{"id":6587,"date":"2020-10-09T05:58:24","date_gmt":"2020-10-09T08:58:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6587"},"modified":"2020-10-09T06:10:14","modified_gmt":"2020-10-09T09:10:14","slug":"democracia-em-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/democracia-em-crise\/","title":{"rendered":"Democracia em Crise"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(publicado em <a href=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,democracia-em-crise,70003469110\"><em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 9 de outubro de 2020<\/a>)<\/p>\n<span hidden class=\"__iawmlf-post-loop-links\" data-iawmlf-links=\"[{&quot;id&quot;:156,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,democracia-em-crise,70003469110&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20220526112617\\\/https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,democracia-em-crise,70003469110&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.estadao.com.br\\\/opiniao\\\/espaco-aberto\\\/democracia-em-crise\\\/&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-16 17:06:01&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-20 06:38:04&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-24 20:07:38&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-28 09:02:10&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-03 04:30:48&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-06 14:05:48&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-11 23:50:39&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-16 21:05:21&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-22 09:53:57&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-28 06:10:27&quot;,&quot;http_code&quot;:200}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-28 06:10:27&quot;,&quot;http_code&quot;:200},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]\"><\/span>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A democracia est\u00e1 em crise. O fato de termos um presidente que n\u00e3o acredita nela aumenta o problema, mas \u00e9 mais uma consequ\u00eancia do que sua causa. A crise da democracia tem origens mais profundas. Primeiro, pelo n\u00famero crescente de grupos e setores capazes de se organizar e pressionar por seus interesses. Segundo, pela explos\u00e3o das comunica\u00e7\u00f5es que tornou imposs\u00edvel manter a dist\u00e2ncia que protegia as a\u00e7\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica da vigil\u00e2ncia da opini\u00e3o p\u00fablica. Antes, o que se decidia era feito, ainda que nem sempre de forma acertada. Agora, as ag\u00eancias t\u00eam medo e dificuldade em decidir, e as diverg\u00eancias que surgem a todo o momento se transformam em problemas pol\u00edticos que o governo tem que resolver. Antigamente, se acreditava que o poder dos governos era tanto maior quanto mais decis\u00f5es ele poderia tomar, mas o que se observa \u00e9 que, quanto mais s\u00e3o as coisas que o governo precisa resolver, menos capacidade ele tem de resolv\u00ea-las. As dificuldades se tornam ainda mais graves porque a l\u00f3gica eleitoral, que leva os governantes ao poder, requer juntar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de apoiadores, todos com expectativas de terem seus interesses atendidos, enquanto a l\u00f3gica de governar requer prioridades que com frequ\u00eancia contrariam os interesses de muitos. O resultado s\u00e3o governos paralisados, que n\u00e3o conseguem tomar decis\u00f5es, e uma sociedade civil irrespons\u00e1vel, formada por grupos organizados que n\u00e3o conseguem separar a defesa de seus interesses particulares dos interesses comuns da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta an\u00e1lise pessimista da crise da democracia n\u00e3o \u00e9 de hoje, mas de 50 anos atr\u00e1s, do soci\u00f3logo franc\u00eas Michel Crozier, e n\u00e3o foi feita pensando no Brasil, mas na Europa Ocidental, sobretudo a Fran\u00e7a. Mas, se ele estava certo, como explicar que as democracias europeias tenham durado tanto tempo, e o que dizer de outras democracias muito mais prec\u00e1rias, como a brasileira? E ser\u00e1 que, agora, finalmente, a crise prenunciada est\u00e1 chegando?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte da explica\u00e7\u00e3o da resili\u00eancia das democracias at\u00e9 aqui \u00e9 que o governo \u00e9 s\u00f3 uma parte, e nem sempre a mais importante, do que acontece com a economia e a sociedade em um sistema pol\u00edtico aberto. O exemplo mais gritante talvez seja o da It\u00e1lia, conhecida pela inoper\u00e2ncia e corrup\u00e7\u00e3o de seus governos, mas com uma sociedade brilhante alimentada por fortes culturas locais, milh\u00f5es de pequenos e grandes empreendedores e de turistas que chegam de todo o mundo. A outra explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que, gra\u00e7as \u00e0 alta produtividade da economia, foi poss\u00edvel a muitos pa\u00edses atender \u00e0 demanda crescente por servi\u00e7os sociais e investimentos p\u00fablicos e postergar decis\u00f5es pol\u00edticas custosas. Com a estabilidade, estes pa\u00edses desenvolveram sistemas p\u00fablicos profissionais e de boa qualidade, capazes de ir tocando a administra\u00e7\u00e3o quotidiana de justi\u00e7a, servi\u00e7os de sa\u00fade, transportes, seguran\u00e7a p\u00fablica etc. mesmo quando os governantes se confundem ou n\u00e3o sabem o que fazer.&nbsp;&nbsp;Com o dia a dia funcionando, a popula\u00e7\u00e3o perde interesse pela pol\u00edtica, n\u00e3o se informa, e, se puder, fica em casa nos dias de elei\u00e7\u00e3o, o que reduz a press\u00e3o sobre os governos, e facilita seu trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todo este arranjo come\u00e7a sofrer quando a economia se torna incapaz de sustentar o padr\u00e3o de vida da popula\u00e7\u00e3o e o funcionamento da m\u00e1quina p\u00fablica, com os gastos p\u00fablicos saindo do controle, a economia rateando por excesso de subs\u00eddios e protecionismo, e os pa\u00edses s\u00e3o afetados por crises geopol\u00edticas e naturais, como as cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas e as grandes epidemias.&nbsp;&nbsp;A receita chamada \u201cneoliberal\u201d para esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 reduzir o tamanho do Estado, limitar os gastos e desregular a economia, na esperan\u00e7a que ela possa retomar seu dinamismo. Mas o custo pol\u00edtico deste tipo de reforma pode ser muito alto, e muitas vezes isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em regimes ditatoriais, como ocorreu no Chile de Pinochet e, com menor gravidade, nas reformas dos primeiros anos do governo militar brasileiro. E, segundo, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia de que, reduzidos os custos e controles do setor p\u00fablico, a economia vai florescer espontaneamente, como se viu na R\u00fassia, e muito menos que consiga lidar melhor com as crises externas ou naturais. A receita alternativa \u00e9 partir para regimes populistas autorit\u00e1rios, que aumentam enormemente o risco de aventuras de consequ\u00eancias imprevis\u00edveis, como na Venezuela e em outras partes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil o governo federal, depois de flertar com a ruptura autorit\u00e1ria, acabou se acomodando a um n\u00edvel extremamente baixo de \u201cnormalidade\u201d, com grande dificuldade de tomar decis\u00f5es, a um custo preocupante para a economia, a sociedade, a sa\u00fade p\u00fablica e o meio ambiente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A democracia tem um ant\u00eddoto para isto, que \u00e9 renovar o pacto entre governo e sociedade, com a&nbsp;&nbsp;elei\u00e7\u00e3o de governantes com compet\u00eancia, legitimidade e autoridade suficientes para tomar as decis\u00f5es que sejam necess\u00e1rias, sem se submeter ao varejo do dia a dia, tornando a economia previs\u00edvel e implementando pol\u00edticas sociais de qualidade.&nbsp;&nbsp;Nem sempre funciona, e as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es v\u00e3o nos dizer se teremos chances de seguir este caminho, ou se continuaremos afundando.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 9 de outubro de 2020) A democracia est\u00e1 em crise. 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