{"id":6289,"date":"2019-05-03T16:55:58","date_gmt":"2019-05-03T19:55:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6289"},"modified":"2019-05-03T16:56:00","modified_gmt":"2019-05-03T19:56:00","slug":"o-lugar-das-ciencias-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-lugar-das-ciencias-sociais\/","title":{"rendered":"O lugar das ci\u00eancias sociais"},"content":{"rendered":"<script type='application\/json' class='__iawmlf-post-loop-links'>[{\"id\":191,\"href\":\"https:\\\/\\\/veja.abril.com.br\\\/edicoes-veja\\\/2633\",\"archived_href\":\"\",\"redirect_href\":\"https:\\\/\\\/veja.abril.com.br\\\/edicoes-veja\\\/2633\\\/\",\"checks\":[],\"broken\":false,\"last_checked\":null,\"process\":\"done\"}]<\/script>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(vers\u00e3o preliminar de &#8220;A Era das Ci\u00eancias Sociais&#8221;, P\u00e1gina Aberta, <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/edicoes-veja\/2633\/\">revista<\/a><em><a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/edicoes-veja\/2633\/\"> Veja<\/a><\/em><a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/edicoes-veja\/2633\/\">, 52, 19, 8 de maio de 2019<\/a>, pp.58-59)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De forma ainda vaga, mas enf\u00e1tica, o Presidente da Rep\u00fablica e o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o deram declara\u00e7\u00f5es dizendo que pretendiam reduzir os investimentos em sociologia e filosofia, em favor de outras profiss\u00f5es que gerem renda para as pessoas e benef\u00edcios para a sociedade.  O n\u00famero de estudantes de sociologia e filosofia no Brasil \u00e9 \u00ednfimo \u2013 menos de 10 mil, para um universo de 8 milh\u00f5es de universit\u00e1rios. Tudo indica que estavam se referindo \u00e0s ci\u00eancias sociais como um todo, cuja matr\u00edcula, incluindo administra\u00e7\u00e3o, direito, contabilidade e marketing, \u00e9 enorme, chegando a 37% do total, ao lado de educa\u00e7\u00e3o, com 19,2%, e as humanidades e artes (incluindo literatura e filosofia) com mais 2.2%.  Fora das ci\u00eancias sociais e humanas, as \u00e1reas mais procuradas hoje pelos universit\u00e1rios s\u00e3o as de sa\u00fade e bem-estar social (16% da matr\u00edcula), e o grupo de Engenharia, Produ\u00e7\u00e3o e Constru\u00e7\u00e3o, com 14.8%. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A concentra\u00e7\u00e3o das matr\u00edculas em profiss\u00f5es caracter\u00edsticas das atividades terci\u00e1rias, de servi\u00e7os, n\u00e3o se d\u00e1 s\u00f3 no Brasil: s\u00e3o 63% das matr\u00edculas nos Estados Unidos, 74% na Fran\u00e7a, 51% na Espanha, por exemplo. Este predom\u00ednio acompanha os ventos da economia mundial. Em todo o mundo, as atividades industriais e agr\u00edcolas, altamente mecanizadas, empregam cada vez menos gente, enquanto aumentam os empregos nos servi\u00e7os p\u00fablicos e privados de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, com\u00e9rcio, transportes e outros, onde s\u00e3o valorizadas cada vez mais as compet\u00eancias de tipo social e cultural. Mesmo para nas \u00e1reas mais t\u00e9cnicas, a cada dia se fala com maior intensidade da import\u00e2ncia das \u201ccompet\u00eancias do s\u00e9culo 21\u201d.  Para tomar o exemplo de Cingapura, lembrado como um dos lugares de melhor ensino do planeta, elas s\u00e3o definidas em termos em um leque que engloba cultura c\u00edvica, consci\u00eancia do mundo global, conhecimentos transculturais, pensamento cr\u00edtico e inovador, e habilidades de comunica\u00e7\u00e3o, colabora\u00e7\u00e3o e processamento de informa\u00e7\u00f5es \u2013 todas das \u00e1reas das ci\u00eancias sociais e das humanidades. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A outra raz\u00e3o de seu grande tamanho \u00e9 que os cursos nestas \u00e1reas tendem a ser menos custosos e mais acess\u00edveis para pessoas que terminam o ensino m\u00e9dio com forma\u00e7\u00e3o mais limitada. No Brasil, em \u00e1reas como economia, administra\u00e7\u00e3o e direito, existem algumas poucas faculdades extremamente seletivas e de alto padr\u00e3o, mas a grande maioria dos cursos \u00e9 ministrada \u00e0 noite, \u00e0 dist\u00e2ncia, sobretudo pelo setor privado, a pre\u00e7os bastante reduzidos, abrindo oportunidades para muitos que n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00f5es de seguir uma forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria mais exigente e de tempo integral. Existe a d\u00favida de se este ensino mais elementar \u00e9 \u00fatil e vale a pena, visto que grande parte dos formados em direito, por exemplo, nunca consegue passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Mas o fato \u00e9 que quem completa o trajeto na universidade, mesmo que n\u00e3o adquira uma forma\u00e7\u00e3o especializada, acumula conhecimentos e compet\u00eancias gerais que o mercado de trabalho valoriza, pagando sal\u00e1rios significativamente mais altos do que os dos pararam ao final da educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o ideal, longe disso. As taxas de desist\u00eancia nestes cursos s\u00e3o enormes, da ordem de 50% no setor privado, e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para que durem quatro ou mais anos. Ainda que se apresentem como cursos de forma\u00e7\u00e3o especializada, na verdade oferecem uma forma\u00e7\u00e3o geral, como se pode ver pelo n\u00famero relativamente pequeno de pessoas que trabalham na mesma \u00e1rea em que se graduaram. