{"id":6903,"date":"2021-12-10T06:58:35","date_gmt":"2021-12-10T09:58:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6903"},"modified":"2021-12-10T14:38:10","modified_gmt":"2021-12-10T17:38:10","slug":"mineiros-autenticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/mineiros-autenticos\/","title":{"rendered":"Mineiros aut\u00eanticos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em<em> O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 10 de dezembro, 2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.intrinseca.com.br\/livro\/1035\/\">Diferentes de mim, <\/a>Bol\u00edvar Lamounier e Edmar Bacha, que acabam de publicar suas hist\u00f3rias<a href=\"applewebdata:\/\/4DAB4E18-8ABD-49A3-8DB6-E744B13493F3#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, s\u00e3o mineiros de verdade.&nbsp;&nbsp;Bol\u00edvar nasceu em Dores do Indai\u00e1, e lembra com afeto as casas coloniais, as pescarias no rio e o isolamento que fazia da cidade parte do sert\u00e3o mineiro. Edmar lembra da pequena Lambari do Sul de Minas, do sobrado em que morava, do sandu\u00edche que comia no Bar do Juca e do apito do trem que chegava \u00e0 cidade ao anoitecer.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi em Dores, nos anos 20, que Francisco Campos fundou uma Escola Normal, uma das primeiras do pa\u00eds, onde a m\u00e3e se formou como professora rural e na qual matriculou o filho para estudar nas \u201cclasses anexas\u201d em que a melhor pedagogia da \u00e9poca era adotada. O pai era um pequeno fazendeiro e comerciante, da fam\u00edlia Lamounier de Itapecerica que inclu\u00eda m\u00e9dicos, pol\u00edticos e m\u00fasicos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lambari, em compara\u00e7\u00e3o, era uma cidade mais moderna, parte do \u201ccircuito das \u00e1guas\u201d que recebia os turistas das cidades grandes em seus hot\u00e9is e cassinos. Do lado da m\u00e3e, que era diretora da escola local, Edmar vem de uma fam\u00edlia de origem portuguesa, os Lisboa, na qual o culto da literatura era personificado na <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Henriqueta_Lisboa\">tia Henriqueta<\/a>. Os Bacha s\u00e3o de origem libanesa, que come\u00e7aram a chegar ao Brasil no final do s\u00e9culo 19 em busca de novas oportunidades. Ambas as fam\u00edlias se mudaram para Belo Horizonte e, no in\u00edcio dos anos 60, Bol\u00edvar e Edmar se encontraram na Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFMG, um no curso de sociologia e pol\u00edtica, outro em economia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhum fazia parte da \u201ctradicional fam\u00edlia mineira\u201d que controlava a pol\u00edtica, as terras e os recursos do Estado. Nem da grande massa, incluindo antigos escravizados que, terminado o ciclo do ouro do s\u00e9culo 18, ficou isolada nas pequenas aldeias e ro\u00e7as do interior, em uma economia que mal garantia a sobreviv\u00eancia. Mas faziam parte de um grupo significativo de pessoas que, pelo empreendedorismo e sobretudo pela educa\u00e7\u00e3o, buscavam participar do progresso que emanava do Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo e aos poucos, pelo r\u00e1dio pelas estradas, ia chegando ao interior, atraindo os mais inquietos, ou mais necessitados, para as capitais. Eram, pode-se dizer com algum exagero, sucessores dos aventureiros que vieram para Minas em busca do ouro, participaram da Inconfid\u00eancia, escreviam poesia e liam \u00e0s escondidas os <a href=\"https:\/\/leitura.com.br\/o-diabo-na-livraria-do-conego-L037-9788531908576\">livros proibidos da imensa biblioteca do c\u00f4nego de Mariana.