{"id":6469,"date":"2020-03-13T06:57:05","date_gmt":"2020-03-13T09:57:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6469"},"modified":"2020-03-13T07:23:02","modified_gmt":"2020-03-13T10:23:02","slug":"mussolini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/mussolini\/","title":{"rendered":"Mussolini"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">(Publicado no <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 13\/03\/2020)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.fatosdesconhecidos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/kMgK5J3mea7mEVNAo68g3fNs.jpeg?resize=600,450\" alt=\"Resultado de imagem para mussolini\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entender os movimentos de extrema direita que ocorrem hoje, a leitura de \u201cM \u2013 O Filho do S\u00e9culo\u201d de Antonio Scurati, rec\u00e9m-publicado pela Editora Intr\u00ednseca, que conta a hist\u00f3ria do surgimento do fascismo na It\u00e1lia, \u00e9 leitura obrigat\u00f3ria. \u00c9 um romance documental, que faz lembrar o \u201cRomance de Per\u00f3n\u201d de Tom\u00e1s Eloy Martinez, publicado em 1998 pela Companhia das Letras, que merece uma reedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fascismo surge das cinzas ainda quentes da Primeira Guerra Mundial, com seus onze milh\u00f5es de mortos. Vitoriosa, mas economicamente arrasada, a It\u00e1lia se divide entre um governo liberal, que tenta reconstituir a economia, e um forte movimento socialista que ganha cada vez mais for\u00e7a no campo e nas cidades.&nbsp;&nbsp;Todos anseiam pela paz, mas Mussolini, que havia come\u00e7ado sua carreira como editor do jornal do Partido Socialista,&nbsp;<em>Avanti!,<\/em>&nbsp;e sido expulso do partido por defender a entrada na It\u00e1lia na Guerra, decide abra\u00e7ar a morte, a viol\u00eancia e o nacionalismo como formas de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e busca do poder.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seus principais parceiros, no in\u00edcio, s\u00e3o os remanescentes de uma tropa de elite desmobilizada, os Arditi, treinados para assassinar os inimigos, que depois da guerra se sentem frustrados e marginalizados. Scurati os descreve como passando o tempo  embriagados, nos bord\u00e9is, armados com punhais e envolvidos em atividades criminosas. S\u00e3o eles que Mussolini conquista com seu novo jornal,&nbsp;<em>O Povo da It\u00e1lia<\/em>, cujo tema principal \u00e9 o ataque aos que se opuseram \u00e0 participa\u00e7\u00e3o italiana da guerra,&nbsp;&nbsp;e os organiza com a cria\u00e7\u00e3o em 1919 do Fasci Italiani di Combattimento, os Grupos Italianos de Combate, simbolizados por uma caveira, que d\u00e3o in\u00edcio o movimento e do Partido Fascista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio, Mussolini e suas mil\u00edcias paramilitares s\u00e3o olhados com desprezo tanto pelos liberais, que controlam o governo nacional, como pelos socialistas, que cada vez mais controlam os governos locais e ganham espa\u00e7o no Parlamento. A economia do pa\u00eds continua estagnada, a It\u00e1lia n\u00e3o consegue participar da partilha do mundo colonial feita pelas pot\u00eancias europeias e os Estados Unidos, e o exemplo da revolu\u00e7\u00e3o russa inspira entre os socialistas a ideia de que a hora da revolu\u00e7\u00e3o italiana tamb\u00e9m est\u00e1 pr\u00f3xima. Mussolini, no in\u00edcio, ainda tentou manter um discurso a favor dos oper\u00e1rios e camponeses, e compartilhava, com os setores mais radicais do partido socialista, a ideia de que o regime pol\u00edtico liberal n\u00e3o servia para nada, os pol\u00edticos eram, na melhor hip\u00f3tese, incapazes, e na pior, corruptos, e s\u00f3 uma revolu\u00e7\u00e3o poderia resolver os problemas do pa\u00eds. Ambos acreditavam, com Marx e os anarquistas, que a viol\u00eancia era a parteira da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o pa\u00eds paralisado por greves e