{"id":6611,"date":"2020-11-13T06:42:17","date_gmt":"2020-11-13T09:42:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6611"},"modified":"2020-11-13T06:43:08","modified_gmt":"2020-11-13T09:43:08","slug":"dancando-por-biden","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/dancando-por-biden\/","title":{"rendered":"Dan\u00e7ando por Biden"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <a href=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,dancando-por-biden,70003512024\"><em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 13 de novembro de 2020<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vendo as imagens do povo dan\u00e7ando nas pra\u00e7as festejando a derrota de Donald Trump, mais do que a vit\u00f3ria de Joe Biden, \u00e9 inevit\u00e1vel comparar com 12 anos atr\u00e1s, quando da elei\u00e7\u00e3o de Barack Obama. Tal como agora, Obama derrotou um presidente med\u00edocre e inescrupuloso, que jogou o pa\u00eds em uma guerra insensata no Iraque e deixou a economia afundar. Havia a sensa\u00e7\u00e3o de que algo realmente novo e importante estava ocorrendo nos Estados Unidos, com impacto em todo o mundo. Obama era negro, mas foi eleito com a bandeira de uma sociedade p\u00f3s-racial. Era um intelectual com fortes valores humanistas, que projetava uma pol\u00edtica internacional de respeito e considera\u00e7\u00e3o para diferentes culturas. No ano seguinte ganhou o Pr\u00eamio Nobel da Paz, n\u00e3o pelo que j\u00e1 tinha feito, mas pelo que prometia.&nbsp;&nbsp;Sua elei\u00e7\u00e3o parecia indicar que os Estados Unidos, finalmente, havia rompido as barreira do racismo, do isolacionismo e do descaso com as pol\u00edticas sociais.Oito anos depois, sem ter conseguido fazer tudo que prometia, era normal que Obama n\u00e3o conseguisse fazer seu sucessor.&nbsp;&nbsp;Mas a elei\u00e7\u00e3o de Trump n\u00e3o foi uma simples altern\u00e2ncia de poder, mas uma indica\u00e7\u00e3o de que a nova era anunciada pela elei\u00e7\u00e3o de Obama era, em grande parte, uma ilus\u00e3o, e que coisas piores estavam por vir. Ao tomar de assalto o Partido Republicano, Trump capitalizou uma forte corrente de preconceitos raciais, anti-intelectuais e de xenofobia que pareciam ter sido postos \u00e0 margem da sociedade americana, e que subitamente mostraram suas garras.&nbsp;&nbsp;Com ele, a mentira sistem\u00e1tica das fake news, a preval\u00eancia descarada dos interesses comerciais privados sobre o interesse p\u00fablico, o desmonte das institui\u00e7\u00f5es governamentais e sua ocupa\u00e7\u00e3o por bajuladores, o racismo, a xenofobia e todos os preconceitos que antes n\u00e3o se manifestavam, agora se tornaram \u201cnormais\u201d. O passo seguinte, inevit\u00e1vel, foi o ataque \u00e0s institui\u00e7\u00f5es mais centrais do sistema democr\u00e1tico, culminando, agora, com o pr\u00f3prio sistema eleitoral.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vit\u00f3ria de Biden mostra que nem tudo est\u00e1 perdido, mas deixa um gosto amargo, porque a \u201conda azul\u201d foi menor do que se esperava, e Biden provavelmente ter\u00e1 ainda menos condi\u00e7\u00f5es de cumprir o que promete do que Obama, tanto pela oposi\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica que receber\u00e1 como por um contexto internacional menos favor\u00e1vel, com a ascens\u00e3o inevit\u00e1vel da China. A democracia americana sobreviver\u00e1, mas longe do vigor que a era de Obama parecia prenunciar. A hist\u00f3ria americana recente \u00e9 semelhante \u00e0 de muitos outros pa\u00edses, inclusive o Brasil, de surgimento de lideran\u00e7as radicais que conseguem forte apoio popular e partem para o assalto \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, e a dificuldade dos partidos moderados de prevalecer. O que explica a for\u00e7a destes movimentos antidemocr\u00e1ticos, e a fragilidade das democracias?