{"id":7330,"date":"2023-11-10T05:36:23","date_gmt":"2023-11-10T08:36:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7330"},"modified":"2023-11-10T05:41:36","modified_gmt":"2023-11-10T08:41:36","slug":"a-guerra-de-cada-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-guerra-de-cada-um\/","title":{"rendered":"As guerras de cada um"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em<em> O Estado de S\u00e3o Paulo,<\/em> 10 de novembro de 2023)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/convite-ucrania.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"418\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/convite-ucrania.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7331\" style=\"width:630px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/convite-ucrania.jpeg 800w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/convite-ucrania-744x389.jpeg 744w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/convite-ucrania-420x219.jpeg 420w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/convite-ucrania-768x401.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existiram um dia a Ucr\u00e2nia, Palestina, Israel, e t\u00eam direito de continuar existindo? Como? \u00a0S\u00e3o perguntas que afloram ao ler \u201cA Ucr\u00e2nia de cada um\u201d, livro organizado por Fl\u00e1vio Limoncic e M\u00f4nica Grin na emo\u00e7\u00e3o da guerra fraticida da Ucr\u00e2nia, publicado agora \u00e0 sombra da tamb\u00e9m fraticida batalha de Gaza. N\u00e3o \u00e9 um livro propriamente sobre a Ucr\u00e2nia, nem sobre as guerras, mas um conjunto de relatos e testemunhos de descendentes de judeus do leste Europeu que sobreviveram ao holocausto e reconstru\u00edram suas vidas no Brasil e outros pa\u00edses das Am\u00e9ricas. S\u00e3o mem\u00f3rias pouco conhecidas, porque a velha gera\u00e7\u00e3o preferia poupar os filhos das hist\u00f3rias de sofrimento e horror por que passaram. E estes, estimulados a construir suas vidas no novo mundo, olhavam para frente, nem sempre com tempo e espa\u00e7o interno para os relatos de seus pais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, as d\u00e9cadas de relativa paz que sucederam \u00e0 guerra parecem estar se esgotando, os fantasmas voltam a assombrar, e \u00e9 preciso lembrar de onde viemos.\u00a0 Os velhos se foram, os filhos e netos amadureceram, e buscam nos fragmentos de mem\u00f3ria, em velhos pap\u00e9is e fotografias, em registros e nas redes de Internet, as hist\u00f3rias de seus pais e o sentido de suas origens. Para alguns, os documentos e as hist\u00f3rias familiares foram mais preservados. Mas para a maioria o que resta s\u00e3o pouco mais que refer\u00eancias desencarnadas de localidades e pessoas que mudaram de nomes ao sabor das migra\u00e7\u00f5es, das diferentes l\u00ednguas e dos poderes que se alternavam no dom\u00ednio de cada uma das antiga cidades e regi\u00f5es \u2013 Vilna, Minsk, Volhynia, Podolia, Lublin, Galicia, Edinet, Kischinev &#8211; quase todas hoje partes da Ucr\u00e2nia, Moldova e Pol\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As hist\u00f3rias familiares fazem parte da identidade de cada um, mas n\u00e3o determinam seu destino. Dado o que passou, \u00e9 inevit\u00e1vel que os relatos de persegui\u00e7\u00f5es, guerras e estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia sejam o que mais aparece. Mas existem outras hist\u00f3rias importantes a ser contadas. A da persist\u00eancia de uma forte cultura local, baseada em uma l\u00edngua comum e institui\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, de cunho religioso ou n\u00e3o, que estruturavam a vida no dia a dia nas pequenas localidades da Europa oriental; uma cultura do cotidiano que encontrou express\u00e3o em uma