{"id":6255,"date":"2019-03-09T08:51:15","date_gmt":"2019-03-09T11:51:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6255"},"modified":"2019-03-09T08:53:47","modified_gmt":"2019-03-09T11:53:47","slug":"a-fabrica-de-ilusoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-fabrica-de-ilusoes\/","title":{"rendered":"A F\u00e1brica de Ilus\u00f5es"},"content":{"rendered":"<script type='application\/json' class='__iawmlf-post-loop-links'>[{\"id\":194,\"href\":\"https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,a-fabrica-de-ilusoes,70002748548\",\"archived_href\":\"https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20220628204917\\\/https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,a-fabrica-de-ilusoes,70002748548\",\"redirect_href\":\"\",\"checks\":[{\"date\":\"2026-04-15 16:19:40\",\"http_code\":200},{\"date\":\"2026-04-19 17:38:18\",\"http_code\":200},{\"date\":\"2026-04-24 13:13:29\",\"http_code\":200},{\"date\":\"2026-04-29 04:44:33\",\"http_code\":200},{\"date\":\"2026-05-02 12:09:18\",\"http_code\":200},{\"date\":\"2026-05-06 05:26:08\",\"http_code\":200},{\"date\":\"2026-05-11 23:37:23\",\"http_code\":200},{\"date\":\"2026-05-16 17:01:36\",\"http_code\":200}],\"broken\":false,\"last_checked\":{\"date\":\"2026-05-16 17:01:36\",\"http_code\":200},\"process\":\"done\"}]<\/script>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align:center\">(<a href=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,a-fabrica-de-ilusoes,70002748548\">Artigo publicado no jornal O <\/a><em><a href=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,a-fabrica-de-ilusoes,70002748548\">Estado de S\u00e3o Paul<\/a><\/em><a href=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,a-fabrica-de-ilusoes,70002748548\">o em 9\/3\/2019<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"214\" height=\"306\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/decfae18-29bc-4c55-99ba-5ae58e38e65b.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6257\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, todos querem ganhar na loteria, e muita gente joga, mesmo que pouqu\u00edssimos ganhem. No ensino superior \u00e9 parecido: certa de 7 milh\u00f5es se candidatam todo ao ano ENEM, disputando cerca de 300 mil vagas em universidades federais. Muitos dos que n\u00e3o passam v\u00e3o para escolas privadas, em alguns casos com bolsas ou cr\u00e9ditos educativos. Em 2017, 2.5 milh\u00f5es de pessoas entraram em cursos superiores, a grande maioria no setor privado, e 1.2 milh\u00f5es se formaram. Dados do INEP mostram que depois de 4 anos, 31% dos estudantes haviam abandonado o curso, e s\u00f3 11% haviam se formado. O abandono \u00e9 muito maior nas institui\u00e7\u00f5es privadas (37%), e em \u00e1reas como ci\u00eancias matem\u00e1ticas e computa\u00e7\u00e3o (40%), ci\u00eancias sociais (35%) e cursos \u00e0 dist\u00e2ncia (42%).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A peneira, na verdade, come\u00e7a antes. Hoje, existe escola fundamental para todos, mas a qualidade, sobretudo nas redes municipais e estaduais, \u00e9 muito ruim, e a grande maioria chega ao ensino m\u00e9dio mal sabendo escrever e fazer contas. Em 2018, 3 milh\u00f5es de jovens entraram no ensino m\u00e9dio, mas s\u00f3 2.3 milh\u00f5es chegaram ao terceiro ano. Outros 1.4 milh\u00f5es, mais velhos, se matricularam em cursos de educa\u00e7\u00e3o de jovens e adultos, onde a grande maioria n\u00e3o se forma, e qualidade \u00e9 pior ainda. \u00c9 pior do que loteria, porque \u00e9 um jogo de cartas marcadas: filhos de fam\u00edlias mais ricas e educadas e que estudam em escolas particulares ou passam nos \u201cvestibulinhos\u201d das escolas federais t\u00eam mais chances de conseguir boa nota no ENEM, passar na FUVEST, escolher os melhores cursos ou ir para uma escola superior privada de elite; a grande maioria fica pelo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ter educa\u00e7\u00e3o superior hoje no Brasil significa ter uma renda m\u00e9dia do trabalho de 4.600 reais mensais, comparado com 1.600 para os que t\u00eam n\u00edvel m\u00e9dio e 1.350 para os que s\u00f3 t\u00eam o fundamental. Mas depende muito de qual curso e qual faculdade a pessoa seguiu: cerca de metade das pessoas de n\u00edvel superior trabalham em profiss\u00f5es de n\u00edvel m\u00e9dio, com renda pr\u00f3xima de 2400 reais. Para ter maiores benef\u00edcios, \u00e9 preciso entrar em uma carreira disputada como medicina ou engenharia, ou passar na prova da OAB, ou em um dif\u00edcil concurso para um cargo p\u00fablico: \u00e9 para poucos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do imenso custo pessoal para os milh\u00f5es que gastam anos, dinheiro e esperan\u00e7a tentando uma carreira que nunca v\u00e3o atingir, existe o custo p\u00fablico de manter tudo isto. Segundo os dados da Secretaria do Tesouro, os gastos da Uni\u00e3o em educa\u00e7\u00e3o superior passaram de 32 a 75 bilh\u00f5es de reais entre 2008 e 2017, em sua grande maioria na forma de sal\u00e1rios para professores  de tempo integral das universidades federais, enquanto que o cr\u00e9dito educativo, concedido de forma indiscriminada ao setor privado at\u00e9 recentemente, chegou a mais de 30 bilh\u00f5es em 2016 e 2017.  