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estudar sociologia, pol\u00edtica e economia era tamb\u00e9m sair da rota tradicional dos cursos de direito, medicina e engenharia, preferidos pelos filhos das fam\u00edlias tradicionais. <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-magica-do-dr-yvon\/\">A Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFMG, com seu programa de bolsas de estudo<\/a>, criou entre os estudantes um ambiente efervescente em que novas ideias e estilos de vida eram experimentados, a milit\u00e2ncia pol\u00edtica atraia a quase todos, e de onde tantos sa\u00edram para voos mais altos. Bol\u00edvar e Edmar, nos anos 60, foram entre os primeiros cientistas sociais brasileiros a partir para os modernos cursos de doutorado nos Estados Unidos \u2013 Universidade da Calif\u00f3rnia e Yale \u2013 rompendo com a tradi\u00e7\u00e3o francesa que predominava na gera\u00e7\u00e3o mais velha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta ao Brasil, nos anos 70, ajudaram a organizar novos cursos&nbsp;de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que iriam formar as futuras gera\u00e7\u00f5es &#8211; o Instituto Universit\u00e1rio de Pesquisas do Rio de Janeiro, por Bol\u00edvar, e o departamento de economia da Universidade de Bras\u00edlia, por Edmar. Mais tarde Bol\u00edvar ajudou a organizar o CEBRAP, dirigido por Fernando Henrique Cardoso, e depois fundou o IDESP, outro instituto independente de pesquisas sociais em S\u00e3o Paulo. Edmar, depois de Bras\u00edlia, foi um dos fundadores do curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em economia da PUC do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas foi na produ\u00e7\u00e3o intelectual e na vida p\u00fablica que ambos deram continuidade \u00e0 inquieta\u00e7\u00e3o mineira que traziam das origens. Bol\u00edvar, ainda estudante, participou dos movimentos estudantis, chegou a ser preso pela ditatura militar, e escreveu sua tese de doutorado criticando a tradi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria dos intelectuais brasileiros, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda. Fez parte da Comiss\u00e3o Afonso Arinos, que na d\u00e9cada de 80 procurou produzir, para o Brasil, uma Constitui\u00e7\u00e3o moderna e fundada em princ\u00edpios de justi\u00e7a social e liberdade econ\u00f4mica, e em seus in\u00fameros livros e artigos, foi sempre um defensor da democracia parlamentarista. Edmar, que no in\u00edcio se aproximou dos economistas desenvolvimentistas como Celso Furtado, passou depois a dar prioridade aos temas da liberdade e abertura da economia e do Estado eficiente, como os melhores caminhos para sair do c\u00edrculo vicioso do atraso, da desigualdade e da pobreza. Foi presidente do IBGE, de onde, nos anos 80, participou do frustrado Pano Cruzado, e finalmente, nos anos 90, foi um dos principais organizadores e mentores intelectuais do Plano Real.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um conforto ver que ambos continuam remando contra a corrente, escrevendo e falando na busca dos melhores caminhos para o Brasil moderno, que ainda acham vi\u00e1vel, se livre das tenta\u00e7\u00f5es populistas e reacion\u00e1rias que mobilizam a tantos. Aut\u00eanticos mineiros.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"applewebdata:\/\/4DAB4E18-8ABD-49A3-8DB6-E744B13493F3#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;Edmar Bacha<em>, No pa\u00eds dos contrastes<\/em>, Selo Real, 2021; Bol\u00edvar Lamounier,&nbsp;<em>De onde, para onde<\/em>, Global, 2018;&nbsp;<em>Antes que me esque\u00e7a,<\/em>&nbsp;Desconcertos, 2021.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 10 de dezembro, 2021) Diferentes de mim, Bol\u00edvar Lamounier e Edmar Bacha, que acabam de publicar suas hist\u00f3rias[1], s\u00e3o mineiros de verdade.&nbsp;&nbsp;Bol\u00edvar nasceu em Dores do Indai\u00e1, e lembra com afeto as casas coloniais, as pescarias no rio e o isolamento que fazia da cidade parte do sert\u00e3o &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/mineiros-autenticos\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Mineiros aut\u00eanticos&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-6903","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencias-sociais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6903","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6903"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6903\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6908,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6903\/revisions\/6908"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}