{"id":6920,"date":"2022-01-14T07:21:55","date_gmt":"2022-01-14T10:21:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=6920"},"modified":"2022-01-14T07:22:02","modified_gmt":"2022-01-14T10:22:02","slug":"nuestra-america","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/nuestra-america\/","title":{"rendered":"Nuestra America"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"> (Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 14 de janeiro de 2022)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A elei\u00e7\u00e3o do jovem Gabriel Boric para a presid\u00eancia traz a esperan\u00e7a de que o Chile talvez consiga escapar dos ciclos de populismo, autoritarismo, estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e decad\u00eancia institucional que est\u00e1 assolando a maioria dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o fim da ditatura de Pinochet, entre 1990 e 2010, o Chile foi governado pela\u00a0<em>Concertaci\u00f3n,<\/em>\u00a0coaliz\u00e3o de partidos de centro esquerda que conseguiu combinar a abertura da economia com pol\u00edticas sociais inteligentes, reduzindo a pobreza e a desigualdade, melhorando a qualidade da educa\u00e7\u00e3o e desenvolvendo a economia como nenhum outro pa\u00eds da regi\u00e3o. Isto n\u00e3o foi suficiente, no entanto, para evitar que o sentimento de frustra\u00e7\u00e3o crescesse, fazendo com que o pa\u00eds alternasse entre governos de esquerda e direita \u2013 Michelle Bachelet e Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era \u2013 que culminou com as grandes manifesta\u00e7\u00f5es de rua de 2019, a convoca\u00e7\u00e3o de uma assembleia constituinte e a \u00faltima elei\u00e7\u00e3o presidencial, em que candidatos independentes tomaram o lugar dos antigos partidos pol\u00edticos. Borac promete canalizar de forma produtiva a insatisfa\u00e7\u00e3o popular, em um governo de alian\u00e7as que permita a retomada da trajet\u00f3ria de desenvolvimento, corrigindo distor\u00e7\u00f5es e reconhecendo as limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e financeiras das quais n\u00e3o se pode escapar. Tomara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dist\u00e2ncia entre o que \u00e9 poss\u00edvel e o que \u00e9 desej\u00e1vel explica as explos\u00f5es de insatisfa\u00e7\u00e3o que alimentam os populismos de esquerda e direita que tornam as crises sociais e econ\u00f4micas cada vez mais profundas, como estamos vendo tamb\u00e9m no Brasil. Podemos ver esta dist\u00e2ncia com toda clareza em dois livros recentes sobre fam\u00edlias de imigrantes que vieram para a Am\u00e9rica Latina buscando o renascer de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o, tendo depois que reconhecer as limita\u00e7\u00f5es de suas utopias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Nuestra America,\u00a0<\/em>de Claudio Lomnitz, conta a hist\u00f3ria da fam\u00edlia a partir do av\u00f4, Misha Adler, judeu que partiu da antiga Bessar\u00e1bia para o Peru h\u00e1 um s\u00e9culo, da mesma regi\u00e3o e na mesma \u00e9poca em que meu av\u00f4 veio para o Brasil. \u00c9 uma hist\u00f3ria an\u00e1loga \u00e0 da fam\u00edlia de Fausto Cabrera, espanhol que veio para Santo Domingo e depois Col\u00f4mbia, escapando da guerra civil e do franquismo, tal como narrada por Juan Gabriel V\u00e1squez [C.\u00a0Lomnitz,\u00a0<em>Nuestra Am\u00e9rica: Utop\u00eda y persistencia de una familia jud\u00eda<\/em>: Fondo de Cultura Economica, 2019; J. G. V\u00e1squez,\u00a0<em>Volver la vista atr\u00e1s<\/em>. Madrid: Penguin Random House Grupo Editorial, 2021].\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Adler colaborou com o peruano Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui na tentativa de desenvolver na Am\u00e9rica Latina um socialismo de ra\u00edzes ind\u00edgenas e valor universal, foi expulso do Peru, se refugiou na Col\u00f4mbia, e terminou indo para um kibutz em Israel depois da guerra na esperan\u00e7a de, finalmente, viver a pureza da vida simples e comunit\u00e1ria. Cabrera depositou suas esperan\u00e7as no poder purificador que a revolu\u00e7\u00e3o armada poderia trazer para o novo mundo, colocando seus filhos para se preparar, na China de Mao, para ingressar nas For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esgotada a experi\u00eancia do kibutz, os Adler foram para o Chile, e, depois de abandonar a guerrilha, o filho de Fausto Cabrera, S\u00e9rgio, se transformou em um importante cineasta colombiano. Ainda que de forma muito diferente, e mais tr\u00e1gica, o escritor judeu austr\u00edaco Stefan Zweig, que veio para o Brasil fugindo da guerra em 1940. escreveu\u00a0<em>Brasil, Pa\u00eds do Futuro<\/em>, uma terra paradis\u00edaca em que uma nova civiliza\u00e7\u00e3o estava surgindo, mais simples do que a europeia, mas livre do trauma macabro do racismo e das guerras S. Zweig,\u00a0<em>Brasil, um pa\u00eds do futuro:<\/em>\u00a0L&amp;PM, 2006 (1941)].\u00a0N\u00e3o para ele, que se suicidou logo depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o hist\u00f3rias extraordin\u00e1rias, escritas por autores de talento que tiveram acesso \u00e0s fotografias, cartas, di\u00e1rios e testemunhos recolhidos por seus antepassados. Mas representativas dos milh\u00f5es de an\u00f4nimos que fizeram o mesmo percurso, da Europa para a Am\u00e9rica, e do interior para as cidades, em busca das promessas de uma nova vida livre da mis\u00e9ria, dos conflitos e da falta de perspectiva das terras onde nasceram. A grande maioria permaneceu an\u00f4nima, trabalhando, organizando suas vidas e, sobretudo, investindo e acreditando no futuro de seus filhos. A vida era dura, e, mesmo para os que conseguiam se educar e conseguir um trabalho razo\u00e1vel, a dist\u00e2ncia entre o que obtinham e o que haviam sonhado era crescente. Outros se envolveram ou buscaram apoio em movimentos sociais, organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, partidos pol\u00edticos, igrejas, e, quando havia elei\u00e7\u00f5es, davam seus votos aos pol\u00edticos que apareciam e melhor expressavam suas esperan\u00e7as ou ressentimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cem anos depois, o Brasil e nossa Am\u00e9rica Latina n\u00e3o s\u00e3o mais o pa\u00eds ou a regi\u00e3o do futuro, mas de uma promessa que n\u00e3o se cumpriu. A cren\u00e7a, no passado, era que Deus estava de nosso lado, e o clima, a \u00edndole do povo e as promessas das grandes utopias garantiriam um futuro risonho. Hoje sabemos que, se houver um caminho, temos que constru\u00ed-lo n\u00f3s mesmos, superando as confronta\u00e7\u00f5es fraticidas, com governos realistas que trabalhem para o bem comum, e n\u00e3o vendam ilus\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas n\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia que d\u00ea certo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 14 de janeiro de 2022) A elei\u00e7\u00e3o do jovem Gabriel Boric para a presid\u00eancia traz a esperan\u00e7a de que o Chile talvez consiga escapar dos ciclos de populismo, autoritarismo, estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e decad\u00eancia institucional que est\u00e1 assolando a maioria dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.\u00a0\u00a0 Desde o fim da &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/nuestra-america\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Nuestra America&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-6920","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6920","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6920"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6920\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6921,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6920\/revisions\/6921"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6920"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6920"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6920"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}