{"id":6285,"date":"2019-04-26T19:00:09","date_gmt":"2019-04-26T22:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6285"},"modified":"2019-04-26T19:39:51","modified_gmt":"2019-04-26T22:39:51","slug":"os-problemas-das-universidades-e-da-pesquisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/os-problemas-das-universidades-e-da-pesquisa\/","title":{"rendered":"Os problemas das universidades e da pesquisa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem acompanha meus textos sobre a educa\u00e7\u00e3o brasileira sabe que sou muito cr\u00edtico do sistema que montamos, tanto da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica quanto da superior, e tamb\u00e9m da pesquisa. Mas, assim como os problemas da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica n\u00e3o s\u00e3o o marxismo e as ideologias de g\u00eanero, os problemas do ensino superior n\u00e3o s\u00e3o a filosofia, as ci\u00eancias sociais e, de novo, o marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema central do ensino superior \u00e9, em poucas palavras, a baixa qualidade da grande maioria dos cursos e sua baixa efici\u00eancia, que se manifesta no grande n\u00famero de estudantes que come\u00e7am a estudar e nunca terminam, dos que terminam com qualifica\u00e7\u00f5es rudimentares, e, nas universidades p\u00fablicas, os custos elevados causados sobretudo pelo grande n\u00famero de professores contratados com dedica\u00e7\u00e3o exclusiva como se fossem pesquisadores mas que de fato n\u00e3o o s\u00e3o.&nbsp;&nbsp;A pesquisa, em alguns casos excelente, \u00e9 em sua maioria espalhada de forma rasa em um grande n\u00famero de centros e departamentos desprovidos de equipamentos e de massa cr\u00edtica que produzem resultados que nem t\u00eam impacto acad\u00eamico significativo nem utilidade pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discuss\u00e3o sobre se a pesquisa universit\u00e1ria deve ser puramente acad\u00eamica, guiada pelo interesse e livre escolha dos professores, ou aplicada, voltada a resultados pr\u00e1ticos para a economia e a sociedade, \u00e9 antiga e superada: os bons sistemas de pesquisa fazem as duas coisas. Cientistas e acad\u00eamicos n\u00e3o gostam quando governos come\u00e7am a discutir prioridades na \u00e1rea cient\u00edfica, argumentando que todas as \u00e1reas s\u00e3o importantes, que n\u00e3o se pode discriminar uma \u00e1rea em benef\u00edcio de outras, etc.; mas de fato, em todos os pa\u00edses, os governos e suas ag\u00eancias de pesquisa estabelecem prioridades, porque os recursos s\u00e3o escassos, e n\u00e3o existe um mercado perfeito que regule os investimentos&nbsp;&nbsp;p\u00fablicos em pesquisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No passado, por inspira\u00e7\u00e3o vinda sobretudo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, muitos pa\u00edses tentaram planejar quantos engenheiros, m\u00e9dicos, advogados, dentistas, etc., suas universidades deveriam formar, o que se chamava de \u201cmanpower planning\u201d.&nbsp;&nbsp;Nunca deu certo, e hoje n\u00e3o se faz mais isto: n\u00e3o d\u00e1 para prever quantos ser\u00e3o necess\u00e1rios em cada profiss\u00e3o daqui a 5 ou 10 anos, muitas pessoas mudam de&nbsp;&nbsp;profiss\u00e3o ao longo da vida e a escolha de carreiras depende muito de outros fatores, como a condi\u00e7\u00e3o com que os estudantes chegam ao n\u00edvel superior. H\u00e1 uma ideia, bastante difundida, de que formamos muitos \u201cbachar\u00e9is\u201d e poucos engenheiros, mas, na verdade, o mercado de trabalho para pessoas com n\u00edvel superior no Brasil, como na grande maioria dos pa\u00edses, \u00e9 formado sobretudo por atividades de servi\u00e7o &#8211; administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, defesa e seguridade social (40.3%), educa\u00e7\u00e3o (12%) e atividades financeiras (6%), ficando a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o com somente 7% dos formados (dados da RAIS de 2017). \u00c9 verdade que as novas tecnologias requerem engenheiros altamente qualificados, mas, mesmo em pa\u00edses mais desenvolvidos, seu n\u00famero \u00e9 relativamente menor do que o de servi\u00e7os, e, com o encolhimento relativo do setor industrial, \u00e9 muito comum que muitos engenheiros acabem ficando desempregados, ou trabalhando em outros campos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na pesquisa ocorre fen\u00f4meno semelhante. Os grandes problemas que afligem o Brasil de hoje s\u00e3o o desemprego, a viol\u00eancia, a m\u00e1 qualidade da educa\u00e7\u00e3o, a desorganiza\u00e7\u00e3o urbana, as disfuncionalidades do sistema legal e penal, a marginaliza\u00e7\u00e3o social e a estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u2013 todos temas centrais da pesquisa social, realizada por economistas, soci\u00f3logos, cientistas pol\u00edticos, antrop\u00f3logos, juristas e outros.&nbsp;\u00c9 poss\u00edvel se perguntar se a pesquisa social que se produz no Brasil consegue realmente lidar bem com estes temas. Existem altos e baixos, e muitas vezes a boa pesquisa n\u00e3o consegue influenciar as decis\u00f5es de quem est\u00e1 em posi\u00e7\u00f5es de governo. Mesmo assim, \u00e9 poss\u00edvel argumentar que, se \u00e9 para estabelecer prioridades para o investimento em pesquisa, seria mais importante investir em pesquisa social de qualidade do que em pesquisa nas ci\u00eancias naturais, que tende a ser mais internacionalizada, e aonde nossas desvantagens comparativas s\u00e3o maiores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o estou dizendo que tenha que ser assim.\u00a0\u00a0A pesquisa precisa ser apoiada por crit\u00e9rios que combinem qualidade, relev\u00e2ncia e custo. Pesquisa de alta qualidade em matem\u00e1tica e filosofia s\u00e3o baratas, contribuem direta e indiretamente para as demais \u00e1reas de conhecimento, e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para limit\u00e1-las. \u00c9 preciso pensar bem para investir em pesquisa que requer grandes investimentos e aonde nossa chance de produzir maior impacto \u00e9 menor. A pesquisa aplicada, geralmente muito mais cara, precisa estar associada a possibilidades efetivas de desenvolvimento e comercializa\u00e7\u00e3o. Sistemas modernos e sofisticados de pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica combinam avalia\u00e7\u00f5es de m\u00e9rito, impacto e custos, com a participa\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel de cientistas e representantes do setor produtivo e ag\u00eancias p\u00fablicas respons\u00e1veis por quest\u00f5es como sa\u00fade, pobreza, ordem social, defesa, desenvolvimento econ\u00f4mico e regional e meio ambiente. \u00c9 neste sentido que as pol\u00edticas de apoio ao ensino superior e \u00e0 pesquisa devem se desenvolver.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem acompanha meus textos sobre a educa\u00e7\u00e3o brasileira sabe que sou muito cr\u00edtico do sistema que montamos, tanto da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica quanto da superior, e tamb\u00e9m da pesquisa. 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