:50:20","slug":"ensino-a-distancia-nao-ha-milagre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/ensino-a-distancia-nao-ha-milagre\/","title":{"rendered":"Ensino \u00e0 dist\u00e2ncia \u2013 n\u00e3o h\u00e1 milagre"},"content":{"rendered":"<div class='__iawmlf-post-loop-links' style='display:none;' data-iawmlf-post-links='[{&quot;id&quot;:210,&quot;href&quot;:&quot;http:\\\/\\\/www.openuniversity.edu&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20211125072636\\\/https:\\\/\\\/www.openuniversity.edu\\\/&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-15 16:36:47&quot;,&quot;http_code&quot;:403},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-19 13:45:04&quot;,&quot;http_code&quot;:403}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-19 13:45:04&quot;,&quot;http_code&quot;:403},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]'><\/div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align:center\">(Texto publicado na <em>Revista Veja<\/em>, de 24 de outubro de 2018, p. 60-61)<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-gallery alignright columns-1 is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/images.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"241\" height=\"209\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/images.jpg\" alt=\"\" data-id=\"6144\" data-link=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?attachment_id=6144\" class=\"wp-image-6144\"\/><\/a><\/figure><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 2014 e 2017, a percentagem de matriculados em cursos superiores \u00e0 dist\u00e2ncia no Brasil passou de 17.2% a 21.3%, concentrados sobretudo nas institui\u00e7\u00f5es com fins lucrativos, onde, hoje, um ter\u00e7o dos estudantes estudam nesta modalidade. S\u00e3o na maioria pessoas mais velhas, que precisam trabalhar, t\u00eam dificuldade ter boa classifica\u00e7\u00e3o no ENEM para ingressar nas universidades p\u00fablicas, e n\u00e3o podem pagar matr\u00edculas muito caras. Para eles, a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, se bem feita, faz muito sentido. Isto dito, \u00e9 preciso entender que o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, assim como o presencial, pode ser dado de formas muito diferentes, com qualidade muito variada, e n\u00e3o s\u00e3o igualmente aplic\u00e1veis para todos os conte\u00fados e em todos os n\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das vantagens do ensino \u00e0 dist\u00e2ncia \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel preparar aulas excelentes com os melhores professores, acompanhadas de materiais de estudo, sistemas de avalia\u00e7\u00e3o, etc., tudo isto em grande escala. Existem boas experi\u00eancias de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia em todo o mundo, a come\u00e7ar pela famosa <a href=\"http:\/\/www.openuniversity.edu\">Open University<\/a> inglesa. Cursos na modalidade semipresencial, em que os estudante se encontram periodicamente para trabalhar com os professores e t\u00eam possibilidade de interagir com professores e colegas atrav\u00e9s da internet, podem ser melhores do que os cursos noturnos que proliferam no Brasil. Um dos problemas com os cursos \u00e0 dist\u00e2ncia \u00e9 que, trabalhando sozinhos, o n\u00famero de pessoas que abandona o curso antes de terminar \u00e9 muito alto, mas \u00e9 bom lembrar que o abandono nos cursos presenciais no Brasil, mesmo nas universidades p\u00fablicas, \u00e9 pr\u00f3ximo de 50%. Outro problema \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 nada barato criar um sistema em que os alunos possam efetivamente interagir com seus professores \u00e0 dist\u00e2ncia, e, sem isto, a qualidade dos cursos fica muito comprometida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando se trata da educa\u00e7\u00e3o dos jovens, e sobretudo de crian\u00e7as, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito diferente. O processo educativo n\u00e3o consiste somente na transmiss\u00e3o de conhecimentos que podem ser gravados em aulas e codificados em sistemas de ensino, mas em um conjunto muito mais amplo de atitudes, valores e maneiras de pensar e trabalhar que s\u00f3 se transmitem na intera\u00e7\u00e3o direta entre quem ensina e quem aprende, e na conviv\u00eancia di\u00e1rias entre colegas. Em parte, s\u00e3o as chamadas \u201ccompet\u00eancias n\u00e3o cognitivas\u201d, ou caracter\u00edsticas de personalidade, como persist\u00eancia, capacidade de trabalhar em equipe, estabilidade emocional, motiva\u00e7\u00e3o, e outras, de import\u00e2ncia cada vez mais reconhecida na educa\u00e7\u00e3o e no trabalho, que se desenvolvem na experi\u00eancia escolar no dia a dia, quando bem conduzida. Mas tamb\u00e9m os chamados \u201cconhecimentos t\u00e1citos\u201d como a maneira de desenvolver um argumento, a aprecia\u00e7\u00e3o de um texto liter\u00e1rio ou uma obra de arte, o significado de uma demonstra\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a pr\u00e1tica de lidar com materiais e tantas coisas mais que as pessoas s\u00f3 aprendem atrav\u00e9s do contato com outras que j\u00e1 t\u00eam estes conhecimentos e pr\u00e1ticas. E incluem tamb\u00e9m valores, que se transmitem