{"id":6844,"date":"2021-08-13T22:39:22","date_gmt":"2021-08-14T01:39:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6844"},"modified":"2021-08-13T22:39:29","modified_gmt":"2021-08-14T01:39:29","slug":"o-sabio-e-os-sabidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-sabio-e-os-sabidos\/","title":{"rendered":"O s\u00e1bio e os sabidos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">(publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo,<\/em> 13 de agosto de 2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVem me fazer uma visita\u201d, me disse Jos\u00e9 Arthur Giannotti, da \u00faltima vez que nos vimos, em um semin\u00e1rio no Instituto Fernando Henrique Cardoso. Disse que ia, lembrando de outras ocasi\u00f5es em que me recebeu em sua casa no Morumbi, falando sobre os temas de filosofia, pol\u00edtica e das pessoas que o fascinavam. Acabei n\u00e3o indo, e agora ele nos deixou. O encontro anterior havia sido em um voo desde Bras\u00edlia em que nos encontramos e no qual ele falou longamente sobre o que estava escrevendo sobre Wittgenstein. No final perguntou se eu estava entendendo, eu disse que sim, e ele sorriu, contente, \u201cviu como \u00e9 simples? At\u00e9 voc\u00ea entende!\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade n\u00e3o havia entendido direito, hoje acho que compreendo melhor. Se Giannotti era t\u00e3o dif\u00edcil de entender, tanto por escrito quanto falando, como explicar o grande sentimento de perda de tanta gente, agora que ele se foi? N\u00e3o deve ser s\u00f3 por sua produ\u00e7\u00e3o como fil\u00f3sofo, cujo valor cabe aos colegas de profiss\u00e3o avaliar.&nbsp; Para os demais, foi sem d\u00favida importante sua presen\u00e7a e lideran\u00e7a na vida intelectual brasileira que come\u00e7a na antiga Faculdade de Filosofia da USP na Rua Maria Ant\u00f4nia, continua no famoso grupo de leitura de \u201cO Capital\u201d nos anos 50 e 60, e se prologa nos anos em que presidiu&nbsp; e participou do Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento \u2013 CEBRAP, a institui\u00e7\u00e3o criada pelos professores de filosofia e ci\u00eancias sociais que, como ele, haviam sido expulsos da USP pelo regime militar. Mais importante, no entanto, eram a&nbsp; permanente abertura e disposi\u00e7\u00e3o para o debate e o di\u00e1logo, contestando certezas estabelecidas, trazendo ideias inesperadas, e fazendo pensar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, o que pensava Giannotti, que ideias defendia? O que me parece que ele recupera de Wittgenstein, nos escritos mais recentes, \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de que os conhecimentos n\u00e3o se d\u00e3o de forma abstrata, pelo exerc\u00edcio formal da l\u00f3gica e da dedu\u00e7\u00e3o, mas a partir de jogos da intera\u00e7\u00e3o&nbsp; e conviv\u00eancia social, que&nbsp; geram&nbsp; mundos compartilhados de \u201cjogos de linguagem\u201d,&nbsp; em cujo interior adquirem&nbsp; significado.&nbsp; A vida social sup\u00f5e um esfor\u00e7o constante para construir novos significados, sendo o desafio a expans\u00e3o de jogos de linguagem abertos ao di\u00e1logo e conviv\u00eancia&nbsp; plural. O mundo da ci\u00eancia, da tecnologia, da vida em sociedade, das rela\u00e7\u00f5es de poder e dos conflitos, tudo isto tem origem nestas linguagens compartilhadas, o que leva a uma agenda pol\u00edtica que \u00e9 a da recupera\u00e7\u00e3o desta humanidade comum que nos une, inclusive a nossos advers\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 tudo muito abstrato, mas se torna mais claro quando se l\u00ea seu livro sobre a \u201cUniversidade em Ritmo de Barb\u00e1rie\u201d,&nbsp; escrito em 1986, refletindo sobre os trabalhos da Comiss\u00e3o Nacional de Reformula\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Superior criada nos primeiros anos da Nova Rep\u00fablica.&nbsp; O desafio de ent\u00e3o, como o de hoje, era como defender e valorizar uma universidade e&nbsp; uma comunidade cient\u00edfica que haviam sido violentamente atacadas pelo governo militar, e fazer com que elas, na democracia que se abria, n\u00e3o sucumbissem \u00e0 l\u00f3gica dos interesses corporativos que colocavam em risco sua pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser, e abrissem espa\u00e7os para o di\u00e1logo e o desenvolvimento do conhecimento e da cultura. \u201cA universidade moderna\u201d,&nbsp; diz ele, \u201cconfigura uma enorme m\u00e1quina, altamente sofisticada e complexa, que engole e produz saberes, s\u00e1bios e sabidos\u201d.&nbsp; O s\u00e1bio \u00e9 quem ensina, pesquisa, questiona, serve de modelo e forma seus alunos.&nbsp; \u00c9 quem dialoga, retomando e ampliando os jogos de linguagem da comunica\u00e7\u00e3o. O sabido \u00e9 quem se aproveita da l\u00f3gica institucional para amealhar vantagens, posi\u00e7\u00f5es de prest\u00edgio e de poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o s\u00e3o entes totalmente distintos, o s\u00e1bio precisa tamb\u00e9m ser sabido para sobreviver na m\u00e1quina universit\u00e1ria.&nbsp; Mas \u00e9 fundamental preservar a miss\u00e3o central da vida universit\u00e1ria, e para isto, nos diz Giannotti, \u00e9 &nbsp;preciso isolar o sabido, uma tarefa quase imposs\u00edvel, porque a l\u00f3gica dos interesses de curto prazo fez com que a universidade brasileira se tornasse uma \u201cf\u00e1brica de sabidos\u201d . As avalia\u00e7\u00f5es externas, os processos internos de sele\u00e7\u00e3o de dirigentes baseados na qualidade acad\u00eamica, o fortalecimento da natureza p\u00fablica das institui\u00e7\u00f5es educacionais, sejam elas estatais ou privadas, s\u00e3o alguns dos mecanismos necess\u00e1rios para evitar que a voracidade dos sabidos n\u00e3o termine por sufocar as institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa de que se alimentam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mundo da comunica\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo que buscava Giannotti n\u00e3o era o mundo falsamente harm\u00f4nico que esconde a desigualdade, a pobreza e a explora\u00e7\u00e3o. Giannotti se formou no ambiente intelectual franc\u00eas de cr\u00edtica e revisionismo do marxismo, onde se buscava resgatar as preocupa\u00e7\u00f5es centrais de Marx com a explora\u00e7\u00e3o capitalista e a mis\u00e9ria, sem cair na aberra\u00e7\u00e3o do totalitarismo do \u201csocialismo real\u201d.&nbsp; Sem tentar escapar do mundo moderno da tecnologia, da burocracia, das grandes corpora\u00e7\u00f5es e das redes de comunica\u00e7\u00e3o, mas criticando a desigualdade, a aliena\u00e7\u00e3o e o mundo fren\u00e9tico e empobrecido dos sabidos que produz, Giannotti se manteve sempre como o s\u00e1bio do pensamento independente, cr\u00edtico, e do di\u00e1logo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 13 de agosto de 2021) \u201cVem me fazer uma visita\u201d, me disse Jos\u00e9 Arthur Giannotti, da \u00faltima vez que nos vimos, em um semin\u00e1rio no Instituto Fernando Henrique Cardoso. 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