{"id":6856,"date":"2021-09-20T09:19:06","date_gmt":"2021-09-20T12:19:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6856"},"modified":"2021-09-20T09:54:24","modified_gmt":"2021-09-20T12:54:24","slug":"heloisa-pait-meus-professores-da-fefeleche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/heloisa-pait-meus-professores-da-fefeleche\/","title":{"rendered":"Heloisa Pait: Meus professores da Fefeleche"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">(Estudante da FEA-USP de 1986-89)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Francisco Weffort, Paula Montero, Chico de Oliveira, Beth Lobo, Ruy Fausto e Regis Andrade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses s\u00e3o os professores da Fefeleche que fizeram parte de minha forma\u00e7\u00e3o. A Beth Lobo nos deu para ler&nbsp;<em>L\u2019\u00c9tabli<\/em>, um relato da experi\u00eancia do autor como oper\u00e1rio numa f\u00e1brica da Citro\u00ebn, uma coisa totalmente diferente do que v\u00edamos na FEA, e que me encantou. Ela insistia para eu mudar para a sociais, e de algum modo, mudei. Beth Lobo faleceu muito cedo, e confesso que escrevendo agora sinto falta dela. Queria poder falar com ela, j\u00e1 madura, professora, doutora, das f\u00e1bricas por onde passei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ruy Fausto faleceu recentemente, e busquei seus cursos como quem busca no shopping a melhor loja e nela a melhor roupa. Queria um marxismo puro e correto, a lente perfeita para ver o mundo, e nisso n\u00e3o me decepcionei: estava ali um marxismo rigoroso, que analisava at\u00e9 os travess\u00f5es do texto, as movimenta\u00e7\u00f5es dos cap\u00edtulos, a dan\u00e7a dos conceitos. De vez em quando me voltam \u00e0 cabe\u00e7a os modos de produ\u00e7\u00e3o e as formas de coopera\u00e7\u00e3o, e vai saber se n\u00e3o s\u00e3o as aulas herm\u00e9ticas do professor buscando seus sentidos no mundo real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do Regis, tamb\u00e9m falecido cedo, lembro que nos deu coisas que n\u00e3o imagin\u00e1vamos obter: nos deu a liberdade para a pesquisa e o foco tamb\u00e9m. Tinha perguntas claras e queria que n\u00f3s f\u00f4ssemos l\u00e1 fu\u00e7ar e descobr\u00edssemos. Est\u00e1 entre meus melhores professores de todos os tempos, n\u00e3o s\u00f3 da gradua\u00e7\u00e3o, mas da vida. Ousou demais, e isso lhe permitia deixar que ous\u00e1ssemos. Dirigia como um doido, mas nas nossas reuni\u00f5es de pesquisa ouvia atento, sem pressa, com perguntas pausadas, como se nos assistisse. Sent\u00edamo-nos gente, e quando dou uma boa aula penso nele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Paula Montero, desses todos, \u00e9 a que est\u00e1 viva. Fiz um curso com ela dado pelos tr\u00eas departamentos das sociais, sobre o pensamento social brasileiro. O curso foi excelente, e das aulas dela me lembro dos seus olhos, grandes e saltados, que j\u00e1 exigiam de n\u00f3s uma acomoda\u00e7\u00e3o. Acho que entendi naquele curso a pr\u00f3pria id\u00e9ia de pensamento, de um conjunto de autores e textos que pode ser interrogado, analisado de modo ponderado. Dos cursos da tradi\u00e7\u00e3o uspiana de exegese textual, esse \u00e9 o que ficou, pois descortinava os elos entre a exegese e a vida mundana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que o curso que fiz com o Chico de Oliveira era sobre estrutura de classe e estratifica\u00e7\u00e3o social. E penso que o curso do Weffort era sobre a Am\u00e9rica Latina, mas esse n\u00e3o encontro no meu curr\u00edculo, talvez tenha feito como ouvinte. Os cursos est\u00e3o embaralhados em minha mem\u00f3ria. Lembro que Chico de Oliveira tinha mais certezas, Weffort mais d\u00favidas. Um deles subiu at\u00e9 a porta, numa sala em audit\u00f3rio, para pedir a um aluno que estava olhando pelo visor para entrar na aula, ou sair da porta, pois aquela posi\u00e7\u00e3o ali de vigia lhe lembrava os tempos da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ambos eram uma ponte entre aquele \u201ctempo da ditadura\u201d e os novos tempos, tempos da democracia, que eles procuravam entender, como o Regis, ainda atarantados com esse novo regime, votos, partidos, elei\u00e7\u00f5es. Todos, na verdade, eram essa ponte, alguns ignorando uma transi\u00e7\u00e3o que tinha acabado de acontecer, buscando as for\u00e7as profundas da sociedade, outros reconhecendo que algo havia mudado e era preciso compreender, como o Regis e o Weffort.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses professores, \u00e9 preciso dizer, acolhiam a n\u00f3s, \u201ceconomistas\u201d, numa universidade onde alunos de outros cursos n\u00e3o eram necessariamente bem recebidos, nem na FEA nem na FFLCH. \u00c9ramos das primeiras turmas de uma tal resolu\u00e7\u00e3o 3045, do reitor Goldemberg, que permitia que fiz\u00e9ssemos mat\u00e9rias em outras unidades. Mas nem todos os professores e funcion\u00e1rios gostavam da id\u00e9ia, criando toda a sorte de obst\u00e1culos. Ent\u00e3o s\u00f3 o fato de terem nos aceitado nas aulas e ainda nos tomado como interlocutores j\u00e1 diz muito sobre cada um.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do Weffort, lembro ainda, com carinho, que me indicou para fazer minha primeira pesquisa com o Regis, ou seja, meu primeiro emprego. Ele tamb\u00e9m leu minha monografia, uma leitura de&nbsp;<em>Depend\u00eancia e Desenvolvimento,<\/em> de Fernando Henrique Cardoso, a partir da leitura de Karl Marx do Ruy Fausto, ou seja, um exerc\u00edcio de cr\u00edtica e interpreta\u00e7\u00e3o. Ele aceitou conversar comigo numa tarde ensolarada, no Cedec. Sobre a monografia, olhou para mim de igual para igual, como leitor mesmo, e me fez uma pergunta que ainda ou\u00e7o, quando escrevo coisas assim meio abstratas: \u201cT\u00e1. E da\u00ed?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o soube responder, mas n\u00e3o importa. Boas perguntas s\u00e3o assim, ficam penduradas na cabe\u00e7a da gente, \u00e0 espera do encontro com alguma poss\u00edvel resposta. Cada um desses professores, de um jeito, faz parte do que eu escrevo hoje, seja me levando para viagens m\u00e1gicas, seja me trazendo para o mundo social. Cada um deles me interroga, seja me chamando a tomar posi\u00e7\u00f5es, me exigindo rigor conceitual, me instando a compreender melhor o momento e meu lugar nele. E me interrogando, como Weffort, que consequ\u00eancias ter\u00e3o, afinal de contas, o nosso trabalho, sobre as vidas das pessoas.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Estudante da FEA-USP de 1986-89) Francisco Weffort, Paula Montero, Chico de Oliveira, Beth Lobo, Ruy Fausto e Regis Andrade. Esses s\u00e3o os professores da Fefeleche que fizeram parte de minha forma\u00e7\u00e3o. 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