Tudo isto para financiar um sistema com 30% ou mais de inefici\u00eancia, sem falar na qualidade e pertin\u00eancia do que \u00e9 ensinado. O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o mant\u00e9m um sistema extremamente complexo e caro de avalia\u00e7\u00e3o do ensino superior, com as provas do ENADE e a divulga\u00e7\u00e3o de diferentes \u00edndices que n\u00e3o nos dizem quais cursos s\u00e3o efetivamente bons ou ruins, nem qual a empregabilidade dos formados, ou a efici\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es no uso dos recursos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra ilus\u00e3o \u00e9 a suposta \u201cindissociabilidade do ensino, da pesquisa e da extens\u00e3o\u201d consagrada no art. 207 da Constitui\u00e7\u00e3o. Em seu nome, 87% dos professores das institui\u00e7\u00f5es federais e 80% das estaduais t\u00eam contratos de trabalho de tempo integral, e a maioria de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, elevando enormemente os custos, embora a pesquisa que mere\u00e7a este nome \u2013 regular, de padr\u00e3o internacional e de impacto social e econ\u00f4mico \u2013 esteja concentrada em umas poucas institui\u00e7\u00f5es, existam poucas patentes e grande parte dos artigos produzidos terminem enterrados em revistas que ningu\u00e9m l\u00ea. Em seu nome, tamb\u00e9m, as institui\u00e7\u00f5es de ensino s\u00e3o avaliadas pelo que elas n\u00e3o querem n\u00e3o sabem fazer, e nem precisam &#8211; quantos professores doutores t\u00eam, quantos papers produzem, quantos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o oferecem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil sair desta situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reverter o rel\u00f3gio e limitar o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior, mas \u00e9 poss\u00edvel melhorar as avalia\u00e7\u00f5es e oferecer uma gama de alternativas de estudo e forma\u00e7\u00e3o para pessoas que chegam ao ensino superior com diferentes condi\u00e7\u00f5es e necessidades. O \u201cmodelo de Bolonha\u201d, adotado pela Uni\u00e3o Europeia e muitos outros pa\u00edses, consiste em um primeiro ciclo de 3 anos de amplo acesso, seguido por mestrados ou cursos mais avan\u00e7ados. Al\u00e9m disto, existem amplos sistemas de forma\u00e7\u00e3o vocacional que come\u00e7a no ensino m\u00e9dio e continua no p\u00f3s-secund\u00e1rio, em institutos e centros especializados. Transitar do sistema tradicional de cursos de 4 ou 5 anos para este modelo n\u00e3o sido f\u00e1cil, mas \u00e9 poss\u00edvel, se houver uma vis\u00e3o clara do que se pretende, e est\u00edmulos adequados para que as institui\u00e7\u00f5es respondam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O setor privado, que trabalha em uma perspectiva empresarial, j\u00e1 vem se adaptando \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es, compensando a perda dos subs\u00eddios do cr\u00e9dito educativo por cursos \u00e0 dist\u00e2ncia e ampliando a oferta de cursos \u201ctecnol\u00f3gicos\u201d de curta dura\u00e7\u00e3o. O setor p\u00fablico necessita, sobretudo, de incentivos corretos para disputar e usar bem seus recursos, com contratos de gest\u00e3o para cumprir metas diferenciadas e realistas, novas formas de governan\u00e7a e flexibilidade legal e institucional para responder a estes incentivos. E os estudantes devem compartir a responsabilidade e os custos de sua educa\u00e7\u00e3o, sobretudo atrav\u00e9s de cr\u00e9ditos educativos associados \u00e0 renda futura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mercado tem suas vantagens, mas tamb\u00e9m problemas quando a competi\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por baixos custos e venda de ilus\u00f5es.  O ensino superior brasileiro precisa de uma vis\u00e3o de futuro, regras claras de funcionamento, mais flexibilidade e mais transpar\u00eancia, e o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 parte, talvez n\u00e3o seja a melhor ag\u00eancia para regular este sistema. <\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Artigo publicado no jornal O Estado de S\u00e3o Paulo em 9\/3\/2019) No Brasil, todos querem ganhar na loteria, e muita gente joga, mesmo que pouqu\u00edssimos ganhem. 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