{"id":7105,"date":"2022-10-21T09:20:04","date_gmt":"2022-10-21T12:20:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7105"},"modified":"2022-10-21T10:03:15","modified_gmt":"2022-10-21T13:03:15","slug":"a-educacao-superior-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-educacao-superior-brasileira\/","title":{"rendered":"A educa\u00e7\u00e3o superior brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Entrevista a Jorge Priori, publicada em <a href=\"https:\/\/monitormercantil.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/MM-21_10_2022.pdf\">Monitor Mercantil.<\/a> 21 de outubro de 2022, p. 7 (revisada)<\/p>\n<span hidden class=\"__iawmlf-post-loop-links\" data-iawmlf-links=\"[{&quot;id&quot;:105,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/monitormercantil.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2022\\\/10\\\/MM-21_10_2022.pdf&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20250519013730\\\/https:\\\/\\\/monitormercantil.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2022\\\/10\\\/MM-21_10_2022.pdf&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-15 14:43:37&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-19 20:43:25&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-23 02:08:19&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-26 15:32:22&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-02 03:27:42&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-07 00:59:59&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-16 22:04:08&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-20 13:37:53&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-28 05:21:36&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-02 12:36:28&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-06 16:10:37&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-10 06:11:03&quot;,&quot;http_code&quot;:403},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-13 18:49:54&quot;,&quot;http_code&quot;:403},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-18 08:55:34&quot;,&quot;http_code&quot;:403},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-22 04:05:45&quot;,&quot;http_code&quot;:403},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-26 06:51:27&quot;,&quot;http_code&quot;:403},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-29 07:16:04&quot;,&quot;http_code&quot;:403},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-05 15:19:36&quot;,&quot;http_code&quot;:403},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-08 16:19:16&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-14 07:39:17&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-18 06:04:08&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-21 13:01:05&quot;,&quot;http_code&quot;:206},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-29 03:49:00&quot;,&quot;http_code&quot;:206}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-29 03:49:00&quot;,&quot;http_code&quot;:206},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]\"><\/span>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Conversamos sobre a educa\u00e7\u00e3o superior brasileira com Simon Schwartzman, soci\u00f3logo e membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como o senhor avalia a educa\u00e7\u00e3o superior brasileira?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A educa\u00e7\u00e3o superior brasileira expandiu muito rapidamente nos \u00faltimos 20 anos, mas essa expans\u00e3o trouxe muitos problemas. Eu costumo dizer que essa expans\u00e3o foi feita em cima de um modelo das profiss\u00f5es liberais. Todos querem um diploma prestigioso e que d\u00ea rendimentos t\u00e3o bons quanto os recebidos pelos m\u00e9dicos e advogados. Essa \u00e9 uma esp\u00e9cie de aspira\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o brasileira. O sistema p\u00fablico oferece isso em certa medida, e o sistema privado promete oferecer. O sistema expandiu, mas, proporcionalmente, poucas pessoas conseguem esse objetivo. E os que conseguem  geralmente v\u00eam de fam\u00edlias mais ricas e mais educadas, que conseguem dar aos filhos uma educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica em escolas privadas de melhor qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Criou-se