importante tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que acompanhou as levas de imigrantes que partiram para as Am\u00e9ricas, e que aos poucos vem desaparecendo com a perda de lugar do \u00eddiche como a l\u00edngua franca destes povos. A do juda\u00edsmo renovado, seja pela volta \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do messianismo religioso do \u201chassidismo\u201d, seja no sionismo secular em suas diferentes vertentes. Ou finalmente pela busca de identidades novas: participar da cultura cosmopolita, profissional, universit\u00e1ria, cient\u00edfica e empresarial que se desenvolvia na Europa e nas Am\u00e9ricas, ou se filiar aos movimentos pol\u00edticos e sociais de esquerda que se formavam, pela milit\u00e2ncia nos sindicatos e partidos socialistas e comunistas locais. N\u00e3o fosse o nacionalismo e o nazismo, a integra\u00e7\u00e3o de parte dos judeus na sociedade e cultura de pa\u00edses europeus como a Alemanha, \u00c1ustria e Pol\u00f4nia teria sido t\u00e3o bem-sucedida quanto&nbsp; o foi nos Estados Unidos e Europa Ocidental<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Ucr\u00e2nia foi por muito tempo lugar de coexist\u00eancia de russos, ucranianos e judeus de diferentes identidades, da mesma forma que a antiga Palestina tem sido, por s\u00e9culos, lugar de coexist\u00eancia de \u00e1rabes crist\u00e3os, judeus e mu\u00e7ulmanos. Nem sempre foi uma coexist\u00eancia pac\u00edfica, mas os historiadores falam mais dos momentos dram\u00e1ticos de guerras e conflitos do que dos longos tempos de paz, que tamb\u00e9m existiram e precisam ser reconhecidos e apreciados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu tatarav\u00f4 materno, no s\u00e9culo 19, fazia parte da pr\u00f3spera comunidade judaica de Vars\u00f3via e decidiu, por raz\u00f5es religiosas, terminar sua vida&nbsp; em Sfat, a cidade sagrada da Cabala. Era na antiga Palestina, parte do Imp\u00e9rio Turco, para onde haviam ido muitos dos s\u00e1bios judeus expulsos pela inquisi\u00e7\u00e3o espanhola,&nbsp; onde nasceu minha m\u00e3e.&nbsp; Meu pai se dizia romeno, nascido em uma das pequenas aldeias da Bessar\u00e1bia, hoje parte da Moldova, e recentemente soube que minha av\u00f3 paterna pode ter nascido em Vinnytsia, na Ucr\u00e2nia. Os av\u00f3s de minha mulher eram \u00e1rabes crist\u00e3os, s\u00edrios e libaneses, que mandavam as mo\u00e7as da fam\u00edlia a uma escola cat\u00f3lica em Haifa, hoje parte de Israel, e nossos filhos s\u00e3o cidad\u00e3os do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nada disto nos d\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o simples para as guerras de hoje, mas fica, pelo menos, um princ\u00edpio moral que nos ajuda a pensar. Na apresenta\u00e7\u00e3o do livro, Fl\u00e1vio e M\u00f4nica citam a &nbsp;Bashevis Singer dizendo que, na l\u00edngua \u00eddiche, n\u00e3o havia palavras para designar armas, muni\u00e7\u00f5es, exerc\u00edcios militares ou t\u00e1ticas de guerra. Hoje s\u00e3o estas as palavras que mais se ouvem nos conflitos do Oriente M\u00e9dio. N\u00e3o parece que haja outro caminho para a regi\u00e3o sen\u00e3o a plena implementa\u00e7\u00e3o dos acordos de Oslo, com a constitui\u00e7\u00e3o de um estado palestino aut\u00f4nomo e vi\u00e1vel. Pode ser que nunca se chegue l\u00e1, da mesma forma que o nacionalismo e o racismo destru\u00edram as esperan\u00e7as de paz depois da primeira grande guerra. Mas n\u00e3o podemos perder a lucidez que adquirimos ao reencontrar as origens e possibilidades de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 10 de novembro de 2023) Existiram um dia a Ucr\u00e2nia, Palestina, Israel, e t\u00eam direito de continuar existindo? 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