{"id":6623,"date":"2021-01-08T08:18:37","date_gmt":"2021-01-08T11:18:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6623"},"modified":"2021-01-08T08:18:42","modified_gmt":"2021-01-08T11:18:42","slug":"de-perto-e-de-longe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/de-perto-e-de-longe\/","title":{"rendered":"De perto e de longe"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(publicado em <a href=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,de-perto-e-de-longe,70003573923\"><em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 8 de janeiro de 2021<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O in\u00edcio de 2021 traz a esperan\u00e7a das vacinas, mas tamb\u00e9m a frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o sabermos se ter\u00e3o efeito duradouro e quanto conseguir\u00e3o efetivamente controlar ou reduzir o impacto da epidemia. O isolamento social, que antes parecia um sacrif\u00edcio inevit\u00e1vel, mas passageiro, agora parece ter-se tornado parte da vida, seja porque continuar\u00e1 sendo necess\u00e1rio, seja porque a enorme expans\u00e3o do uso das novas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o mostrou muitas possibilidades de conviv\u00eancia, educa\u00e7\u00e3o e trabalho \u00e0 dist\u00e2ncia que poucos conheciam e podem ter chegado para ficar. Al\u00e9m da extraordin\u00e1ria expans\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o da pesquisa m\u00e9dica destes \u00faltimos meses, tivemos tamb\u00e9m um grande esfor\u00e7o de pesquisadores nas ci\u00eancias sociais tratando de entender o que significa viver \u00e0 dist\u00e2ncia, comparado com as formas tradicionais de conviv\u00eancia f\u00edsica, e seu poss\u00edvel impacto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O relacionamento pessoal, lembra-nos o soci\u00f3logo <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1057\/s41290-020-00120-z\">Randall Collins<\/a>, \u00e9 a base sobre a qual a vida social se constr\u00f3i. Esse relacionamento, que ele chama de \u201critual de intera\u00e7\u00e3o\u201d, tem quatro componentes: a\u00a0<em>copresen\u00e7a<\/em>, em que as pessoas est\u00e3o fisicamente pr\u00f3ximas e podem ver, ouvir e sentir o que as outras est\u00e3o fazendo;\u00a0<em>um foco de aten\u00e7\u00e3o comum<\/em>, em que os participantes lidam com as mesmas coisas, desenvolvendo um sentimento de intersubjetividade;\u00a0<em>um sentimento ou emo\u00e7\u00e3o compartilhada<\/em>, de alegria, tristeza, medo ou outra; e\u00a0<em>uma sintonia r\u00edtmica<\/em>, que inclui o tom de voz, a atitude corporal e atividades conjuntas como dan\u00e7ar, cantar, bater palmas, torcer por um clube, rezar e outras.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses componentes, quando combinados, trazem v\u00e1rios resultados importantes<em>: solidariedade social<\/em>, em que as pessoas se sentem como fazendo parte de um mesmo grupo ou comunidade;&nbsp;<em>energia emocional<\/em>, em que as pessoas se mobilizam para desenvolver alguma atividade comum, como nos esportes, atuando com confian\u00e7a e entusiasmo; a cria\u00e7\u00e3o e o fortalecimento de&nbsp;<em>s\u00edmbolos coletivos<\/em>&nbsp;\u2013 palavras, maneiras de vestir, ideias \u2013 que permitem identificar quem faz parte do grupo e quem n\u00e3o faz, e fazem reviver as experi\u00eancias compartilhadas; e&nbsp;<em>moralidade<\/em>, regras sobre o que \u00e9 certo e errado, tamb\u00e9m compartilhadas pelos participantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 pela linguagem, em suas diversas formas, que os s\u00edmbolos dessas microexperi\u00eancias de relacionamento se cristalizam, se difundem e criam o que os soci\u00f3logos chamam de <em>capital social,<\/em> o sentido de pertencimento a uma cultura e sociedade em que as pessoas confiam umas nas outras e nas institui\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tese principal de Collins \u00e9 que para que a sociedade se mantenha viva \u00e9 necess\u00e1rio que esses rituais compartilhados se repitam e se renovem, sob pena de a cultura, os conhecimentos, os valores e a pr\u00f3pria linguagem se tornarem demasiado distantes, abstratos, e se esvaziarem. A grande esperan\u00e7a dos soci\u00f3logos cl\u00e1ssicos, como o franc\u00eas \u00c9mile Durkheim, era que fosse poss\u00edvel fazer uso da educa\u00e7\u00e3o e dos s\u00edmbolos nacionais para manter a coes\u00e3o social de sociedades complexas. O que vemos hoje \u00e9 que, na busca da renova\u00e7\u00e3o desses rituais, as pessoas muitas vezes acabam desenvolvendo culturas, identidades, valores e mesmo linguagens diferentes e conflitantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que acontece quando esses rituais n\u00e3o se podem dar, ou s\u00e3o substitu\u00eddos por intera\u00e7\u00f5es \u00e0 dist\u00e2ncia? Isso depende de tr\u00eas fatores: a idade das pessoas envolvidas, a complexidade das atividades que elas devem desenvolver e a qualidade e acessibilidade das tecnologias dispon\u00edveis. Quanto mais jovens as pessoas, mais elas necessitam dos rituais de intera\u00e7\u00e3o entre iguais, para desenvolverem sua identidade, e com adultos, para identificarem os modelos de pessoas que gostariam de ser \u2013 os<em>\u00a0role models<\/em>, como dizem os soci\u00f3logos. Claro que as necessidades de uma crian\u00e7a aprendendo a ler s\u00e3o diferentes das de um adolescente ou de um jovem adulto, mas para todos \u00e9 fundamental o ritual quotidiano de se reconhecer e conhecer o mundo por meio do compartilhamento de intera\u00e7\u00f5es pessoa a pessoa, olho a olho, corpo a corpo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para adultos que j\u00e1 t\u00eam seu c\u00edrculo de rela\u00e7\u00f5es formado e sua identidade bem constitu\u00edda \u00e9 mais f\u00e1cil trabalhar e estudar \u00e0 dist\u00e2ncia, ainda que, isolados, a capacidade de criar e a produtividade tendam a cair. Na educa\u00e7\u00e3o, os recursos tecnol\u00f3gicos podem trazer uma grande contribui\u00e7\u00e3o ao tornar dispon\u00edveis bons materiais pedag\u00f3gicos e sistemas inteligentes de capacita\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o individualizados, mas n\u00e3o substituem o contato do aluno com o professor, a vida social de um col\u00e9gio ou universidade, ou, na pesquisa, o desenvolvimento de conhecimentos, valores e atitudes t\u00e1citas que n\u00e3o se codificam em manuais nem em algoritmos sofisticados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Boas tecnologias, que facilitam a comunica\u00e7\u00e3o e simulam a intera\u00e7\u00e3o do mundo real, podem ajudar muito, mas ainda est\u00e3o longe de poder substituir a necessidade da realimenta\u00e7\u00e3o da vida e dos sentidos que trazem as rela\u00e7\u00f5es pessoais. Ao contr\u00e1rio, quando mais condi\u00e7\u00f5es tivermos de trabalhar sozinhos e encontrar nossos pr\u00f3prios caminhos, mais necessidade teremos de estar pr\u00f3ximos de outras pessoas e compartilhar o que aprendemos e quem somos.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 8 de janeiro de 2021) O in\u00edcio de 2021 traz a esperan\u00e7a das vacinas, mas tamb\u00e9m a frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o sabermos se ter\u00e3o efeito duradouro e quanto conseguir\u00e3o efetivamente controlar ou reduzir o impacto da epidemia. 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