{"id":7055,"date":"2022-09-09T05:42:21","date_gmt":"2022-09-09T08:42:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7055"},"modified":"2022-09-09T05:42:29","modified_gmt":"2022-09-09T08:42:29","slug":"o-golpe-da-independencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-golpe-da-independencia\/","title":{"rendered":"O Golpe da Independ\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 9 de setembro de 2022)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cem anos atr\u00e1s, o Brasil comemorava um s\u00e9culo da independ\u00eancia com uma grande exposi\u00e7\u00e3o internacional no Rio de Janeiro, em que se celebrava a entrada do pa\u00eds na modernidade do r\u00e1dio e da eletricidade.&nbsp;&nbsp;Havia nela o Pavilh\u00e3o da Estat\u00edstica dedicado \u00e0 \u201cci\u00eancia da certeza\u201d, que apresentava os resultados do censo brasileiro de 1920, o primeiro em quase cinquenta anos<a href=\"applewebdata:\/\/EFEB7E65-1A5A-4DA4-86AF-FF11B51A9BC3#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Fake news, nunca mais! 1922 foi tamb\u00e9m o ano da Semana de Arte Moderna, em que pintores e escritores se propunham a mostrar o Brasil como ele era e falava de verdade, do Macuna\u00edma de M\u00e1rio de Andrade aos oper\u00e1rios de Tarsila do Amaral, livres das amarras da pintura cl\u00e1ssica e do portugu\u00eas casti\u00e7o das velhas elites, educadas em Coimbra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tema era o Brasil do futuro, e ningu\u00e9m olhava muito para o dia em que, cem anos antes, a Fam\u00edlia Real dera um golpe de estado contra a revolu\u00e7\u00e3o liberal portuguesa, que limitava seus poderes, e colocara a coroa brasileira na cabe\u00e7a do herdeiro, Pedro I, \u201cantes que um outro aventureiro o fa\u00e7a\u201d, como diz a lenda. Mas a Rep\u00fablica Velha n\u00e3o se movia, e o povo, que havia assistido bestializado ao fim do Imp\u00e9rio, continuava sem entender o que Rep\u00fablica e mundo moderno lhes traziam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cinquenta anos depois, o Sete de Setembro foi comemorado olhando para tr\u00e1s, com o traslado do corpo de D. Pedro para o Brasil. Eram os anos de chumbo, a repress\u00e3o do governo militar brasileiro chegava a seu auge e Portugal vivia sob a ditadura do Estado Novo salazarista. Nada melhor do que o cad\u00e1ver do jovem e impetuoso imperador para celebrar esta comunh\u00e3o, trazido com todas as honras para repousar no Museu do Ipiranga. Faltava, no entanto, o cora\u00e7\u00e3o, guardado no formol, que volta agora finalmente para o Brasil, neste bicenten\u00e1rio que quase ningu\u00e9m comemora e em que os fantasmas do autoritarismo e da viol\u00eancia pol\u00edtica voltam a assombrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se comemora as  festas nacionais dos diversos pa\u00edses? Nos Estados Unidos, o 4 de julho marca o dia, em 1776, em que representantes das 13 col\u00f4nias, reunidos em um congresso, declararam sua separa\u00e7\u00e3o da Gr\u00e3-Bretanha; na Fran\u00e7a, o 14 de julho celebra a queda da Bastilha, em 1787, que marca o fim do absolutismo mon\u00e1rquico; no Chile, o 18 de setembro comemora a organiza\u00e7\u00e3o do primeiro governo aut\u00f4nomo do pa\u00eds; na Noruega, o 17 de maio celebra a primeira constitui\u00e7\u00e3o, de 1814. S\u00e3o todas de uma mesma \u00e9poca, de surgimento dos estados nacionais, com seus tr\u00eas componentes centrais: um Estado moderno, ou seja, um governo organizado, com capacidade de angariar e utilizar bem recursos t\u00e9cnicos, financeiros e militares; cidad\u00e3os compartilhando a mesma hist\u00f3ria, e dotados de direitos civis, pol\u00edticos e sociais; e um territ\u00f3rio definido em que esta popula\u00e7\u00e3o vive, com fronteiras mantidas e defendidas pelo Estado e seus cidad\u00e3os, de forma soberana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dos tr\u00eas, o Brasil independente herdou um imenso e quase desconhecido territ\u00f3rio; um estado patrimonial organizado para cobrar impostos e explorar as riquezas dos territ\u00f3rios que dominava; e uma popula\u00e7\u00e3o formada sobretudo por negros escravizados, ind\u00edgenas, brancos