{"id":7363,"date":"2023-12-08T06:24:28","date_gmt":"2023-12-08T09:24:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7363"},"modified":"2023-12-08T06:24:34","modified_gmt":"2023-12-08T09:24:34","slug":"ascensao-e-queda-dos-chicago-boys","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/ascensao-e-queda-dos-chicago-boys\/","title":{"rendered":"Ascens\u00e3o e queda dos Chicago Boys"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo,<\/em> 8 de dezembro de 2023)<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/cboys.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"295\" height=\"453\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/cboys.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7364\"\/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 1980 e 2019, a economia chilena foi a que mais cresceu na Am\u00e9rica Latina, enquanto a propor\u00e7\u00e3o de pessoas vivendo em situa\u00e7\u00e3o de pobreza baixou de 53 para 6%. Esta hist\u00f3ria de sucesso se explica pelas pol\u00edticas que Sebastian Edwards, em livro recente, chama de \u201cneoliberais\u201d, entendidas n\u00e3o somente como a aposta nos benef\u00edcios da economia de livre mercado, mas tamb\u00e9m pela convic\u00e7\u00e3o de que as regras competitivas devem valer para outras \u00e1reas como as da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o e previd\u00eancia social (<em>The Chile Project: the story of the Chicago Boys and the downfall of neoliberalism<\/em>, Princeton, 2023). Estas pol\u00edticas foram introduzidas nos anos da ditadura militar de Augusto Pinochet,&nbsp; entre 1973 e 1990, e continuadas nos 20 anos seguintes em que o Chile foi governado democraticamente pela \u201cconcertaci\u00f3n\u201d de socialistas e democratas crist\u00e3os.&nbsp; Al\u00e9m de manter a economia de mercado, estes governos passaram tamb\u00e9m a investir nas \u00e1reas de sa\u00fade p\u00fablica e educa\u00e7\u00e3o, e foi a partir da\u00ed que a economia mais cresceu,&nbsp; a pobreza mais se reduziu, e a qualidade da educa\u00e7\u00e3o melhorou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E no entanto, a partir de 2016 a pol\u00edtica chilena se polarizou cada vez mais, com os governos de esquerda e direita de Michelle Bachelet e Sebastian Pi\u00f1era se alternando.&nbsp; Em 2019 o pa\u00eds foi sacudido por violentas manifesta\u00e7\u00f5es populares que resultaram em um novo e jovem presidente,&nbsp; Gabriel Boric, oriundo dos movimentos de protesto.&nbsp; Com ele foi eleita uma assembl\u00e9ia constituinte que elaborou&nbsp; uma nova constitui\u00e7\u00e3o que prometia p\u00f4r fim ao neoliberalismo e implantar uma nova sociedade baseada na garantia dos direitos sociais,&nbsp; economia social de mercado e estado plurinacional, com o reconhecimento da autonomia das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.&nbsp; O texto, no entanto, foi recha\u00e7ado pela maioria da popula\u00e7\u00e3o em um plebiscito, e agora uma outra constitui\u00e7\u00e3o, muito mais conservadora, est\u00e1 sendo preparada,&nbsp; com a chance de ser tamb\u00e9m desaprovada em um plebiscito no pr\u00f3ximo dia 17 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A preocupa\u00e7\u00e3o de Edwards, com este livro, foi entender por que uma hist\u00f3ria inicial de sucesso redundou no aparente consenso de que havia sido um fracasso, e o que se pode esperar para o futuro n\u00e3o somente para o Chile, mas para todos os pa\u00edses da regi\u00e3o que, nos \u00faltimos tempos, t\u00eam alternado entre governos de direita e esquerda, liberais (ou neoliberais) e estatistas, sem que mostrem resultados consistentes. As pol\u00edticas pr\u00f3-mercado dos Chicago Boys tiveram o pecado original de terem sido implantadas \u00e0 sombra de uma ditadura sangrenta, mas a manuten\u00e7\u00e3o de muitas destas pol\u00edticas pelos governos democr\u00e1ticos nos anos posteriores indicava que devia ser poss\u00edvel separar uma coisa da outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte do problema foi que, ao lado dos indicadores de sucesso, estas pol\u00edticas tiveram pelo menos dois resultados negativos: a desigualdade, que continuou alta,&nbsp; e o sistema previdenci\u00e1rio de capitaliza\u00e7\u00e3o, em que as aposentadorias dependem dos rendimentos de investimentos privados de cada um ao longo da vida.