{"id":6331,"date":"2019-06-14T08:08:30","date_gmt":"2019-06-14T11:08:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6331"},"modified":"2020-03-09T07:12:12","modified_gmt":"2020-03-09T10:12:12","slug":"consenso-e-dissenso-em-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/consenso-e-dissenso-em-educacao\/","title":{"rendered":"Consenso e Dissenso em Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class='__iawmlf-post-loop-links' style='display:none;' data-iawmlf-post-links='[{&quot;id&quot;:186,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.education.gouv.fr\\\/cid2770\\\/le-socle-commun-de-connaissances-et-de-competences.html&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;checks&quot;:[],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:null,&quot;process&quot;:&quot;done&quot;},{&quot;id&quot;:187,&quot;href&quot;:&quot;http:\\\/\\\/nzcurriculum.tki.org.nz\\\/The-New-Zealand-Curriculum&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/newzealandcurriculum.tahurangi.education.govt.nz\\\/&quot;,&quot;checks&quot;:[],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:null,&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]'><\/div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align:center\">(artigo publicado no jornal <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 14 de junho de 2019)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seis ex-ministros da educa\u00e7\u00e3o, em recente nota, falam do grande consenso que teria sido constru\u00eddo no Brasil sobre o setor, que o atual governo estaria desconsiderando. De fato, existe um forte consenso sobre a prioridade que a educa\u00e7\u00e3o deve ter,&nbsp;&nbsp;e o governo at\u00e9 agora n\u00e3o mostrou uma pol\u00edtica para o setor que v\u00e1 al\u00e9m de cortes or\u00e7ament\u00e1rios e posturas ideol\u00f3gicas, diferentemente do que ocorre na economia e na seguran\u00e7a, aonde, concordando-se ou n\u00e3o, existem propostas claras formuladas com o apoio de fortes contingentes de economistas, ju\u00edzes, promotores e funcion\u00e1rios p\u00fablicos qualificados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o consenso \u00e9 ilus\u00f3rio. Tal como na economia, a educa\u00e7\u00e3o brasileira, depois de um per\u00edodo de crescimento&nbsp;&nbsp;descontrolado, chegou a um impasse, com milh\u00f5es de jovens concluindo a educa\u00e7\u00e3o fundamental semianalfabetos, o ensino m\u00e9dio estagnado e com alt\u00edssimas taxas de abandono, um ensino superior p\u00fablico caro, desigual e que n\u00e3o consegue atender a mais do que 25% das matr\u00edculas, e um sistema de&nbsp;p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pesquisa em grande parte voltado para si mesmo, que cresceu em quantidade mas n\u00e3o em impacto e relev\u00e2ncia cient\u00edfica e econ\u00f4mico-social, com as boas exce\u00e7\u00f5es de sempre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ponto mais alto deste consenso, segundo os ex-ministros, teria sido o Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, aprovado por unanimidade pelo Congresso Nacional em 2014, com planos filhotes para cada estado e munic\u00edpio, e que se desdobrava em 10 diretrizes e vinte grandes metas, divididas em 244 estrat\u00e9gias espec\u00edficas, a serem financiadas com 10% do PIB. Para acompanhar tudo isto, contava-se com uma grande parafern\u00e1lia de comiss\u00f5es tripartites estabelecidas com as associa\u00e7\u00f5es de secret\u00e1rios de educa\u00e7\u00e3o estaduais e municipais e f\u00f3runs permanentes de negocia\u00e7\u00e3o. Foi um consenso constru\u00eddo \u00e0 custa de botar no papel todas as demandas de todos os interessados, e, <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=2272\">como escrevemos na \u00e9poca com alguns colegas<\/a>, n\u00e3o havia chance de dar certo, mesmo sem a crise econ\u00f4mica que veio depois. O PNE \u00e9 um zumbi que se recusa a morrer, e, at\u00e9 que seja devidamente enterrado e substitu\u00eddo por um conjunto pequeno de objetivos realistas e bem definidos, n\u00e3o h\u00e1 como a educa\u00e7\u00e3o brasileira avan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dois exemplos recentes do suposto consenso foram a elabora\u00e7\u00e3o da base nacional curricular comum e a reforma do ensino m\u00e9dio.