{"id":6395,"date":"2019-09-13T07:02:06","date_gmt":"2019-09-13T10:02:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6395"},"modified":"2019-09-13T09:35:57","modified_gmt":"2019-09-13T12:35:57","slug":"morrer-em-lodz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/morrer-em-lodz\/","title":{"rendered":"Morrer em \u0141\u00f3d\u017a"},"content":{"rendered":"<div class='__iawmlf-post-loop-links' style='display:none;' data-iawmlf-post-links='[{&quot;id&quot;:179,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,morrer-em-lodz,70003008227&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20220628061030\\\/https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,morrer-em-lodz,70003008227&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.estadao.com.br\\\/opiniao\\\/espaco-aberto\\\/morrer-em-lodz\\\/&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-17 02:02:08&quot;,&quot;http_code&quot;:200}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-17 02:02:08&quot;,&quot;http_code&quot;:200},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;},{&quot;id&quot;:180,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.centrumdialogu.com\\\/en\\\/commemoration-program&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20260415165433\\\/https:\\\/\\\/www.centrumdialogu.com\\\/en\\\/commemoration-program&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-17 02:02:12&quot;,&quot;http_code&quot;:200}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-17 02:02:12&quot;,&quot;http_code&quot;:200},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]'><\/div>\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">(<a href=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,morrer-em-lodz,70003008227\">Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 13 de setembro de 2019<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-thumbnail is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/lodz-420x315.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6396\" width=\"359\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/lodz-420x315.jpeg 420w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/lodz-744x558.jpeg 744w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/lodz-768x576.jpeg 768w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/lodz-1200x900.jpeg 1200w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/lodz.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 359px) 85vw, 359px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste agosto de 2019 fui \u00e0 Pol\u00f4nia participar de um encontro da fam\u00edlia de minha m\u00e3e, descendentes de antigos habitantes e sobreviventes do<a href=\"https:\/\/www.centrumdialogu.com\/en\/commemoration-program\"> gueto da cidade de Lodz  (\u0141\u00f3d\u017a), liquidado pelos nazistas 75 anos atr\u00e1s<\/a>. Dos 200 mil judeus confinados em quatro quil\u00f4metros quadrados e for\u00e7ados a trabalhar como escravos desde 1942, menos de 10 mil conseguiram escapar. Todos os demais morreram de fome, doen\u00e7as, execu\u00e7\u00f5es, nas c\u00e2maras de g\u00e1s e nos fornos cremat\u00f3rios de Chelmno e Auschwitz.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma pequena trag\u00e9dia, dentro dos horrores do exterm\u00ednio programado de 6 milh\u00f5es de judeus, dos quais 500 mil no gueto de Vars\u00f3via, sem falar nas dezenas de milh\u00f5es de mortos na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, na China e em outros pa\u00edses na 2.\u00aa Guerra. Mas cada trag\u00e9dia, com suas hist\u00f3rias de resist\u00eancia, morte e sobreviv\u00eancia, que atingem a cada pessoa e cada fam\u00edlia, \u00e9 \u00fanica e incomensur\u00e1vel, e precisa ser sempre relembrada para entender o que aconteceu e evitar sua repeti\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1961, escrevendo sobre o julgamento de Adolph Eichmann em Jerusal\u00e9m, Hannah Arendt criou uma grande controv\u00e9rsia ao falar sobre a \u201cbanalidade do mal\u201d, a maneira rotineira e burocr\u00e1tica como Eichmann e, por extens\u00e3o, o governo nazista administravam a m\u00e1quina de exterm\u00ednio, desprovidos aparentemente de qualquer sensibilidade ou motiva\u00e7\u00e3o de \u00f3dio, simplesmente \u201cobedecendo ordens\u201d. Para seus cr\u00edticos, essa interpreta\u00e7\u00e3o era inaceit\u00e1vel, porque de alguma forma eximia os nazistas de culpa e responsabilidade por suas atrocidades, pelas quais deveriam ser condenados e punidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Penso que, ao contr\u00e1rio, Hannah Arendt falava de uma culpa muito mais profunda e perturbadora, que \u00e9 a da normaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, que traz o problema da responsabilidade muito mais perto de cada um de n\u00f3s do que gostar\u00edamos de reconhecer. Em graus diferentes, todos, de alguma maneira, nos insensibilizamos com os absurdos e trag\u00e9dias que presenciamos no dia a dia, ou que nos chegam a cada momento pelos notici\u00e1rios, por conformismo ou simplesmente para continuar sobrevivendo. Em vez de uma humanidade dividida entre monstros morais, por um lado, e justos e inocentes, por outro, o que temos s\u00e3o seres humanos imperfeitos que se adaptam \u00e0s circunst\u00e2ncias em que vivem e podem ser capazes, em situa\u00e7\u00f5es extremas, tanto de a\u00e7\u00f5es terr\u00edveis quanto de comportamentos \u00e9ticos, heroicos e moralmente \u00edntegros. Ser\u00e1 que, por isso, somos todos culpados, ou todos inocentes?