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta, na verdade, deve ser posta ao contr\u00e1rio, porque a democracia \u00e9 uma flor fr\u00e1gil, e \u00e9 quase um milagre que tenha sobrevivido em tantos lugares at\u00e9 aqui. Em um livro recente, \u201c<a href=\"https:\/\/www.penguinrandomhouse.com\/books\/621076\/twilight-of-democracy-by-anne-applebaum\/\">O ocaso da democracia<\/a>\u201d a jornalista americana Anne Applebaum, casada com Rados\u0142aw Sikorski, tamb\u00e9m jornalista e pol\u00edtico de destaque dos governos democr\u00e1ticos da Pol\u00f4nia, conta a hist\u00f3ria da convers\u00e3o \u00e0 extrema direita de muitos de seus amigos e colegas que, como os dois, haviam se engajado na oposi\u00e7\u00e3o ao estalinismo e na esperan\u00e7a de uma nova era democr\u00e1tica para a Europa Oriental e Estados Unidos, e viram em seu lugar surgir os regimes de Jaros\u0142aw Kaczy\u0144ski na Pol\u00f4nia, Viktor Orb\u00e1n na Hungria e Donald Trump nos Estados Unidos. Cada hist\u00f3ria \u00e9 diferente, combinando em diversas doses oportunismo, ambi\u00e7\u00e3o e impaci\u00eancia com a lentid\u00e3o dos regimes democr\u00e1ticos em produzir os resultados esperados.&nbsp;&nbsp;Mas existem problemas mais gerais. A ideia de que a democracia, combinada com a valoriza\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito e da economia aberta e competitiva, \u00e9 a melhor forma de governo, perde for\u00e7a quando ela se torna disfuncional, com muitas pessoas se sentindo exclu\u00eddas de seus benef\u00edcios. E a democracia n\u00e3o consegue dar respostas aos anseios das pessoas por identidade pessoal, comunit\u00e1ria ou nacional. Ao se opor ao surgimento da extrema direita, a oposi\u00e7\u00e3o liberal, nos Estados Unidos e outras partes, ao inv\u00e9s de tentar reconstruir o consenso nacional ao redor dos valores democr\u00e1ticos e do interesse comum, muitas vezes d\u00e1 prioridade \u00e0s pol\u00edticas dos direitos e de identidade de grupos minorit\u00e1rios e setores marginalizados e discriminados, reduzindo ainda mais o espa\u00e7o para a democracia consensual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A democracia, para sobreviver, precisa de lideran\u00e7as capazes de interpretar o interesse geral, de institui\u00e7\u00f5es capazes de resistir aos assaltos dos tiranos de plant\u00e3o, e de uma popula\u00e7\u00e3o capaz de entender que a pol\u00edtica \u00e9 mais do que a express\u00e3o de suas ansiedades e frustra\u00e7\u00f5es. Na elei\u00e7\u00e3o americana, o dado mais esperan\u00e7oso \u00e9 a grande rejei\u00e7\u00e3o de Trump pelos eleitores mais jovens. Anne Applebaum tamb\u00e9m termina seu livro falando de uma nova gera\u00e7\u00e3o que busca novos caminhos, al\u00e9m das pol\u00edticas exauridas da democracia complacente e da extrema direita enlouquecida. O futuro \u00e9 incerto, mas h\u00e1 esperan\u00e7a.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 13 de novembro de 2020) Vendo as imagens do povo dan\u00e7ando nas pra\u00e7as festejando a derrota de Donald Trump, mais do que a vit\u00f3ria de Joe Biden, \u00e9 inevit\u00e1vel comparar com 12 anos atr\u00e1s, quando da elei\u00e7\u00e3o de Barack Obama. 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