{"id":6866,"date":"2021-10-08T06:57:17","date_gmt":"2021-10-08T09:57:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6866"},"modified":"2021-10-08T06:57:24","modified_gmt":"2021-10-08T09:57:24","slug":"a-escolha-de-reitores-para-as-universidades-federais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-escolha-de-reitores-para-as-universidades-federais\/","title":{"rendered":"A escolha de reitores para as universidades federais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo,<\/em> 8 de outubro de 2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Com escolha de reitores por Bolsonaro, cresce tens\u00e3o pol\u00edtica nas universidades federais,<\/em> diz a mat\u00e9ria de <strong>O Estado de S. Paulo <\/strong>de 19 de setembro, assinada por Renata Cafardo. A regra \u00e9 as universidades encaminharem \u00e0 Presid\u00eancia uma lista de tr\u00eas nomes, eleitos internamente, e a tradi\u00e7\u00e3o era o governo sempre nomear o primeiro da lista. Em 1998, por\u00e9m, o ent\u00e3o ministro Paulo Renato Souza decidiu n\u00e3o nomear o primeiro da lista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que havia feito uma campanha baseada em ataques ao governo de Fernando Henrique Cardoso, o que levou a uma prolongada e desgastante greve da institui\u00e7\u00e3o. Dos 50 reitores nomeados pelo atual governo, 18 eram os segundos ou terceiros, o que provocou, em muitos casos, conflitos e protestos de professores, alunos e funcion\u00e1rios das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 uma das situa\u00e7\u00f5es em que o que havia antes n\u00e3o era bom e a tentativa de corrigir o problema ficou pior. Antes n\u00e3o era bom porque as universidades p\u00fablicas n\u00e3o s\u00e3o rep\u00fablicas aut\u00f4nomas que podem fazer o que querem, mas institui\u00e7\u00f5es financiadas pela sociedade para cumprir determinados objetivos de pesquisa, forma\u00e7\u00e3o superior e outras atividades de interesse p\u00fablico. Seus dirigentes precisam, por um lado, ter o respeito e o apoio de suas corpora\u00e7\u00f5es internas \u2013 professores, funcion\u00e1rios, estudantes \u2013 e, por outro, cumprir mandatos mais amplos, que, ao menos em princ\u00edpio, devem ser supervisionados pelo Poder Executivo. O sistema de lista tr\u00edplice buscou conciliar esses dois objetivos \u2013 o Executivo nomeia os reitores, mas dentro de uma lista de pessoas escolhidas pelas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todavia o processo de indica\u00e7\u00e3o da lista tr\u00edplice muitas vezes se politiza e o primeiro acaba sendo quem foi mais capaz de negociar apoios ou atender a demandas que podem ter pouco que ver com o interesse p\u00fablico. Por esse sistema, as universidades n\u00e3o t\u00eam como trazer de fora lideran\u00e7as inovadoras, capazes de romper rotinas e acomoda\u00e7\u00f5es. Temos muitos exemplos de bons reitores nomeados por esse sistema, mas muitos contraexemplos tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema com a outra solu\u00e7\u00e3o, de simplesmente nomear um indicado com menos apoio, ou at\u00e9 mesmo algu\u00e9m de fora da lista ou da institui\u00e7\u00e3o, como tem sido proposto, \u00e9 que o reitor de uma universidade n\u00e3o pode ser um simples gerente, mas uma pessoa que precisa liderar uma institui\u00e7\u00e3o complexa formada por profissionais de alto n\u00edvel e estudantes com suas aspira\u00e7\u00f5es e demandas, e n\u00e3o tem como fazer isso sem o apoio e a participa\u00e7\u00e3o de pelo menos uma parte importante de seus liderados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A solu\u00e7\u00e3o correta, adotada praticamente em todo o mundo, \u00e9 que os reitores sejam selecionados por comiss\u00f5es de busca formadas por pessoas da institui\u00e7\u00e3o e de fora (do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, de ag\u00eancias de pesquisa, do governo local, representantes da sociedade civil, etc.). \u00c9 um trabalho delicado, que inclui editais p\u00fablicos para que poss\u00edveis candidatos se apresentem e um processo complexo de avalia\u00e7\u00e3o e consultas at\u00e9 identificar pessoas capazes de combinar tanto a compet\u00eancia executiva quanto o respeito e a coopera\u00e7\u00e3o dos setores mais significativos da institui\u00e7\u00e3o e da comunidade acad\u00eamica e cient\u00edfica do Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por tr\u00e1s da dificuldade com a escolha dos reitores est\u00e1 a quest\u00e3o mais profunda do que se deve entender por autonomia universit\u00e1ria. Ela deve incluir, desde logo, a liberdade de pesquisar e ensinar, mas tamb\u00e9m a liberdade de administrar recursos e, sobretudo, de implementar pol\u00edticas inteligentes de administra\u00e7\u00e3o de talentos, que s\u00e3o o principal patrim\u00f4nio de uma institui\u00e7\u00e3o de ensino e pesquisa. Isso requer, por exemplo, poder contratar professores especialmente qualificados dentro e fora do Pa\u00eds para liderar \u00e1reas estrat\u00e9gicas e negociar seus sal\u00e1rios, e afastar ou alterar os contratos dos que n\u00e3o tenham bom desempenho ou atuem em \u00e1reas menos priorit\u00e1rias, assim como manejar com flexibilidade seus or\u00e7amentos, coisas que o regime de isonomia e reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica a que est\u00e3o submetidas impede. E deve incluir a liberdade de cobrar anuidades de quem pode pagar e financiar quem n\u00e3o pode. N\u00e3o se trata de arb\u00edtrio, deve haver regras, mas flex\u00edveis e internas a cada institui\u00e7\u00e3o, fazendo sempre prevalecer o interesse p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O outro lado dessa autonomia \u00e9 um sistema de financiamento p\u00fablico associado a desempenho em pesquisa, qualidade de ensino, equidade, empregabilidade dos formados, impacto regional e outros objetivos considerados importantes, devidamente monitorados por um processo de avalia\u00e7\u00e3o distinto do j\u00e1 obsoleto sistema estabelecido em 2004, o Sinaes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem uma reforma profunda, que devolva \u00e0s universidades sua autonomia e as torne respons\u00e1veis por seus resultados, a quest\u00e3o de se os primeiros das listas tr\u00edplices devem ou n\u00e3o ser nomeados reitores perde import\u00e2ncia. Como tantas outras coisas no Brasil, o dilema n\u00e3o deve ser entre voltar aos erros do passado ou manter os erros do presente, mas trazer o Pa\u00eds para a realidade e as necessidades do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 8 de outubro de 2021) Com escolha de reitores por Bolsonaro, cresce tens\u00e3o pol\u00edtica nas universidades federais, diz a mat\u00e9ria de O Estado de S. Paulo de 19 de setembro, assinada por Renata Cafardo. 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