{"id":6561,"date":"2020-08-14T06:41:07","date_gmt":"2020-08-14T09:41:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6561"},"modified":"2020-08-17T10:10:33","modified_gmt":"2020-08-17T13:10:33","slug":"as-guerras-de-hoje-e-de-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/as-guerras-de-hoje-e-de-amanha\/","title":{"rendered":"As guerras de hoje e de amanh\u00e3"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em<em> O Estado de S\u00e3o Paulo,<\/em> 14 de agosto de 2020)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dizem que a Fran\u00e7a desmoronou ante os alem\u00e3es em 1940 porque havia se preparado para repetir a Primeira, e n\u00e3o para enfrentar a Segunda Guerra Mundial. A \u00faltima guerra em que o Brasil participou foi a do Paraguai (n\u00e3o contando a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria nos anos 40). Desde ent\u00e3o mantemos uma for\u00e7a militar que hoje custa 113 bilh\u00f5es de reais ao ano, e estamos sendo derrotados pela invas\u00e3o do Coronavirus.&nbsp;&nbsp;Claro que a pandemia n\u00e3o \u00e9 um problema militar, mas o conceito de seguran\u00e7a nacional, pelo qual o pa\u00eds deveria estrar preparado para enfrentar crises e amea\u00e7as internas e externas, deve ser muito mais amplo do que o da prepara\u00e7\u00e3o para uma eventual, e cada vez mais improv\u00e1vel, guerra convencional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto coloca pelo menos tr\u00eas quest\u00f5es que precisar\u00e3o ser aprofundadas na discuss\u00e3o sobre a pol\u00edtica nacional de defesa que o Congresso deve considerar proximamente, que prev\u00ea a vincula\u00e7\u00e3o de 2% do PIB em gastos federais com a \u00e1rea militar, 50 bilh\u00f5es a mais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Primeiro, pensar a estrat\u00e9gia militar como parte de uma pol\u00edtica mais ampla de seguran\u00e7a nacional, que deve incluir tamb\u00e9m as \u00e1reas de sa\u00fade p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia, prote\u00e7\u00e3o ambiental, defesa civil e seguran\u00e7a interna. O setor p\u00fablico precisa se capacitar para enfrentar eventuais crises sanit\u00e1rias, ambientais e sociais com propostas de estrat\u00e9gia e de pol\u00edticas p\u00fablicas equivalentes \u00e0s que o Minist\u00e9rio da Defesa preparou para o setor militar. Os custos de equipar as for\u00e7as armadas, assim como os custos de um sistema adequado de sa\u00fade p\u00fablica e prote\u00e7\u00e3o ambiental, s\u00e3o potencialmente infinitos, \u00e9 sempre poss\u00edvel querer mais. \u00c9 preciso trabalhar dentro das restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias que se tornar\u00e3o extremante fortes nos pr\u00f3ximos anos, combinando recursos federais com os estaduais, do setor privado e da coopera\u00e7\u00e3o internacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo, h\u00e1 que avaliar se as atividades regulares da \u00e1rea militar deveriam se manter restritas ou se ampliar para outras \u00e1reas onde os recursos e a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas poderiam dar uma contribui\u00e7\u00e3o mais regular e direta. N\u00e3o queremos voltar aos anos 60 e 70, quando um conceito extremamente ampliado de seguran\u00e7a nacional serviu para justificar o controle, pelos militares, de todo o Estado e da economia do pa\u00eds. Mas n\u00e3o faz sentido manter toda esta estrutura de pessoal e equipamento indefinidamente isolada nos quart\u00e9is, na expectativa do exerc\u00edcio de sua \u201cfun\u00e7\u00e3o prec\u00edpua\u201d, uma guerra convencional que dificilmente vir\u00e1, quando poderiam estar sendo utilizados de muitas maneiras diferentes.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e1rea militar tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito civil, da constru\u00e7\u00e3o de estradas ao relacionamento com as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, dos tempos do Marechal Rondon, at\u00e9 o controle do tr\u00e1fego a\u00e9reo civil pela Aeron\u00e1utica, sem falar no uso cada vez mais frequente de tropas em quest\u00f5es de seguran\u00e7a local e de fronteiras. Deve ser poss\u00edvel pensar em um modelo h\u00edbrido, em que as for\u00e7as armadas cumpram fun\u00e7\u00f5es regulares na \u00e1rea civil, sem perder sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o militar quando necess\u00e1rio. Ao contr\u00e1rio de uma sociedade militarizada, o que precisamos \u00e9 de um setor militar muito mais pr\u00f3ximo do mundo civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Terceiro, h\u00e1 que perguntar se a atual estrutura e propostas de moderniza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas s\u00e3o as mais adequadas para os recursos dispon\u00edveis e os dias de hoje. \u00c9 in\u00fatil manter uma ampla for\u00e7a armada da qual s\u00f3 uma pequena parte \u00e9 de fato operacional, faz muito mais sentido concentrar recursos em menos unidades com flexibilidade e alta tecnologia. Ainda temos um servi\u00e7o militar universal obrigat\u00f3rio s\u00f3 para homens que mal consegue incorporar cerca de 90 mil dos 1.6 milh\u00f5es de rapazes que chegam aos 18 anos. Por outro lado, o acesso ao oficialato continua restrito a pessoas que passam pelas academias militares. N\u00e3o seria o caso de profissionalizar o servi\u00e7o militar, acabar com a discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres e abrir as carreiras militares para pessoas formadas por universidades civis? E n\u00e3o se poderia avan\u00e7ar muito mais na cria\u00e7\u00e3o de uma reserva militar efetiva, formada por civis devidamente capacitados e n\u00e3o necessariamente ex-militares aposentados, que possam ser mobilizados quando necess\u00e1rio, reduzindo assim o n\u00famero de efetivos?&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, \u00e9 preciso ter mais clareza sobre as tr\u00eas prioridades estrat\u00e9gicas propostas pelo Minist\u00e9rio da Defesa, a nuclear, a espacial e a cibern\u00e9tica. Para qu\u00ea mesmo precisamos de um submarino nuclear? Quais benef\u00edcios civis e militares podemos esperar do programa espacial?&nbsp;&nbsp;Dos tr\u00eas, talvez o mais importante, e menos desenvolvido, \u00e9 o cibern\u00e9tico \u2013 sem uma prote\u00e7\u00e3o contra poss\u00edveis ataques eletr\u00f4nicos, todos os demais equipamentos militares correm o risco de n\u00e3o sair do lugar. Tanto as tecnologias espaciais quanto as cibern\u00e9ticas t\u00eam grande interesse civil, e s\u00e3o impens\u00e1veis fora de uma forte coopera\u00e7\u00e3o com empresas e centros de pesquisa universit\u00e1rios, e dentro de uma estrat\u00e9gia bem concebida de coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os documentos de pol\u00edtica e estrat\u00e9gia preparados pelo Minist\u00e9rio da Defesa precisam ser lidos e discutidos em profundidade, pensando na melhor maneira de&nbsp;&nbsp;militares contribu\u00edrem para enfrentar as guerras de hoje e de amanh\u00e3.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 14 de agosto de 2020) Dizem que a Fran\u00e7a desmoronou ante os alem\u00e3es em 1940 porque havia se preparado para repetir a Primeira, e n\u00e3o para enfrentar a Segunda Guerra Mundial. 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