um sistema que \u00e9 extremamente custoso para o setor p\u00fablico, que financia a parte p\u00fablica, e para a popula\u00e7\u00e3o, que, al\u00e9m dos impostos, paga as anuidades do setor privado quando n\u00e3o tem acesso ao sistema gratuito, mas que em grande parte n\u00e3o consegue resultados e fica pelo caminho. O Brasil n\u00e3o soube como lidar com as quest\u00f5es da diversifica\u00e7\u00e3o e da amplia\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior, que \u00e9 um processo que ocorreu no mundo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o Brasil reorganizou o seu sistema de educa\u00e7\u00e3o superior com a reforma universit\u00e1ria de 1968, inspirada no sistema norteamericano, a propor\u00e7\u00e3o de brasileiros que chegavam ao n\u00edvel superior era de at\u00e9 3%. Mas Brasil n\u00e3o copiou o sistema americano como um todo, com sua ampla base de<em> colleges <\/em>municipais, estaduais e privados,  mas s\u00f3 o das universidades de elite de pesquisa e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Quando veio a demanda por mais educa\u00e7\u00e3o, o setor p\u00fablico n\u00e3o conseguiu responder, e o setor privado abriu e respondeu de maneira bastante ca\u00f3tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, n\u00f3s temos uma situa\u00e7\u00e3o de uma grande expans\u00e3o que acabou criando um grande um custo e uma grande frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Na sua opini\u00e3o, quais s\u00e3o os principais problemas que afligem a educa\u00e7\u00e3o superior brasileira?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grande problema \u00e9 o fato de que, apesar de ter crescido muito, ela n\u00e3o d\u00e1 a qualifica\u00e7\u00e3o que se espera para muitas pessoas. Do ponto de vista do setor p\u00fablico, n\u00f3s temos uma quest\u00e3o complicada j\u00e1 que ele ficou limitado no seu crescimento por causa do modelo que foi adotado na d\u00e9cada de 1960, com professores em tempo integral, fazendo pesquisa, cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, e alunos passando o dia todo na faculdade. Esse modelo n\u00e3o conseguiu se expandir. Algumas universidades se aproximam mais disso, mas a maioria das outras t\u00eam os mesmos custos, como se fossem de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pesquisa, mas n\u00e3o funcionam dessa maneira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea olhar a pesquisa e a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o brasileira, ela est\u00e1, relativamente, concentrada em poucas institui\u00e7\u00f5es. O custo das universidades p\u00fablicas \u00e9 muito alto, basicamente, por causa do regime de tempo integral da quase totalidade dos professores e do regime de servi\u00e7o p\u00fablico. O resultado disso \u00e9 que hoje em dia cerca de 25% dos alunos est\u00e3o no setor p\u00fablico e 75% no sistema privado, que \u00e9 um sistema desigual que em grande parte d\u00e1 uma forma\u00e7\u00e3o muito b\u00e1sica e muito simples.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sistema privado cresceu em grande parte com subs\u00eddios p\u00fablicos pesados atrav\u00e9s do sistema de cr\u00e9dito educativo, que foi \u00e0 fal\u00eancia por causa do aumento descontrolado dos custos e inadimpl\u00eancia. Isso levou a uma situa\u00e7\u00e3o de crise em que praticamente todo o sistema privado foi para o ensino a dist\u00e2ncia, que em princ\u00edpio pode ser uma boa modalidade em alguns casos, mas que na maior parte \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o muito prec\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s temos um grande funil. Em 2021, 4 milh\u00f5es de pessoas se candidataram ao Enem (Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio; em 2014, esse n\u00famero havia sido de 8,7 milh\u00f5es). Para que tenhamos uma ideia, o n\u00famero de vagas oferecidas pelo setor p\u00fablico no ano passado foi de 262 mil (SiSU, Sistema de Sele\u00e7\u00e3o Unificada).