&nbsp; Edwards mostra que os que apoiavam estas pol\u00edticas n\u00e3o acreditavam que a desigualdade seria um problema, desde que a pobreza diminu\u00edsse, e n\u00e3o consideravam os profundos efeitos negativos de uma sociedade econ\u00f4mica e socialmente dividida. E o fracasso do sistema previdenci\u00e1rio, em que as pessoas chegavam \u00e0 aposentadoria sem o m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es para se manter, colocou a classe m\u00e9dia, que aparentemente se beneficiava do crescimento da economia,&nbsp; em situa\u00e7\u00e3o de grande inseguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o problemas que poderiam, em princ\u00edpio, ser administrados com pol\u00edticas mais adequadas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o social, que os diversos governos democr\u00e1ticos buscaram implantar.\u00a0 Mas Edwards cr\u00ea que o problema era mais profundo, e tinha a ver com as grandes desigualdades sociais e com a arrog\u00e2ncia dos pol\u00edticos e economistas que n\u00e3o atentaram para os problemas e tens\u00f5es que vinham se acumulando. Ele n\u00e3o acredita, como eu tamb\u00e9m n\u00e3o, que economias fortemente estatizadas e apoiadas em movimentos sociais, como tentado por Salvador Allende no passado\u00a0 e por outros governos de esquerda mais recentemente, consigam produzir melhores resultados. Mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil chegar a um equil\u00edbrio adequado entre incentivos de mercado e pol\u00edticas sociais, e os economistas n\u00e3o t\u00eam instrumentos para entender e lidar com as desigualdades que ele chama de \u201chorizontais\u201d, de natureza social e cultural, que v\u00e3o muito al\u00e9m das diferen\u00e7as de renda e dividem t\u00e3o profundamente a sociedade \u00a0chilena e de outros pa\u00edses da regi\u00e3o. Em \u00faltima an\u00e1lise, diz ele,\u00a0 os defensores da economia de mercado se acomodaram com seu sucesso e perderam a batalha das ideias, incapazes que foram defender seus resultados e lidar com os temas emergentes da perda de\u00a0 identidade,\u00a0 inseguran\u00e7a e ressentimento que muitas vezes s\u00e3o a outra cara do desenvolvimento capitalista. Edwards n\u00e3o cita, mas seu livro faz lembrar um livro cl\u00e1ssico, <em>A Grande Transforma\u00e7\u00e3o<\/em>, de Karl Polanyi, de 1944, que fala sobre a fratura entre sociedade e economia trazida pelo capitalismo selvagem, \u00e0 qual ele atribui as guerras grandes que destro\u00e7aram a Europa.\u00a0 Vale a pena reler<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 8 de dezembro de 2023) Entre 1980 e 2019, a economia chilena foi a que mais cresceu na Am\u00e9rica Latina, enquanto a propor\u00e7\u00e3o de pessoas vivendo em situa\u00e7\u00e3o de pobreza baixou de 53 para 6%. Esta hist\u00f3ria de sucesso se explica pelas pol\u00edticas que Sebastian Edwards, em livro &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/ascensao-e-queda-dos-chicago-boys\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Ascens\u00e3o e queda dos Chicago Boys&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24,37,27],"tags":[],"class_list":["post-7363","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-democraciademocracy","category-politica-publica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7363","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7363"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7363\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7365,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7363\/revisions\/7365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}