{"id":7089,"date":"2022-10-14T06:55:53","date_gmt":"2022-10-14T09:55:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7089"},"modified":"2022-10-17T20:43:25","modified_gmt":"2022-10-17T23:43:25","slug":"os-trens-de-mussolini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/os-trens-de-mussolini\/","title":{"rendered":"Os trens de Mussolini"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em<a href=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,os-trens-de-mussolini,70004153269\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/espaco-aberto,os-trens-de-mussolini,70004153269\"> O Estado de S\u00e3o Paulo<\/a>, 14 de outubro de 2022)<\/p>\n<span hidden class=\"__iawmlf-post-loop-links\" data-iawmlf-links=\"[{&quot;id&quot;:106,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,os-trens-de-mussolini,70004153269&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20221104034056\\\/https:\\\/\\\/opiniao.estadao.com.br\\\/noticias\\\/espaco-aberto,os-trens-de-mussolini,70004153269&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.estadao.com.br\\\/opiniao\\\/espaco-aberto\\\/os-trens-de-mussolini\\\/&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-15 22:04:28&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-19 22:15:09&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-24 10:34:53&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-28 15:13:15&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-02 02:47:53&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-06 07:13:21&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-10 08:43:23&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-13 16:48:33&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-16 17:33:52&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-20 01:48:48&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-23 07:03:05&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-27 11:30:50&quot;,&quot;http_code&quot;:200}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-27 11:30:50&quot;,&quot;http_code&quot;:200},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;},{&quot;id&quot;:107,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.unicef.org\\\/brazil\\\/declaracao-universal-dos-direitos-humanos&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20260415150508\\\/https:\\\/\\\/www.unicef.org\\\/brazil\\\/declaracao-universal-dos-direitos-humanos&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-15 22:04:30&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-21 15:24:30&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-25 18:57:39&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-29 02:38:27&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-03 13:52:25&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-06 22:15:22&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-10 13:34:39&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-13 16:48:32&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-16 17:33:48&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-20 01:48:44&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-23 07:03:04&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-27 11:30:53&quot;,&quot;http_code&quot;:206}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-27 11:30:53&quot;,&quot;http_code&quot;:206},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]\"><\/span>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/1x-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/1x-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7090\" width=\"373\" height=\"274\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/1x-1.jpg 940w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/1x-1-744x548.jpg 744w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/1x-1-420x309.jpg 420w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/1x-1-768x565.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 373px) 85vw, 373px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Me lembro como se fosse hoje. Eu era aluno em um conhecido col\u00e9gio em Belo Horizonte, e entre uma aula e outra, em uma roda de conversa, o professor de filosofia, ex-integralista e tomista, falava entusiasmado sobre as vantagens do fascismo. Eu ouvia espantado, e disse que n\u00e3o poderia concordar com aquilo, que eu vinha de uma fam\u00edlia judia, muitos meus familiares haviam sido assassinados nos campos de concentra\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0\u201cAh, entendo\u201d, disse o professor, \u201cent\u00e3o voc\u00ea tem um problema pessoal com isso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eram os anos da guerra fria, em que os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e seus seguidores disputavam n\u00e3o somente a hegemonia internacional, mas tamb\u00e9m o lugar de quem melhor encarnava os valores dos que haviam se unido para conter o monstro do nazifascismo, valores estes proclamados na<a href=\"https:\/\/www.unicef.org\/brazil\/declaracao-universal-dos-direitos-humanos\"> Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos <\/a>de 1948. Os Estados Unidos e a Europa Ocidental empunhavam as bandeiras da democracia, liberdades individuais e direito \u00e0 propriedade, e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, as bandeiras do fim da pobreza, desigualdade e explora\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dos dois lados, havia os que acreditavam firmemente em suas bandeiras, e apontavam o dedo para as viola\u00e7\u00f5es cotidianas destes direitos pelo outro. Mas havia tamb\u00e9m os que viam como, em ambos, a l\u00f3gica do poder e de defesa dos interesses estabelecidos muitas vezes se sobrepunha ao discurso humanit\u00e1rio. