{"id":6426,"date":"2019-10-11T05:51:25","date_gmt":"2019-10-11T08:51:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6426"},"modified":"2023-01-19T11:54:41","modified_gmt":"2023-01-19T14:54:41","slug":"a-ancora-da-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-ancora-da-educacao\/","title":{"rendered":"A \u00c2ncora da Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class='__iawmlf-post-loop-links' style='display:none;' data-iawmlf-post-links='[{&quot;id&quot;:177,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,a-ancora-da-educacao,70003045548&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20220521020339\\\/https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,a-ancora-da-educacao,70003045548&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.estadao.com.br\\\/opiniao\\\/espaco-aberto\\\/a-ancora-da-educacao\\\/&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-17 06:59:34&quot;,&quot;http_code&quot;:200}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-17 06:59:34&quot;,&quot;http_code&quot;:200},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]'><\/div>\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">(Publicado no <a href=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,a-ancora-da-educacao,70003045548\">O Estado de S\u00e3o Paulo<\/a>, 11 de outubro de 2019)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No M\u00e9xico, o novo governo de L\u00f3pez Obrador cancelou a reforma da educa\u00e7\u00e3o do governo anterior, acusado de ter institu\u00eddo um sistema punitivo de avalia\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito dos professores, e decidiu universalizar a educa\u00e7\u00e3o superior, prometendo a cria\u00e7\u00e3o de cem novas universidades.  Ao mesmo tempo, corta os recursos e cria dificuldades para o funcionamento dos centros de pesquisa mais avan\u00e7ados. A educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica mexicana \u00e9 t\u00e3o ruim quanto a brasileira, e o poder dos sindicatos era tal que os professores das escolas p\u00fablicas eram donos de seus cargos, podendo pass\u00e1-los para os filhos. A Universidad Nacional Aut\u00f3noma de M\u00e9xico, com mais de 300 mil estudantes, sempre teve uma pol\u00edtica de acesso livre e gratuito, gerando graves inefici\u00eancias que os governos anteriores tentaram mitigar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um exemplo extremo de pol\u00edticas populistas que d\u00e3o prioridade absoluta \u00e0s demandas da popula\u00e7\u00e3o por credenciais ou t\u00edtulos universit\u00e1rios e aos interesses corporativos dos professores, deixando de lado as preocupa\u00e7\u00f5es com qualidade e relev\u00e2ncia.  A consequ\u00eancia \u00e9 a infla\u00e7\u00e3o dos diplomas, tornando necess\u00e1rios t\u00edtulos cada vez mais altos para fazer as mesmas coisas, a um custo crescente para a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil nunca chegou a este extremo, mas o que aconteceu com a educa\u00e7\u00e3o teve muito desta filosofia, e n\u00e3o \u00e9 muito diferente do ocorrido em \u00e1reas como Sa\u00fade e Previd\u00eancia: um grande esfor\u00e7o de recuperar s\u00e9culos de atraso e compensar as desigualdades expandindo de qualquer maneira a educa\u00e7\u00e3o, resultando em um sistema inchado, custoso, de m\u00e1 qualidade e extremamente dif\u00edcil de reformar. Hoje, cinquenta milh\u00f5es de brasileiros est\u00e3o matriculados em algum tipo de escola, 60% da popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 30 anos, atendidos por um ex\u00e9rcito de mais de 6 milh\u00f5es de pessoas, entre professores, dirigentes escolares, funcion\u00e1rios e outros profissionais. A estimativa mais recente \u00e9 que o Brasil gasta perto de 8% do PIB em educa\u00e7\u00e3o, incluindo os gastos privados, proporcionalmente mais do que todos os demais da Am\u00e9rica Latina e muitos pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma justificativa para este grande esfor\u00e7o \u00e9 que a educa\u00e7\u00e3o seria a principal alavanca para sair da armadilha da renda m\u00e9dia em que estamos atolados. De fato, as pessoas mais educadas ganham mais, supostamente porque t\u00eam compet\u00eancias que o mercado de trabalho valoriza, e pa\u00edses em que a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mais educada s\u00e3o mais desenvolvidos. No entanto, no Brasil, a produtividade se manteve estagnada ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Uma das raz\u00f5es \u00e9 que a educa\u00e7\u00e3o cresceu priorizando as demandas por credenciais &#8211; diplomas \u2013 e as reinvindica\u00e7\u00f5es