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem duas perguntas que surgem aqui, a de por que esses comportamentos violentos e destrutivos crescem e ganham ra\u00edzes em determinados momentos, e a da conformidade de pessoas que n\u00e3o pensam ou agem da mesma maneira, mas se tornam coniventes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das grandes quest\u00f5es sobre a 2.\u00aa Guerra \u00e9 como a Alemanha, at\u00e9 ent\u00e3o um pa\u00eds t\u00e3o proeminente na ci\u00eancia, na cultura e na filosofia, chegou a esses extremos, com o apoio ou ao menos a passividade de grande parte de sua popula\u00e7\u00e3o. Uma das explica\u00e7\u00f5es \u00e9 a crise econ\u00f4mica e institucional dos anos 20, que levou \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o crescente da pol\u00edtica e abriu espa\u00e7o para um demagogo que, prometendo um futuro de grandeza, dava voz aos sentimentos de raiva e frustra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, liberando os preconceitos e estimulando o ataque a um suposto inimigo bem pr\u00f3ximo e indefeso, os judeus. O culto \u00e0 viol\u00eancia, a grosseria, a falta de limites e o anti-intelectualismo dos nazistas eram legitimados, ainda, por toda uma corrente de fil\u00f3sofos e ensa\u00edstas que elaboravam ideologias autorit\u00e1rias, militaristas, nacionalistas, populistas e racistas, que foram tornando o nazismo e o antissemitismo cada vez mais \u201crespeit\u00e1veis\u201d e aceit\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era uma aceita\u00e7\u00e3o limitada, e muito foi escrito sobre o desprezo dos generais alem\u00e3es, de origem aristocr\u00e1tica, pelo oficial subalterno que chegara ao poder, e que tinham a ilus\u00e3o de poder controlar. Acabou preponderando, no entanto, o pragmatismo, n\u00e3o s\u00f3 dos militares, mas de empres\u00e1rios e muitos intelectuais, com triste destaque para o fil\u00f3sofo Martin Heidegger. Hitler estava no poder, encarnava a vontade do povo alem\u00e3o, era uma oportunidade para a economia crescer e conquistar novos territ\u00f3rios, e era melhor fechar os olhos para detalhes desagrad\u00e1veis, como o exterm\u00ednio dos judeus, homossexuais, ciganos e opositores, e ficar de seu lado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Lodz, a vers\u00e3o tr\u00e1gica do pragmatismo foi o curto reinado de Chaim Rumkowski, judeu designado pelos alem\u00e3es como presidente do Conselho Administrativo \u2013 o&nbsp;Judenrat&nbsp;\u2013 e comandante do gueto. Rum-kowski fez do gueto uma f\u00e1brica de suprimentos de guerra, escravizando a popula\u00e7\u00e3o, e governou com m\u00e3o de ferro, ajudado por uma pol\u00edcia judaica que reprimia com viol\u00eancia as tentativas de resist\u00eancia e selecionava pessoas para os campos de exterm\u00ednio, ao mesmo tempo que garantia para seu grupo a comida, os espa\u00e7os e as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de sobreviv\u00eancia que eram negados aos demais. A justificativa era que, colaborando, poderiam livrar mais gente do exterm\u00ednio, e sobreviver. De fato, o gueto de Lodz durou um ano mais que o de Vars\u00f3via, e Rumkowski e sua fam\u00edlia foram dos \u00faltimos a ser enviados para os fornos cremat\u00f3rios, em 1944.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No gueto de Vars\u00f3via, no in\u00edcio Adam Czerniakow tamb\u00e9m tentou colaborar, mas acabou se suicidando quando os alem\u00e3es ordenaram o aumento do n\u00famero de deportados. Um ano depois, os habitantes do gueto se insurgiram, e foram massacrados pelas tropas da SS em 1943.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u0141\u00f3d\u017a, como em Vars\u00f3via, a situa\u00e7\u00e3o era extrema, a m\u00e1quina de exterm\u00ednio n\u00e3o se detinha e a morte era inevit\u00e1vel. Mesmo assim, restava ainda a op\u00e7\u00e3o de cada um entre o conformismo e a rebeli\u00e3o, mesmo que \u00e0 custa da pr\u00f3pria vida, de qualquer forma, ef\u00eamera.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eichmann e Rumkowski n\u00e3o eram somente pe\u00e7as de uma engrenagem, tinham escolhas que poderiam fazer e n\u00e3o fizeram, e s\u00e3o essas escolhas, quando exercidas, que ainda nos permitem manter esperan\u00e7a na humanidade.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 13 de setembro de 2019) Neste agosto de 2019 fui \u00e0 Pol\u00f4nia participar de um encontro da fam\u00edlia de minha m\u00e3e, descendentes de antigos habitantes e sobreviventes do gueto da cidade de Lodz (\u0141\u00f3d\u017a), liquidado pelos nazistas 75 anos atr\u00e1s. 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