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grande parte dos que entram no Enem n\u00e3o consegue chegar \u00e0s universidades p\u00fablicas. Quando conseguem, uma pequena porcentagem entra nos cursos que gostaria, das universidades mais prestigiadas e  carreiras que d\u00e3o melhor resultado, mas a maior parte fica em cursos de menor qualifica\u00e7\u00e3o e de menor qualidade. Ou ent\u00e3o optam pelo setor privado, que aceita todos que conseguem pagar ou obter uma bolsa ou cr\u00e9dito educativo. Dos que que se matriculam em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, metade abandona antes de terminar; no setor privado, o abandono chega a 60% ou mais. E, dos que terminam, metade n\u00e3o consegue uma profiss\u00e3o equivalente ao que se espera do n\u00edvel superior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sistema inchou, cresceu muito rapidamente e criou custos de diferentes lados, gerando oportunidades, mas tamb\u00e9m muita frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Da mesma forma que existem as solu\u00e7\u00f5es mais complexas, existem as solu\u00e7\u00f5es mais simples, de f\u00e1cil implementa\u00e7\u00e3o e que geram efeitos positivos. Na sua vis\u00e3o, existem solu\u00e7\u00f5es mais simples que poderiam ser implementadas para resolver parte dos problemas da educa\u00e7\u00e3o superior brasileira?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considerando o setor p\u00fablico, um ponto muito importante \u00e9 o tema da diferencia\u00e7\u00e3o. Em todo o mundo, quando o sistema de ensino superior se expande, ele cria diferentes modalidades de forma\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m dos cursos tradicionais como Medicina e Direito, voc\u00ea tem cursos vocacionais curtos, com dura\u00e7\u00e3o de 3 anos, mais diretamente direcionados ao mercado de trabalho. O Brasil quase n\u00e3o criou essa modalidade, e, praticamente s\u00f3 no setor privado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando todas as pessoas buscam o mesmo tipo de qualifica\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o os bacharelados tradicionais, muitas delas acabam ficando pelo caminho. \u00c9 necess\u00e1rio oferecer uma variedade diferente de cursos para as pessoas que chegam ao n\u00edvel superior com diferentes n\u00edveis de qualifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1 sentido em voc\u00ea tratar todas as universidades federais como se elas fossem id\u00eanticas, com as mesmas carreiras de professores, quando algumas delas t\u00eam uma orienta\u00e7\u00e3o de pesquisa, p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e de ensino de alto n\u00edvel, enquanto outras est\u00e3o dando uma qualifica\u00e7\u00e3o mais geral e mais b\u00e1sica, que tamb\u00e9m pode ser importante, mas que \u00e9 muito diferente. Hoje em dia, mais de 90% dos or\u00e7amentos das universidades federais s\u00e3o gastos com pessoal. Isso n\u00e3o precisaria ser assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra quest\u00e3o, e que tamb\u00e9m tem a ver com o sistema privado, \u00e9 o sistema de avalia\u00e7\u00e3o. O Brasil criou um sistema de avalia\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou com o Prov\u00e3o nos anos 90 e depois passou para o Sinaes (Sistema Nacional de Avalia\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Superior), j\u00e1 no Governo Lula, em 2004. Trata-se de um sistema obsoleto que avalia as institui\u00e7\u00f5es como se elas fossem destinadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel de pesquisa, quando elas n\u00e3o s\u00e3o assim. \u00c9 muito claro que esse sistema n\u00e3o funciona e n\u00e3o toma em considera\u00e7\u00e3o a diversifica\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu participei da Comiss\u00e3o Nacional de Avalia\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Superior, que no papel deveria ter sido respons\u00e1vel por rever esse sistema. O governo brasileiro, j\u00e1 no final da presid\u00eancia de Michel Temer, contratou uma miss\u00e3o da OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico) para trazer pontos de vista internacionais, comparar o Sinaes com outros pa\u00edses e propor a sua revis\u00e3o. O trabalho ficou pronto no final do governo Temer, mas o governo Bolsonaro n\u00e3o teve o menor interesse pelo assunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, existe a quest\u00e3o do financiamento do ensino superior privado e p\u00fablico. Nos dois lados, o estudante que precisa estudar, mas que n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, precisa ser assistido, se poss\u00edvel com bolsa ou com algum tipo de isen\u00e7\u00e3o ou cr\u00e9dito educativo. Al\u00e9m disso, n\u00e3o faz sentido n\u00f3s termos 25% dos estudantes no sistema p\u00fablico, que \u00e9 totalmente gratuito, e 75% no sistema privado, onde ele tem que pagar. A quest\u00e3o da gratuidade total no sistema p\u00fablico tem que ser revista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os problemas da educa\u00e7\u00e3o superior p\u00fablica s\u00e3o os mesmos da educa\u00e7\u00e3o superior privada?