corporativas do setor, em detrimento da \u00eanfase no m\u00e9rito e nas compet\u00eancias. Como v\u00e1rios estudos recentes tem demonstrado, n\u00e3o basta aumentar a escolaridade para que a produtividade aumente. \u00c9 preciso que a educa\u00e7\u00e3o seja de qualidade, o que n\u00e3o tem ocorrido de forma satisfat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A outra justificativa \u00e9 que a educa\u00e7\u00e3o aumenta a mobilidade e reduz a desigualdade social. Mas nem sempre mais educa\u00e7\u00e3o leva a estes resultados. Em quase todo o mundo, ao longo do s\u00e9culo 20, houve um grande crescimento das cidades, da economia e do setor p\u00fablico. A expans\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, que acompanhou estes processos, fez com que as elites tradicionais se modernizassem e que pessoas mais pobres, imigrantes e de minorias, se beneficiassem das novas oportunidades que foram sendo criadas. A insist\u00eancia no m\u00e9rito, como crit\u00e9rio para acesso \u00e0s novas oportunidades de estudo e avan\u00e7o nas carreiras, foi fundamental para garantir que as melhores posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o fossem monopolizadas pelas elites tradicionais. Mas n\u00e3o foi uma vit\u00f3ria absoluta. Existe uma forte rela\u00e7\u00e3o, dif\u00edcil de ser superada, entre desempenho escolar e origem social; e, al\u00e9m disto, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um bem \u201cposicional\u201d, ou seja, os benef\u00edcios de cada um dependem em grande parte da posi\u00e7\u00e3o relativa que ele tenha em rela\u00e7\u00e3o aos demais. Como no futebol, s\u00f3 h\u00e1 lugar para poucos na primeira divis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o se esgota, os custos do sistema de bem-estar social chegam a seu limite e a economia para de crescer, como no Brasil de hoje, a expans\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o deixa de ser um jogo em que todos ganham, ainda que desigualmente, e se aproxima de um jogo de soma zero, em que os que ganham o fazem \u00e0s custas dos ficam para tr\u00e1s. <br> Isto leva a conflitos intensos pelas credenciais acad\u00eamicas, em uma combina\u00e7\u00e3o perversa de reservas de mercado profissional para os mais educados e pol\u00edticas populistas de est\u00edmulo ao acesso livre ou facilitado ao ensino superior. Por um lado, o acesso ao ensino superior passa a ser visto como direito de todos, os requisitos mais tradicionais de desempenho no acesso e nos estudos passam a ser substitu\u00eddos por crit\u00e9rios sociais, e a conquista dos diplomas passa a ter preced\u00eancia sobre o desenvolvimento de compet\u00eancias. Por outro, cada vez mais, \u00e9 preciso uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o ou passar em um concurso p\u00fablico extenuante para conseguir um bom emprego, e milhares de formados em direito nunca passar\u00e3o o exame da OAB. Milh\u00f5es se inscrevem no ENEM tentando chegar ao ensino superior e n\u00e3o conseguem, muitos dos que entram abandonam antes de terminar, e grande parte dos formados acaba trabalhando em atividades de n\u00edvel m\u00e9dio (mais detalhes sobre as dimens\u00f5es credencialistas na educa\u00e7\u00e3o superior brasileira est\u00e3o dispon\u00edveis  em A Educa\u00e7\u00e3o Brasileira como Bem P\u00fablico) <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 voltar o rel\u00f3gio do tempo, restringindo o acesso ao ensino superior e controlando mais rigidamente o exerc\u00edcio das profiss\u00f5es universit\u00e1rias, mas, ao contr\u00e1rio, \u00e9 criar mais alternativas de forma\u00e7\u00e3o de n\u00edvel m\u00e9dio e superior, para atender a pessoas de diferentes perfis, reduzindo a press\u00e3o sobre os t\u00edtulos acad\u00eamicos, e quebrar os monop\u00f3lios profissionais que excluem arbitrariamente pessoas com n\u00edveis de forma\u00e7\u00e3o diferenciados do mercado de trabalho. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e2ncora da educa\u00e7\u00e3o devem ser as compet\u00eancias, e n\u00e3o os diplomas que possam aparecer nos curr\u00edculos.   <\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado no O Estado de S\u00e3o Paulo, 11 de outubro de 2019) No M\u00e9xico, o novo governo de L\u00f3pez Obrador cancelou a reforma da educa\u00e7\u00e3o do governo anterior, acusado de ter institu\u00eddo um sistema punitivo de avalia\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito dos professores, e decidiu universalizar a educa\u00e7\u00e3o superior, prometendo a cria\u00e7\u00e3o de cem novas universidades. 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