&nbsp;&nbsp;A ideia de que todos os estudantes, at\u00e9 determinado n\u00edvel, precisam compartir um conjunto m\u00ednimo de conhecimentos, sobretudo no dom\u00ednio da linguagem, do racioc\u00ednio matem\u00e1tico e de familiaridade com as ci\u00eancias naturais e sociais, \u00e9 hoje reconhecida em todas partes. Mas nenhum pa\u00eds, que eu sabia, tem um documento semelhante \u00e0 BNCC brasileira, com suas 600 p\u00e1ginas e centenas de habilidades e compet\u00eancias que os estudantes deveriam adquirir. \u00c9 um texto recheado de linguagem empolada, incompreens\u00edvel ou meramente ret\u00f3rica, como na introdu\u00e7\u00e3o, aonde se diz o que o objetivo \u00e9&nbsp;&nbsp;levar \u00e0&nbsp;&nbsp;\u201ceduca\u00e7\u00e3o integral\u201d a partir de uma \u201cvis\u00e3o plural, singular e integral da crian\u00e7a, do adolescente, do jovem e do adulto \u2013 considerando-os como sujeitos de aprendizagem \u2013 e promover uma educa\u00e7\u00e3o voltada ao seu acolhimento, reconhecimento e desenvolvimento pleno, nas suas singularidades e diversidades\u201d. Compare-se com o&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/www.education.gouv.fr\/cid2770\/le-socle-commun-de-connaissances-et-de-competences.html\">Socle Commun franc\u00eas<\/a><\/em> de 30 p\u00e1ginas, ou o<a href=\"http:\/\/nzcurriculum.tki.org.nz\/The-New-Zealand-Curriculum\"> curr\u00edculo da Nova Zel\u00e2ndia<\/a> resumido em 8 quadros, em linguagem direta e sem adjetivos.  A grande lista de assessores, especialistas, colaboradores, pesquisadores, comiss\u00f5es de discuss\u00e3o e leitores cr\u00edticos listados ao final mostra o esfor\u00e7o do MEC de construir um consenso a favor do documento. S\u00f3 n\u00e3o foram consideradas as cr\u00edticas mais profundas que chamavam a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de se chegar a um documento sint\u00e9tico, compreens\u00edvel e compat\u00edvel com o estado da arte internacional sobre os processos de aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O outro exemplo foi a reforma do ensino m\u00e9dio, que come\u00e7ou com uma tentativa de quebrar o consenso do curr\u00edculo \u00fanico tradicional e propor a implanta\u00e7\u00e3o de trajet\u00f3rias escolares diversificadas a combinadas com um n\u00facleo comum.&nbsp;&nbsp;\u00c0 medida em que o projeto ia sendo discutido, o tamanho deste n\u00facleo comum aumentava, atendendo \u00e0s demandas dos professores das diversas disciplinas, at\u00e9 se transformar em uma vers\u00e3o reduzida do curr\u00edculo tradicional, deixando as trajet\u00f3rias curriculares em segundo plano, e diluindo a proposta inicial. O ENEM, que deveria ser reformulado para corresponder ao novo formato, continua como est\u00e1. O novo ensino m\u00e9dio entra em vigor em 2020, e as escolas n\u00e3o sabem o que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso construir um novo consenso, baseado na ideia de que deve ser poss\u00edvel fazer muito mais com os 5% do PIB que o Brasil j\u00e1 gasta em educa\u00e7\u00e3o. Com a queda da natalidade, ser\u00e3o menos estudantes, e ser\u00e1 poss\u00edvel ter menos professores e pagar mais. A profiss\u00e3o docente precisa ser reformada, com melhores cursos de forma\u00e7\u00e3o, carreiras associadas ao desempenho, e facilitando o acesso ao ensino de pessoas com outros perfis. A educa\u00e7\u00e3o infantil deve deixar de ser meramente assistencialista, e ser tratada como etapa essencial de forma\u00e7\u00e3o.A toler\u00e2ncia com o analfabetismo funcional deve acabar, com o uso de m\u00e9todos comprovados de alfabetiza\u00e7\u00e3o e acompanhamento de resultados. O segundo ciclo do ensino fundamental precisa ser repensado, e a reforma do ensino m\u00e9dio precisa ser efetivamente implementada, inclusive pela amplia\u00e7\u00e3o e fortalecimento da educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.&nbsp;&nbsp;O formato do ensino superior precisa ser revisto, criando mais alternativas de forma\u00e7\u00e3o em diferentes n\u00edveis, e a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e a pesquisa precisam se tornar menos acad\u00eamicas e mais vinculadas \u00e0s necessidades do pa\u00eds. E, em todos os n\u00edveis, os pap\u00e9is do setor p\u00fablico e privado precisam ser revistos, para que se tornem complementares e livres do predom\u00ednio do corporativismo e do mercantilismo.&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(artigo publicado no jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, 14 de junho de 2019) Seis ex-ministros da educa\u00e7\u00e3o, em recente nota, falam do grande consenso que teria sido constru\u00eddo no Brasil sobre o setor, que o atual governo estaria desconsiderando. 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