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, eles s\u00e3o diferentes. No caso da educa\u00e7\u00e3o superior p\u00fablica, h\u00e1 uma quest\u00e3o de custos. Na minha vis\u00e3o, com o volume de dinheiro destinado ao setor seria poss\u00edvel atender mais gente, de melhor forma e com um p\u00fablico diferenciado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu tamb\u00e9m diria que o sistema p\u00fablico tem problemas em duas pontas. Numa delas, n\u00f3s temos as institui\u00e7\u00f5es de elite, que formam pessoas muito bem qualificadas e que contribuem para colocar o pa\u00eds na sociedade global do conhecimento. A\u00ed o sistema superior brasileiro sofre porque \u00e9 muito amarrado. As melhores universidades p\u00fablicas no Brasil n\u00e3o t\u00eam liberdade para contratar um professor pagando um sal\u00e1rio equivalente ao mercado internacional. Por exemplo, elas n\u00e3o podem trazer um cientista de ponta para coordenar um novo departamento. Os sal\u00e1rios s\u00e3o r\u00edgidos e uniformes, havendo um sistema burocr\u00e1tico de concurso. As universidades de melhor qualidade n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de competir por talento, o que seria o seu principal acervo e recurso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na outra ponta, n\u00f3s temos a educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria de massa, onde voc\u00ea tem que dar uma qualifica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica mas n\u00e3o necessariamente de n\u00edvel mais alto. O setor p\u00fablico n\u00e3o oferece essa modalidade de forma\u00e7\u00e3o, pois continua tentando imitar o modelo da pesquisa, que na verdade n\u00e3o se aplica a 70%, 80% das universidades p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele est\u00e1 amarrado a uma concep\u00e7\u00e3o tradicional da d\u00e9cada de 1960, sem que haja um esfor\u00e7o para repens\u00e1-lo de forma a que tenha muito mais flexibilidade institucional para trabalhar com modalidades diferentes para atender diferentes p\u00fablicos. Toda essa discuss\u00e3o de como voc\u00ea moderniza, atualiza e torna mais eficiente o setor p\u00fablico n\u00e3o foi feita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com rela\u00e7\u00e3o ao setor privado, hoje em dia voc\u00ea j\u00e1 tem algumas institui\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o poucas, que j\u00e1 come\u00e7am a competir com o setor p\u00fablico em termos de qualidade. Por exemplo, se voc\u00ea quiser fazer uma excelente p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Economia, voc\u00ea n\u00e3o vai para uma universidade p\u00fablica, e sim para uma institui\u00e7\u00e3o como a FGV, o Insper em S\u00e3o Paulo ou a PUC no Rio. Est\u00e3o entrando institui\u00e7\u00f5es que est\u00e3o trazendo pessoas de melhor qualidade, pagando sal\u00e1rios para professores de n\u00edvel internacional e recrutando de maneira mais qualificada os estudantes. Essa competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 em \u00e1reas mais pesadas de tecnologia, mas isso est\u00e1 come\u00e7ando a mudar, nas \u00e1reas de sa\u00fade e engenharia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, isso \u00e9 um setor pequeno. Grande parte do setor privado faz uma educa\u00e7\u00e3o de massa para alunos, em geral, mais velhos, na casa dos 30, 40 anos, que n\u00e3o tiveram condi\u00e7\u00f5es de se formar e que ficam buscando um diploma. As institui\u00e7\u00f5es privadas oferecem uma educa\u00e7\u00e3o barata, \u00e0 dist\u00e2ncia, mas com um controle de qualidade muito d\u00e9bil. Ningu\u00e9m sabe exatamente o que os alunos est\u00e3o