ocupa\u00e7\u00f5es sucessivas de terras e f\u00e1bricas, os fascistas decidem se colocar como defensores da ordem e, financiados por fazendeiros e empres\u00e1rios, partem para atacar com viol\u00eancia e desmantelar os movimentos e organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, ao mesmo tempo em que, pelo jornal, Mussolini sobe o tom na defesa da viol\u00eancia e do nacionalismo como os \u00fanicos caminhos para fazer a It\u00e1lia voltar aos tempos gloriosos do Imp\u00e9rio de dois mil anos atr\u00e1s. Na primeira elei\u00e7\u00e3o que em que participam, em 1919, os socialistas e o Partido do Povo Italiano, cat\u00f3lico, conquistam a maioria, e os fascistas ficam totalmente marginalizados. Nos dois anos seguintes, que ficaram conhecidos como o \u201cBi\u00eanio Vermelho\u201d, a crise econ\u00f4mica se aprofunda, as greves e ocupa\u00e7\u00f5es de f\u00e1bricas e fazendas se multiplicam o desemprego continua e os fascistas intensificam sua viol\u00eancia, com assassinatos de l\u00edderes populares e destrui\u00e7\u00e3o das sedes das organiza\u00e7\u00f5es locais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na elei\u00e7\u00e3o de 1921, os fascistas se aliam aos liberais e ganham, deixando os v\u00e1rios partidos da esquerda na oposi\u00e7\u00e3o. No governo, a crise econ\u00f4mica persiste, e Mussolini continua incentivando o terrorismo, com as mil\u00edcias agora organizadas em esquadr\u00f5es dos camisas negras. Em 1922 organiza a \u201cmarcha sobre Roma\u201d, em que as mil\u00edcias avan\u00e7am sobre a capital exigindo que Mussolini seja nomeado primeiro ministro. O governo hesita, teria sido f\u00e1cil desmantelar a mil\u00edcia se o ex\u00e9rcito decidisse agir, mas todos temem a confronta\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;Na chefia de governo, Mussolini trabalha para desmontar as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, criando dentro do governo uma pol\u00edcia secreta copiada da&nbsp;<em>Cheka&nbsp;<\/em>de St\u00e1lin, para dar continuidade \u00e0 viol\u00eancia, e em 1925 assume o poder como ditador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mussolini n\u00e3o estava sozinho em seu assalto \u00e0 democracia, que inclu\u00eda gestos teatrais,&nbsp;&nbsp;acordos por debaixo dos panos, o uso descarado da viol\u00eancia contra os opositores, o uso sistem\u00e1tico da mentira e a trai\u00e7\u00e3o constante a antigos companheiros.&nbsp;&nbsp;Tinha a simpatia de empres\u00e1rios, como Gianni Agnelli, dono da FIAT, e intelectuais e artistas brilhantes e famosos, como o fil\u00f3sofo Benedetto Croce, o maestro Arturo Toscanini, e a amante, a aristocr\u00e1tica intelectual judia Margherita Sarfatti. Para eles, o&nbsp;<em>Duce<\/em>&nbsp;tinha seus defeitos, mas havia uma causa maior, a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e renova\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia, que tudo justificavam. Deu no que deu.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado no O Estado de S\u00e3o Paulo, 13\/03\/2020) Para entender os movimentos de extrema direita que ocorrem hoje, a leitura de \u201cM \u2013 O Filho do S\u00e9culo\u201d de Antonio Scurati, rec\u00e9m-publicado pela Editora Intr\u00ednseca, que conta a hist\u00f3ria do surgimento do fascismo na It\u00e1lia, \u00e9 leitura obrigat\u00f3ria. \u00c9 um romance documental, que faz lembrar o &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/mussolini\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Mussolini&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-6469","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica-internacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6469"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6469\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6474,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6469\/revisions\/6474"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}