sobretudo pelo exemplo. Na escola, quem pode transmitir tudo isto s\u00e3o os professores. Eles s\u00e3o insubstitu\u00edveis, e toda a evid\u00eancia internacional \u00e9 que a qualidade dos sistemas escolares, e da educa\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds, \u00e9 dada pela qualidade de seus professores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De novo, \u00e9 importante distinguir aqui o ensino fundamental do ensino m\u00e9dio. No ensino fundamental, o uso de recursos pedag\u00f3gicos \u00e0 dist\u00e2ncia s\u00f3 faz sentido de forma complementar, sob orienta\u00e7\u00e3o e acompanhamento dos professores. Existe muito espa\u00e7o para usar recursos \u00e0 dist\u00e2ncia para apoiar os professores, com planos de aula, materiais de demonstra\u00e7\u00e3o, experi\u00eancias de colabora\u00e7\u00e3o com crian\u00e7as de outras escolas, e outros, al\u00e9m dos trabalhos de educa\u00e7\u00e3o continuada dos pr\u00f3prios professores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A recente reforma do ensino m\u00e9dio que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 tratando de implementar traz duas ideias aparentemente contradit\u00f3rias, a prefer\u00eancia pelo ensino m\u00e9dio de tempo integral e a abertura para o ensino m\u00e9dio \u00e0 dist\u00e2ncia. Parece uma contradi\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 para quem esquece da grande variedade dos estudantes e das redes escolares do pa\u00eds. O ensino de tempo integral, como o dos institutos federais e das escolas militares, pode ser bom, mas \u00e9 caro, seletivo (os alunos passam por \u201cvestibulinhos)\u201d, e n\u00e3o h\u00e1 como ampli\u00e1-lo de forma significativa nas redes estaduais, Metade dos alunos do ensino m\u00e9dio no Brasil hoje tem 18 anos ou mais, um quarto estuda \u00e0 noite, muitos precisam trabalhar, a maioria n\u00e3o vai para uma universidade, e todos precisam adquirir compet\u00eancias profissionais que sejam \u00fateis e valorizadas no mercado de trabalho. Para estes, uma combina\u00e7\u00e3o entre cursos presenciais concentrados nas mat\u00e9rias b\u00e1sicas, e cursos mais pr\u00e1ticos em diferentes modalidades, inclusive de intermedia\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, em que os conte\u00fados s\u00e3o produzidos e transmitidos centralmente, mas os alunos assistem em salas de aula acompanhados pelos professores, podem fazer mais sentido, dependendo de onde vivem, dos recursos locais dispon\u00edveis e das \u00e1reas de capacita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o ensino superior, uma quest\u00e3o importante \u00e9 saber se faz sentido para o governo estimular o desenvolvimento do ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, seja nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou no financiamento das institui\u00e7\u00f5es privadas, como substituto para o ensino presencial. Uma justificativa seria a necessidade de ampliar o acesso ao ensino superior, que hoje ainda \u00e9 limitado. Mas o principal obst\u00e1culo \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do ensino superior no Brasil n\u00e3o \u00e9 a falta de vagas ou cursos superiores, mas o n\u00famero ainda pequeno de pessoas que terminam o ensino m\u00e9dio com qualifica\u00e7\u00f5es adequadas para estudos mais avan\u00e7ados. Milh\u00f5es se candidatam todos os anos para o ENEM, poucos se classificam, metade dos que entram em universidades p\u00fablicas ou privadas nunca terminam seus cursos, e muitos dos que se formam acabam trabalhando em atividades de n\u00edvel m\u00e9dio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os que ficam pelo caminho, a educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria \u00e9 uma grande f\u00e1brica de ilus\u00f5es que custa dinheiro e tempo que poderiam ser usados para uma educa\u00e7\u00e3o mais pr\u00e1tica e acess\u00edvel. Multiplicar vagas de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, aonde as taxas de abandono s\u00e3o muito mais altas, \u00e9 agravar ainda mais este quadro. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, em suas diferentes modalidades, quando bem feito e aplicado aos conte\u00fados, n\u00edveis e tipos de alunos adequados, principalmente na educa\u00e7\u00e3o continuada de adultos, \u00e9 um excelente recurso, mas n\u00e3o \u00e9 um substituto para boas escolas e bons professores, sobretudo nos anos iniciais de forma\u00e7\u00e3o. Os problemas da educa\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o se resolver\u00e3o com novas tecnologias nem com educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, mas com bons professores, curr\u00edculos adequados e altos padr\u00f5es de exig\u00eancia de desempenho de estudantes, professores e institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Texto publicado na Revista Veja, de 24 de outubro de 2018, p. 60-61) Entre 2014 e 2017, a percentagem de matriculados em cursos superiores \u00e0 dist\u00e2ncia no Brasil passou de 17.2% a 21.3%, concentrados sobretudo nas institui\u00e7\u00f5es com fins lucrativos, onde, hoje, um ter\u00e7o dos estudantes estudam nesta modalidade. 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