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 necessariamente um problema. Na Uni\u00e3o Europeia, desde 1999, os pa\u00edses adotam o \u201cmodelo de Bologna\u201d para o ensino superior que come\u00e7a com uma forma\u00e7\u00e3o geral de tr\u00eas anos, abrindo depois op\u00e7\u00f5es para mestrados e cursos mais avan\u00e7ados de um ou mais anos. Nos Estados Unidos, muitos dos que buscam a educa\u00e7\u00e3o superior s\u00e3o atendidos por um amplo sistema de \u201ccommunity colleges\u201d de dois anos que j\u00e1 d\u00e3o uma qualifica\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel para quem n\u00e3o vai seguir os estudos nos colleges de 4 anos. Al\u00e9m disto, em todo o mundo, a partir do ensino m\u00e9dio j\u00e1 existem op\u00e7\u00f5es de estudos profissionalizantes que habilitam para o mercado de trabalho tanto nas \u00e1reas mais t\u00e9cnicas quanto na de servi\u00e7os. O Brasil precisaria evoluir nestas linhas, ampliando a forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica geral, fortalecendo as op\u00e7\u00f5es profissionais de n\u00edvel m\u00e9dio e abrindo mais possibilidades de cursos de forma\u00e7\u00e3o superior curtos. Eles j\u00e1 existem no papel como \u201ccursos tecnol\u00f3gicos\u201d, mas t\u00eam sido negligenciados sobretudo pelas universidades p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os que pretendem e t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de se profissionalizar de forma mais diferenciada nas carreiras sociais, a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 hoje quase obrigat\u00f3ria. O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da Capes, administra um sistema de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o com 375.000 estudantes em cursos de mestrado e doutorado, dos quais 110.000 nas \u00e1reas de ci\u00eancias sociais e humanas, sobretudo educa\u00e7\u00e3o, administra\u00e7\u00e3o e direito (mas menos de 10 mil em filosofia e sociologia). Somam-se a estes mais de um milh\u00e3o em cursos de MBA e outras \u00e1reas de especializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o regulamentadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os investimentos em pesquisa social no Brasil s\u00e3o relativamente baixos, embora as principais quest\u00f5es de pol\u00edtica p\u00fablica no Brasil sejam a m\u00e1 qualidade da educa\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia, a pobreza, a desigualdade social, a disfuncionalidade do sistema pol\u00edtico-eleitoral e do judici\u00e1rio e a baixa produtividade da economia, entre outros. S\u00e3o todos temas centrais de investiga\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de sociologia, economia, antropologia e ci\u00eancias jur\u00eddicas, que precisam, isso sim, ser refor\u00e7adas e cuidadas para que alcancem a mais alta qualidade. \u00c9 poss\u00edvel argumentar at\u00e9 que pesquisas sobre temas sociais s\u00e3o mais importantes para o pa\u00eds do que as das \u00e1reas tecnol\u00f3gicas, dado que \u00e9 mais f\u00e1cil importar e adaptar tecnologias dispon\u00edveis na literatura e no mercado internacional do que no campo social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A predisposi\u00e7\u00e3o manifestada pelo governo contra a \u00e1rea de ci\u00eancias sociais parece se explicar por uma combina\u00e7\u00e3o de desconhecimento sobre os n\u00fameros e a natureza da \u00e1rea social aliado a um preconceito de tipo ideol\u00f3gico \u2013 a sociologia e a filosofia seriam focos de ideologias marxistas, que precisariam ser extirpadas. Quem conhece de perto estas \u00e1reas de estudo, no entanto, sabe que o marxismo ocupa nelas um lugar bastante reduzido, embora persista, de forma simplificada, em alguns setores e nas manifesta\u00e7\u00f5es de movimentos pol\u00edticos ligados \u00e0 \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o \u2013 nada muito diferente do resto do mundo. A preocupa\u00e7\u00e3o com os problemas da pobreza, desigualdade social, direitos humanos e discrimina\u00e7\u00e3o social faz parte do patrim\u00f4nio human\u00edstico contempor\u00e2neo, s\u00e3o temas centrais a uma sociedade t\u00e3o desigual como a nossa, e independe de filia\u00e7\u00f5es a esta ou aquela corrente filos\u00f3fica, sociol\u00f3gica, jur\u00eddica ou econ\u00f4mica. E a melhor maneira de reduzi-la \u00e9 trabalhar para que estes problemas deixem de existir.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(vers\u00e3o preliminar de &#8220;A Era das Ci\u00eancias Sociais&#8221;, P\u00e1gina Aberta, revista Veja, 52, 19, 8 de maio de 2019, pp.58-59) De forma ainda vaga, mas enf\u00e1tica, o Presidente da Rep\u00fablica e o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o deram declara\u00e7\u00f5es dizendo que pretendiam reduzir os investimentos em sociologia e filosofia, em favor de outras profiss\u00f5es que gerem renda &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-lugar-das-ciencias-sociais\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O lugar das ci\u00eancias sociais&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-6289","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6289","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6289"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6289\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6291,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6289\/revisions\/6291"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}