{"id":7272,"date":"2023-08-11T07:05:35","date_gmt":"2023-08-11T10:05:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7272"},"modified":"2023-08-11T07:05:38","modified_gmt":"2023-08-11T10:05:38","slug":"meia-volta-volver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/meia-volta-volver\/","title":{"rendered":"Meia Volta, Volver!"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 11 de agosto de 2023)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o acaba de divulgar os resultados da consulta p\u00fablica sobre a reforma do ensino m\u00e9dio, e a proposta principal \u00e9 voltar \u00e0 d\u00e9cada de 60, em que os poucos que chegavam a este n\u00edvel optavam pelo curso cient\u00edfico, para fazer depois engenharia ou medicina, ou cl\u00e1ssico, para os que queriam fazer direito ou literatura. Agora se fala em percursos de \u201clinguagens, matem\u00e1tica e ci\u00eancias da natureza\u201d e \u201clinguagens, matem\u00e1ticas e ci\u00eancias humanas e sociais\u201d, o que \u00e9 mais um menos a mesma coisa, fora a matem\u00e1tica. Al\u00e9m destes se admite agora um terceiro percurso, \u201cforma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e profissional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia central da reforma era que hoje, com a universaliza\u00e7\u00e3o do acesso, o ensino m\u00e9dio n\u00e3o poderia continuar sendo somente um filtro para os poucos que fossem para as universidades, mas um sistema amplo e diferenciado para jovens que poderiam seguir diferentes trilhas de forma\u00e7\u00e3o. O dilema era entre oferecer quase o mesmo para todos, como no curr\u00edculo tradicional, eliminando os que ficassem para tr\u00e1s, ou oferecer alternativas que que dessem a todos oportunidades de estudar e se desenvolver, ainda que por caminhos distintos. Por tr\u00e1s deste dilema havia, e ainda h\u00e1, a realidade de que a maioria dos estudantes brasileiros chega ao ensino m\u00e9dio com forma\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, mais velhos e precisando trabalhar. Submeter todos ao mesmo regime e a um exame nacional comum, como o ENEM, significa refor\u00e7ar a discrimina\u00e7\u00e3o em nome da igualdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reforma de 2017 procurou avan\u00e7ar, mas com muitos defeitos e resist\u00eancias. Na proposta inicial, em vez de quatro di\u00e1rias horas de aula, haveria pelo menos cinco, perfazendo tr\u00eas mil horas de curso em tr\u00eas anos. No lugar de um curr\u00edculo \u00fanico recheado de mat\u00e9rias fragmentadas, 800 horas seriam dedicas o desenvolvimento de compet\u00eancias gerais, sobretudo de linguagens e matem\u00e1tica, dadas de forma integrada, e as demais ao aprofundamento dos conte\u00fados em diferentes trajet\u00f3rias. Quando a lei foi aprovada, esta parte comum passou a ser de 1800 horas, e agora pretende-se que passe para 2.100 ou 2.400 horas, ficando somente 600 a 900 horas para os percursos diferenciados, invertendo a ideia inicial. Seriam mais horas, naturalmente, nas escolas de tempo integral, em que o tempo se dividiria meio a meio entre a forma\u00e7\u00e3o geral e os percursos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos erros da lei da reforma de 2017 foi que ela destinava recursos para o ensino de tempo integral, mas ignorava totalmente a quest\u00e3o do ensino noturno. Agora, o tempo integral continua sendo apresentado como a grande panaceia para a educa\u00e7\u00e3o brasileira. Os dados do Censo Escolar de 2020 mostram que naquele ano havia 9.5 milh\u00f5es de estudantes no ensino m\u00e9dio, dos quais 2.7 milh\u00f5es em cursos noturnos. Existem duas raz\u00f5es para tantos alunos estudando \u00e0 noite. A primeira \u00e9 que muitas vezes n\u00e3o existem escolas separadas para o ensino m\u00e9dio, os cursos s\u00e3o dados \u00e0 noite nas instala\u00e7\u00f5es do ensino fundamental. A segunda \u00e9 que muitos estudantes s\u00e3o mais velhos, precisam trabalhar, e n\u00e3o podem passar o dia na escola. Quatro horas de aula por dia, em cursos noturnos, \u00e9 insuficiente, mas 8 horas di\u00e1rias, em que o estudante chega cedo e volta para casa no fim do dia de barriga cheia e banho tomado, pode ser o ideal para crian\u00e7as em determinadas \u00e1reas, mas n\u00e3o necessariamente para jovens adultos.&nbsp; Para o ensino m\u00e9dio regular, regimes de 5 ou 6 horas di\u00e1rias, se bem empregadas, s\u00e3o mais do que suficientes. E o ensino t\u00e9cnico deve ser dado, de prefer\u00eancia, no regime de aprendizagem, em que o trabalho, a renda e a qualifica\u00e7\u00e3o profissional andem juntos. O tempo integral n\u00e3o \u00e9 o caminho para o ensino t\u00e9cnico, como se pode ver nos poucos estudantes que conseguem ser admitidos nos Institutos federais e aproveitam para se preparar para tirar boas notas no ENEM.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O outro erro da reforma de 2017 foi a grande confus\u00e3o criada pela ado\u00e7\u00e3o de uma classifica\u00e7\u00e3o esdr\u00faxula das \u00e1reas de conhecimento que ignorava a pr\u00e1tica quase universal de distinguir quatro grandes \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o &#8211; ci\u00eancias f\u00edsicas e engenharia (STEM), ci\u00eancias biol\u00f3gicas e de sa\u00fade, ci\u00eancias e profiss\u00f5es sociais, e letras, artes e humanidades. Uma maneira simples de implementar o novo curr\u00edculo seria oferecer em todas as escolas estas quatro \u00e1reas, permitindo que os alunos escolhessem uma como \u201cmajor\u201d e seguissem as demais de forma complementar. Mas a proposta que vem da consulta, e que o MEC est\u00e1 endossando, \u00e9 ampliar ainda mais a parte de forma\u00e7\u00e3o comum, com um pot-pourri de mat\u00e9rias tradicionais como geografia, qu\u00edmica e filosofia, mas excluindo temas essenciais como estat\u00edstica, economia e direito, e voltar \u00e0 divis\u00e3o arcaica entre \u201cci\u00eancias\u201d e \u201chumanidades\u201d dos anos 60.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, o ENEM. Em \u00faltima an\u00e1lise, o que determina o que as escolas v\u00e3o ensinar e os alunos estudar \u00e9 o que \u00e9 exigido na avalia\u00e7\u00e3o. Sistemas diferenciados requerem m\u00faltiplas provas e certifica\u00e7\u00f5es que os alunos podem escolher. Manter um exame final \u00fanico, como o ENEM, \u00e9 garantir que todos os esfor\u00e7os de oferecer alternativas cair\u00e3o no vazio.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 11 de agosto de 2023) O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o acaba de divulgar os resultados da consulta p\u00fablica sobre a reforma do ensino m\u00e9dio, e a proposta principal \u00e9 voltar \u00e0 d\u00e9cada de 60, em que os poucos que chegavam a este n\u00edvel optavam pelo curso cient\u00edfico, para fazer &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/meia-volta-volver\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Meia Volta, Volver!&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[41,52],"tags":[],"class_list":["post-7272","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-profissionalvocational-education","category-educacao-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7272","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7272"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7272\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7273,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7272\/revisions\/7273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7272"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}