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os \u00faltimos vest\u00edgios da democracia participativa haviam sido enterrados pelos expurgos de Stalin, e nos Estados Unidos os princ\u00edpios da liberdade e igualdade eram violados diariamente pela persist\u00eancia da desigualdade social e do racismo. Internacionalmente, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica impunha com m\u00e3o de ferro seu poder sobre a Europa Oriental, e os Estados Unidos, em nome da luta contra o comunismo e para defender os interesses de suas companhias, apoiavam as ditaduras latino-americanas e os remanescentes do colonialismo na \u00c1frica e \u00c1sia, muitas vezes de forma sangrenta, como no Vietnam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para quem pensava que o mais importante era a promessa dos direitos sociais, as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 democracia e aos direitos humanos nos regimes socialistas eram vistas como \u201cerros\u201d, pequenos pecados que poderiam ser eventualmente corrigidos, ou inevit\u00e1veis na luta contra os inimigos e por um mundo melhor. Do outro lado, para quem valorizava sobretudo a liberdade econ\u00f4mica e os direitos civis, a pobreza e o apoio a ditaduras totalit\u00e1rias eram tamb\u00e9m descontados como problemas circunstanciais, que eventualmente seriam resolvidos em um regime de liberdade pol\u00edtica e econ\u00f4mica.&nbsp;&nbsp;E havia os que conclu\u00edam que, no fundo, todos eram c\u00ednicos, o \u00fanico que realmente importava era a disputa pelo poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico, e que os discursos dos direitos humanos n\u00e3o passavam de um amontoado vazio de palavras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta disputa entre valores, e de regimes pol\u00edticos que d\u00e3o mais \u00eanfase a umas partes do que outras dos direitos humanos, marcou o mundo ao longo do s\u00e9culo 20, e s\u00f3 foi interrompida pela novidade do nazifascismo, que foi al\u00e9m do cinismo, e passou a incorporar como valores a guerra, a xenofobia, a viol\u00eancia, o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;Era uma doutrina que se dizia se inspirar em supostas tradi\u00e7\u00f5es, identidades e sentimentos mais profundos dos povos, muitas vezes de cunho religioso, diante dos quais os discursos sobre valores e direitos, e a pr\u00f3pria racionalidade abstrata das ci\u00eancias sociais e naturais, cultivadas, segundo eles, por elites cosmopolitas, perdiam sentido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria mostrou o horror e o desastre criados por esta doutrina, e os importantes resultados trazidos pela liberdade pol\u00edtica e econ\u00f4mica e pelos movimentos em prol dos direitos sociais. \u00c9 ineg\u00e1vel que hoje, em todo o mundo e no agregado, existe menos pobreza, mis\u00e9ria e opress\u00e3o do que cem anos atr\u00e1s, e que estamos muito mais pr\u00f3ximos dos ideais dos direitos humanos do que jamais tivemos.&nbsp;&nbsp;Mas a dist\u00e2ncia ainda \u00e9 grande, mais para determinados grupos e povos do que para outros, e o pr\u00f3prio progresso gera expectativas que acabam se transformando em frustra\u00e7\u00e3o e ressentimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 esse o caldo de cultura para o ressurgimento das doutrinas fascistas e autorit\u00e1rias, de valoriza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, xenofobia e ataque \u00e0s institui\u00e7\u00f5es da democracia liberal. Mussolini, afinal, fez os trens italianos andarem no hor\u00e1rio, e o nazismo tirou a Alemanha da depress\u00e3o dos tempos da Rep\u00fablica de Weimar. Ser\u00e1 que isto n\u00e3o \u00e9 mais importante, como pensava meu professor de filosofia, do que a ret\u00f3rica da \u00e9tica e dos direitos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 assim tamb\u00e9m que raciocinam muitos dos que hoje, no Brasil, n\u00e3o d\u00e3o maior import\u00e2ncia ao crescimento da extrema direita, e a alimentam como a maneira mais pr\u00e1tica de conseguir determinados resultados. Mas o que est\u00e1 principalmente em disputa n\u00e3o \u00e9 saber quem \u00e9 mais ou menos corrupto, ou quem d\u00e1 mais prioridade \u00e0 liberdade econ\u00f4mica ou aos direitos sociais, e sim quem defende ou quem trabalha para romper o consenso sobre os direitos humanos e o regime democr\u00e1tico que, bem ou mal, nos trouxeram at\u00e9 aqui. Eu tenho, sim, um problema pessoal com isto, e espero que n\u00e3o seja s\u00f3 meu.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 14 de outubro de 2022) Me lembro como se fosse hoje. Eu era aluno em um conhecido col\u00e9gio em Belo Horizonte, e entre uma aula e outra, em uma roda de conversa, o professor de filosofia, ex-integralista e tomista, falava entusiasmado sobre as vantagens do fascismo. 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