recebendo. Eles recebem um diploma na esperan\u00e7a de que ele lhes d\u00ea uma excelente posi\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, mas, cada vez mais, isso \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria necess\u00e1rio ter um sistema de avalia\u00e7\u00e3o e de acompanhamento para dar mais informa\u00e7\u00f5es para a sociedade sobre o que est\u00e1 sendo oferecido, de forma a que as pessoas n\u00e3o caiam numa esp\u00e9cie de armadilha: entrar num curso; passar 3, 4 anos; pagar como puder aquilo que \u00e9 cobrado, e no final ficar com um papel que n\u00e3o vale nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do mais, hoje em dia existe uma discuss\u00e3o internacional sobre novos tipos de conhecimentos, demandados pelas novas tecnologias. Fala-se muito das microcredenciais. Em vez de voc\u00ea dar um t\u00edtulo depois de 3 ou 4 anos, voc\u00ea pode dar uma forma\u00e7\u00e3o especializada de 4 meses, por exemplo, numa nova maneira de lidar com o computador, ou seja, um novo tipo de compet\u00eancia que o mercado de trabalho, que est\u00e1 em movimento, solicita. Isso praticamente n\u00e3o avan\u00e7ou no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discuss\u00e3o no Brasil sobre n\u00edvel superior ainda est\u00e1 muita presa numa tem\u00e1tica antiga. S\u00f3 se fala acesso e financiamento, havendo uma esp\u00e9cie de briga entre o setor p\u00fablico e privado, que na verdade n\u00e3o faz muito sentido. Os dois s\u00e3o muito importantes, n\u00e3o sendo poss\u00edvel dispensar um ou outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Entra elei\u00e7\u00e3o e sai elei\u00e7\u00e3o, esse tema \u00e9 tratado com um festival de platitudes e lugares-comuns, sendo a principal delas \u201cmais recursos\u201d. Por que a classe pol\u00edtica n\u00e3o trata esse tema com objetividade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem muitos interesses criados nos dois lados. O setor p\u00fablico fica se sentindo muito amea\u00e7ado, principalmente agora, j\u00e1 que o governo Bolsonaro \u00e9 muito hostil \u00e0 educa\u00e7\u00e3o em geral, e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior em particular. Ele nunca teve uma pol\u00edtica, a n\u00e3o ser uma pol\u00edtica de hostilidade para o setor como um todo. H\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o compreens\u00edvel de se querer defender as institui\u00e7\u00f5es e as pessoas que est\u00e3o l\u00e1, que t\u00eam sal\u00e1rios e que vivem disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, essa postura defensiva dificulta uma discuss\u00e3o mais aprofundada de uma reforma que precisaria ser feita. Seria necess\u00e1rio ter um governo que ao mesmo tempo tivesse consci\u00eancia da import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o superior e dos recursos para viabiliz\u00e1-la, mas que n\u00e3o se fique simplesmente financiando o sistema que est\u00e1 a\u00ed da mesma maneira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso mudar o regime jur\u00eddico para dar mais autonomia e responsabilidade \u00e0s institui\u00e7\u00f5es; diversific\u00e1-las para que elas possam fazer coisas distintas; mudar o processo gerencial para ter um sistema mais adequado de uso de recursos, e mudar o sistema de avalia\u00e7\u00e3o do setor p\u00fablico e privado, j\u00e1 que o Sinaes s\u00f3 se aplica na pr\u00e1tica ao setor privado, com o setor p\u00fablico ficando de fora, pois n\u00e3o h\u00e1 nenhuma consequ\u00eancia ou efeito sobre ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma s\u00e9rie de reformas necess\u00e1rias para trazer o sistema para o n\u00edvel do que acontece nos pa\u00edses desenvolvidos onde o sistema de educa\u00e7\u00e3o superior se massificou, \u00e9 grande, \u00e9 caro e onde existe uma conviv\u00eancia do setor p\u00fablico com o privado.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista a Jorge Priori, publicada em Monitor Mercantil. 21 de outubro de 2022, p. 7 (revisada) Conversamos sobre a educa\u00e7\u00e3o superior brasileira com Simon Schwartzman, soci\u00f3logo e membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias. Como o senhor avalia a educa\u00e7\u00e3o superior brasileira? 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