{"id":7191,"date":"2023-02-10T06:43:52","date_gmt":"2023-02-10T09:43:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7191"},"modified":"2023-02-10T10:03:53","modified_gmt":"2023-02-10T13:03:53","slug":"o-futuro-das-forcas-armadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-futuro-das-forcas-armadas\/","title":{"rendered":"O futuro das for\u00e7as armadas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 10 de fevereiro de 2023)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tentativa frustrada de Jair Bolsonaro de jogar as \u201csuas\u201d for\u00e7as armadas na aventura de um golpe n\u00e3o deu certo, detida que foi pela atua\u00e7\u00e3o firme do judici\u00e1rio e pelo profissionalismo dos principais comandantes, mas serviu para recolocar na agenda a quest\u00e3o do papel dos militares na sociedade brasileira.&nbsp;&nbsp;O governo Lula procurou reagir aplacando os militares, oferecendo apoio a seus projetos de moderniza\u00e7\u00e3o e reunindo os comandantes com empres\u00e1rios, acenando com o ressurgimento da fracassada ind\u00fastria nacional de armamentos, tentada pelo regime militar na d\u00e9cada de 70. Quem sabe que, assim, eles deixariam a pol\u00edtica de lado, e ficariam tranquilos em suas casernas?&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso ir mais a fundo, e nas \u00faltimas semanas muitas ideias e propostas t\u00eam circulado sobre como repensar o papel das for\u00e7as armadas, em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 antiga doutrina de seguran\u00e7a nacional que imperou durante a guerra fria, e que se tornou obsoleta com o fim do regime militar em 1985 e a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta doutrina sempre teve duas caras. Uma, o princ\u00edpio reiterado de que a \u201cfun\u00e7\u00e3o prec\u00edpua\u201d das for\u00e7as armadas seria a defesa do pa\u00eds contra eventuais inimigos externos em uma guerra convencional, que, fora a Guerra do Paraguai e contingente da FEB na Segunda Guerra, nunca se materializou. A outra, a atua\u00e7\u00e3o em quest\u00f5es internas, como a constru\u00e7\u00e3o das redes de tel\u00e9grafos dos tempos de Rondon, a presen\u00e7a na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica e nas \u00e1reas de fronteira e a doutrina de seguran\u00e7a nacional, justificando os governos militares ap\u00f3s 1964. Tamb\u00e9m fez parte desta doutrina v\u00e1rios projetos militares de desenvolvimento tecnol\u00f3gico, incluindo o programa nuclear do Almirante \u00c1lvaro Aberto, nos anos 50, o projeto de submarino nuclear da Marinha, o Centro Tecnol\u00f3gico da Aeron\u00e1utica em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos e as empresas de ind\u00fastria b\u00e9lica &#8211; Engesa, Avibras e Embraer. Destes, o \u00fanico claramente bem-sucedido foi a Embraer, que se transformou em uma multinacional privada de natureza predominantemente civil. As for\u00e7as armadas brasileiras consomem anualmente cerca de 1.6% do PIB, 115 bilh\u00f5es de reais, 80% dos quais para pagamento de pessoal, um contingente de cerca de 350 mil pessoas na ativa, e existem propostas para aumentar estes gastos ainda mais. Quanto desta antiga doutrina ainda \u00e9 v\u00e1lida, e quanto precisaria ser modificada, dado o novo cen\u00e1rio da pol\u00edtica internacional, as revolu\u00e7\u00f5es havidas na tecnologia militar e civil, e a consolida\u00e7\u00e3o da democracia brasileira?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A doutrina oficial est\u00e1 consubstanciada em tr\u00eas documentos encaminhados pelo Minist\u00e9rio da Defesa ao Congresso Nacional em 2020, a&nbsp;<em>Pol\u00edtica Nacional de Defesa<\/em>, a&nbsp;<em>Estrat\u00e9gia Nacional de Defesa<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>o Livro Branco de Defesa Nacional<\/em>. Documentos como estes deveriam ser periodicamente revistos e aprovados pelo Congresso, mas na pr\u00e1tica eles n\u00e3o t\u00eam sido discutidos, e nem chegam \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. Lendo estes documentos, nota-se a \u00eanfase em tr\u00eas prioridades estrat\u00e9gicas de cunho tecnol\u00f3gico, a nuclear, a espacial e a cibern\u00e9tica. Felizmente, o Brasil renunciou h\u00e1 d\u00e9cadas \u00e0 pretens\u00e3o de desenvolver armas nucleares, e o projeto do submarino nuclear, que se arrasta h\u00e1 mais de 30 anos, corre o risco de resultar em equipamentos que j\u00e1 nascem t\u00e3o obsoletos quanto nossos porta-avi\u00f5es.&nbsp;&nbsp;O programa especial sofreu um golpe terr\u00edvel com trag\u00e9dia de Alc\u00e2ntara de 2003, quando 21 especialistas morreram em uma explos\u00e3o do que seria o lan\u00e7amento do primeiro foguete espacial brasileiro,  e desde ent\u00e3o as tecnologias espaciais evolu\u00edram enormemente, ficando cada vez mais longe de nosso alcance. A \u00e1rea de seguran\u00e7a cibern\u00e9tica \u00e9 cada vez mais crucial para garantir o funcionamento da sociedade brasileira em todos os aspectos, e exigiria, para ser bem-sucedida, uma concentra\u00e7\u00e3o de investimentos e recursos humanos que estamos longe de fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece claro, olhando este conjunto, que uma pol\u00edtica atualizada de seguran\u00e7a nacional deveria se concentrar em alguns temas e \u00e1reas cr\u00edticas de natureza local, como a prote\u00e7\u00e3o das fronteiras, da costa e da regi\u00e3o amaz\u00f4nica, do meio ambiente e dos recursos nacionais. \u00c9 preciso evoluir para um contingente muito menor, tecnicamente qualificado e apoiado por equipamento t\u00e1tico, com capacidade de deslocamento e interven\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, e n\u00e3o em equipamentos mais pesados e t\u00edpicos de guerras convencionais passadas. O servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio, que j\u00e1 n\u00e3o funciona, precisa ser substitu\u00eddo por um contingente mais profissional e mais aberto a especialistas de forma\u00e7\u00e3o civil. Para a defesa estrat\u00e9gica contra eventuais inimigos externos, n\u00e3o temos como agir sozinhos, e precisamos participar de alian\u00e7as e institui\u00e7\u00f5es que contribuam para a defesa dos regimes democr\u00e1ticos, da estabilidade pol\u00edtica e da coopera\u00e7\u00e3o internacional, nas esferas econ\u00f4micas, ambientais e de manuten\u00e7\u00e3o da paz. Para o desenvolvimento de nossa tecnologia, precisamos de uma economia aberta e fortes parcerias entre institui\u00e7\u00f5es militares e civis, p\u00fablicas e privadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o dos militares na pol\u00edtica \u00e9 o passado. O futuro \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o que as for\u00e7as armadas, renovadas, podem e precisam dar ao pa\u00eds.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 10 de fevereiro de 2023) A tentativa frustrada de Jair Bolsonaro de jogar as \u201csuas\u201d for\u00e7as armadas na aventura de um golpe n\u00e3o deu certo, detida que foi pela atua\u00e7\u00e3o firme do judici\u00e1rio e pelo profissionalismo dos principais comandantes, mas serviu para recolocar na agenda a quest\u00e3o do &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-futuro-das-forcas-armadas\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O futuro das for\u00e7as armadas&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[37,21],"tags":[],"class_list":["post-7191","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-democraciademocracy","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7191"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7196,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7191\/revisions\/7196"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}