e mesti\u00e7os empobrecidos e analfabetos, vivendo no campo e na periferia das cidades. Desde a Col\u00f4nia que setores da popula\u00e7\u00e3o se revoltavam contra os governantes, reivindicando autonomia, mas foram sufocados um a um. No Segundo Reinado, estavam todos dominados, com o Imperador e uma pequena elite brincando de democracia constitucional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia pessoas, mas n\u00e3o cidad\u00e3os, por muito mais tempo do que deveria e poderia. Se estima que, quando os portugueses chegaram, cerca de 5 milh\u00f5es de nativos viviam no territ\u00f3rio brasileiro. Trezentos anos depois, estes povos haviam sido exterminados ou se refugiado no interior desconhecido. No primeiro censo brasileiro, de 1872, dos dez milh\u00f5es de recenseados, menos de 5% foram classificados como ind\u00edgenas, e desapareceram dos censos seguintes, at\u00e9 serem relembrados recentemente. Nos pa\u00edses em que os habitantes se tornaram cidad\u00e3os, a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica deve um papel central. Nos Estados Unidos, na \u00e9poca da independ\u00eancia, 60% da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 sabia ler; em meados do s\u00e9culo 19, eram quase 100%. Na Noruega, a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica j\u00e1 era obrigat\u00f3ria desde meados do s\u00e9culo 18. No Chile e Argentina, pol\u00edticos intelectuais como Domingo Faustino Sarmiento e Andr\u00e9s Bello estimularam a cria\u00e7\u00e3o das primeiras redes de escolas p\u00fablicas e de universidades modernas em meados do s\u00e9culo 19. No Brasil, o tema da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica s\u00f3 come\u00e7a a ser discutido na d\u00e9cada de 1920, a primeira universidade \u00e9 de 1934, e em 1960 metade da popula\u00e7\u00e3o era ainda analfabeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o lado positivo dos novos estados nacionais foi a forma\u00e7\u00e3o da cidadania e o desenvolvimento de um setor p\u00fablico representativo e capaz de apoiar e proteger seus cidad\u00e3os, o lado negativo foi o nacionalismo e o militarismo, jogando uns povos contra outros e enaltecendo o culto das armas e da viol\u00eancia. \u00c9 bonito quando um povo celebra sua identidade e sua hist\u00f3ria dan\u00e7ando nas ruas e se confraternizando, como no Chile e na Noruega; mas triste quando o faz desfilando tanques e cultivando cad\u00e1veres.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"applewebdata:\/\/EFEB7E65-1A5A-4DA4-86AF-FF11B51A9BC3#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;Sobre as comemora\u00e7\u00f5es da independ\u00eancia e a hist\u00f3ria das estat\u00edsticas p\u00fablicas no Brasil, veja a publica\u00e7\u00e3o recente do IBGE,&nbsp;<em>As estat\u00edsticas nas comemora\u00e7\u00f5es da independ\u00eancia do Brasil (2022),&nbsp;<\/em>editado por Nelson de Castro Senra.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 9 de setembro de 2022) Cem anos atr\u00e1s, o Brasil comemorava um s\u00e9culo da independ\u00eancia com uma grande exposi\u00e7\u00e3o internacional no Rio de Janeiro, em que se celebrava a entrada do pa\u00eds na modernidade do r\u00e1dio e da eletricidade.&nbsp;&nbsp;Havia nela o Pavilh\u00e3o da Estat\u00edstica dedicado \u00e0 \u201cci\u00eancia da &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-golpe-da-independencia\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O Golpe da Independ\u00eancia&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[37,56],"tags":[],"class_list":["post-7055","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-democraciademocracy","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7055","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7055"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7055\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7056,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7055\/revisions\/7056"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7055"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7055"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7055"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}