{"id":6545,"date":"2020-06-12T06:30:22","date_gmt":"2020-06-12T09:30:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6545"},"modified":"2020-06-13T15:01:56","modified_gmt":"2020-06-13T18:01:56","slug":"a-revolta-da-vacina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-revolta-da-vacina\/","title":{"rendered":"A Revolta da Vacina"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 12 de junho de 2020)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre se compara a trag\u00e9dia do coronavirus com a da gripe espanhola de 1918, mas, em muitos sentidos, a compara\u00e7\u00e3o mais significativa \u00e9 com a revolta da vacina no Rio de Janeiro em 1904. Foi um ano em que a ci\u00eancia foi para berlinda, os pol\u00edticos brigaram por ela, e o povo saiu de seu desespero para as ruas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal como hoje, o Rio de Janeiro era dividido entre um pequeno o\u00e1sis aonde viviam as elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas\u00a0\u00a0e o pov\u00e3o &#8211; uma multid\u00e3o de pessoas aglomeradas nos morros e corti\u00e7os, ex-escravos, mesti\u00e7os e imigrantes, a maioria sem emprego regular, vivendo em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es, vitimadas pelas epidemias recorrentes de peste bub\u00f4nica, febre amarela, tuberculose e var\u00edola, e vivendo em constante revolta e conflitos com a pol\u00edcia. Na pol\u00edtica, vivia-se o confronto entre, de um lado, os florianistas\u00a0\u00a0e jacobinos &#8211;\u00a0\u00a0militares e civis, sobretudo do Rio de Janeiro, que haviam inscrito o lema dos positivistas, \u201cordem e progresso\u201d, na bandeira nacional &#8211; e, de outro, as oligarquias dos republicanos paulistas e mineiros que haviam se enriquecido com o caf\u00e9 e  tamb\u00e9m se mobilizado para derrubar o Imp\u00e9rio quinze anos antes.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olhando para tr\u00e1s, vem a tenta\u00e7\u00e3o de classificar um ou outro lado como de esquerda ou direita, mas, ent\u00e3o como hoje, n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil. Os jacobinos tinham um discurso radical contra as antigas oligarquias e defendiam um estado moderno, eficiente e autorit\u00e1rio, com um discurso a favor da educa\u00e7\u00e3o popular e da ci\u00eancia tal como havia defendido seu guru Augusto Comte, mas eram contra a pesquisa cient\u00edfica e as universidades. Depois de alguns anos comandando a Rep\u00fablica, tiveram que dar lugar aos republicanos paulistas e seus presidentes \u2013 Prudente de Morais, Campos Sales e Rodrigues Alves \u2013 que tinham sua pr\u00f3pria vers\u00e3o de como o pa\u00eds deveria se modernizar e se desenvolver. Para estes, era preciso livrar os portos das doen\u00e7as contagiosas que afastavam os navios de outros pa\u00edses, desenvolver o transporte ferrovi\u00e1rio para escoar as safras e modernizar as cidades, tirando os pobres e miser\u00e1veis das vistas e abrindo espa\u00e7o para centros e bairros elegantes onde o governo e os endinheirados pudessem construir seus pr\u00e9dios e mans\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 no governo de Campos Sales, em 1902, que come\u00e7a a grande obra de moderniza\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, liderada pelo arquiteto Pereira Passos, inspirado na reforma de Paris de cinquenta anos antes. A cidade portuguesa de ruelas e pr\u00e9dios antigos \u00e9 substitu\u00edda por grandes avenidas e edif\u00edcios de estilo parisiense, os rios que percorriam a cidade s\u00e3o canalizados, e a popula\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel que vivia na regi\u00e3o central \u00e9 expulsa para a periferia ou for\u00e7ada a subir os morros.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Feito o trabalho dos engenheiros, chegou a vez dos sanitaristas que dez anos antes, liderados por Adolfo Lutz, haviam conseguido controlar as epidemias de febre amarela e peste bub\u00f4nica em S\u00e3o Paulo e Santos. No Rio, Oswaldo Cruz, com suas brigadas de mata-mosquitos, come\u00e7a a percorrer os bairros invadindo as casas, desinfetando e destruindo as instala\u00e7\u00f5es insalubres. A febre amarela foi sendo controlada, mas era ainda necess\u00e1rio atacar a var\u00edola, que se espalhava com facilidade e matava uma em cada tr\u00eas pessoas contaminadas. O governo decidiu tornar a vacina obrigat\u00f3ria, e a revolta explodiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0A vacina contra a var\u00edola j\u00e1 era conhecida havia mais de cem anos, mas serviu de pretexto para uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o dos jacobinos contra o governo de Rodrigues Alves. Ao mesmo tempo em que tentavam um golpe de estado, mobilizavam as popula\u00e7\u00f5es empobrecidas dos morros e das periferias contra mais esta viol\u00eancia modernizadora do governo. Os argumentos contra a vacina obrigat\u00f3ria, que apareciam em panfletos, jornais e discursos, inclu\u00edam acusa\u00e7\u00f5es de que se tratava de uma conspira\u00e7\u00e3o para infectar e matar as pessoas, de uma maneira de for\u00e7ar as mulheres a se desnudar diante dos agentes de sa\u00fade, ou, para intelectuais mais refinados como Rui Barbosa, um atentado \u00e0 liberdade individual de se vacinar ou n\u00e3o. Os cadetes da Praia Vermelha tentaram ocupar o Pal\u00e1cio do Catete, o povo foi para as ruas queimando bondes, quebrando lampi\u00f5es e fazendo barricadas, e a revolta s\u00f3 foi controlada \u00e0 custa de muita viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Terminada a revolta, o governo desistiu da vacina\u00e7\u00e3o, os pol\u00edticos e militares revoltosos foram anistiados, e come\u00e7ou a repress\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que havia se rebelado. Centenas foram presos, enviados para a Ilha das Cobras ou deportados para o Acre, e, nos anos seguintes, milhares de pessoas continuaram morrendo anualmente de var\u00edola no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje podemos ver que todos perderam. Os governantes tinham a ci\u00eancia da vacina a seu lado, mas para eles a quest\u00e3o social era um caso de pol\u00edcia, e n\u00e3o foram capazes de ir al\u00e9m da maquiagem modernizadora do velho Rio. Os jacobinos defendiam e insuflavam os pobres das favelas e corti\u00e7os, mas n\u00e3o tinham nada de fato para lhes oferecer, e acabaram jogando-os na fogueira da repress\u00e3o. E o pov\u00e3o, antes como agora, continuou com sua mis\u00e9ria e suas epidemias, sem os benef\u00edcios da ci\u00eancia, sem recursos e sem esperan\u00e7as.\u00a0\u00a0Paralelos com a crise do coronavirus ficam por conta dos leitores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(ver J. D. Needell,  &#8220;The <em>Revolta contra Vacina<\/em> of 1904: the revolt against modernization in <em>Belle-\u00c9poque <\/em>Rio de Janeiro.&#8221; <em>Hispanic American Historical Review<\/em>: pp. 233-269, 1987; e Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, &#8220;Cidad\u00e3os ativos: a Revolta da Vacina.&#8221;em \u00a0<em>Os bestializados: o Rio de Janeiro e a Rep\u00fablica que n\u00e4o foi<\/em>., pp. 91-139, 1999)<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 12 de junho de 2020) Sempre se compara a trag\u00e9dia do coronavirus com a da gripe espanhola de 1918, mas, em muitos sentidos, a compara\u00e7\u00e3o mais significativa \u00e9 com a revolta da vacina no Rio de Janeiro em 1904. 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