{"id":7382,"date":"2024-01-16T07:28:31","date_gmt":"2024-01-16T10:28:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7382"},"modified":"2024-01-16T07:38:37","modified_gmt":"2024-01-16T10:38:37","slug":"polarizacao-e-calcificacao-da-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/polarizacao-e-calcificacao-da-politica\/","title":{"rendered":"Polariza\u00e7\u00e3o e calcifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em  <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-grande-calmaria\/\" data-type=\"post\" data-id=\"7376\">artigo recente<\/a>, escrito um ano ap\u00f3s a tentativa de golpe de estado de janeiro de 2023, afirmei que a polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, que teria dominado a pol\u00edtica brasileira at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es de 2022, parecia ter arrefecido.V\u00e1rios leitores discordaram, se referindo <em>\u00e0 Biografia do Abismo \u2013 como a polariza\u00e7\u00e3o divide fam\u00edlias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil<\/em>, livro recente de Felipe Nunes e Thomas Traumann (Harper Collins, 2023).&nbsp; O livro faz uso abundante de dados de pesquisas de opini\u00e3o realizadas pela empresa Quaest, dirigida por Nunes, e busca interpretar o que est\u00e1 ocorrendo no Basil no contexto mais amplo de fortalecimento da direita e de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em outros pa\u00edses, sobretudo nos Estados Unidos. A tese principal do livro \u00e9 que a pol\u00edtica brasileira se calcificou em polos antag\u00f4nicos, cuja radicaliza\u00e7\u00e3o transbordou para outros campos de atividade como a educa\u00e7\u00e3o, a economia e as rela\u00e7\u00f5es sociais. A principal explica\u00e7\u00e3o para o que est\u00e1 ocorrendo seria o \u201cnovo ecossistema de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, centrado nas redes sociais, e alimentado por duas figuras carism\u00e1tica opostas, Lula e Bolsonaro. Neste sistema, as pessoas tenderiam a se fechar em bolhas que se autoalimentam, sujeitas \u00e0 avalanche de informa\u00e7\u00f5es falsas e mecanismos que tendem a refor\u00e7ar ideias pr\u00e9-concebidas.&nbsp; A democracia est\u00e1 se rompendo, e s\u00f3 um reconhecimento do problema e uma a\u00e7\u00e3o deliberada das elites, restabelecendo as regras e os limites da conviv\u00eancia, poderia, quem sabe, deter este processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A principal evid\u00eancia que tenho para a hip\u00f3tese que a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica est\u00e1 se arrefecendo \u00e9 a grande concilia\u00e7\u00e3o que tem ocorrido entre as elites pol\u00edticas de esquerda e direita, pela anula\u00e7\u00e3o dos processos da lava-jato e a concess\u00e3o de recursos e poder crescentes para o Congresso. Os principais atores da direita pol\u00edtica brasileira n\u00e3o s\u00e3o mais Jair Bolsonaro e seus filhos, mas Arthur Lira, Tarc\u00edsio Freitas e Valdemar da Costa Neto, para os quais as quest\u00f5es ideol\u00f3gicas t\u00eam muito menos relev\u00e2ncia do que as quest\u00f5es de poder. Esta concilia\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo feita a um alto custo e com consequ\u00eancias imprevis\u00edveis, mas isto \u00e9 um outro tema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro de Nunes e Traumann \u00e9 excelente ao mostrar como a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se deu e ao descrever em detalhe a l\u00f3gica das elei\u00e7\u00f5es de 2022, mas me parece que deixa a desejar na interpreta\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 ocorrendo. O problema, me parece, tem a ver com a teoria impl\u00edcita que ele adota a respeito de como os processos pol\u00edtico-eleitorais ocorrem. Para entender isto, uma pequena incurs\u00e3o \u00e0 literatura existente precisa ser feita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria mais tradicional sobre comportamento eleitoral, de origem marxista, \u00e9 que os eleitores votam conforme seus interesses de classe \u2013 oper\u00e1rio vota em oper\u00e1rio, burgu\u00eas vota em burgu\u00eas. A pol\u00edtica seria uma disputa de classes,&nbsp; e, como os pobres e oper\u00e1rios s\u00e3o a maioria, eles sempre ganhariam as elei\u00e7\u00f5es, n\u00e3o fosse o problema da \u201cfalsa consci\u00eancia\u201d, em que eles s\u00e3o iludidos e n\u00e3o percebem quais s\u00e3o seus verdadeiros interesses e quem verdadeiramente os representa.&nbsp;&nbsp; Esta teoria refletia, ainda que de maneira muito imperfeita, as divis\u00f5es eleitorais da Europa ocidental at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX, mas nunca conseguiu dar conta de fen\u00f4menos como o nacionalismo, os partidos de base religiosa e, na Am\u00e9rica Latina, o populismo em suas diversas manifesta\u00e7\u00f5es, interpretados como uma esp\u00e9cie de aberra\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento \u201cesperado\u201d dos diferentes setores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As ci\u00eancias sociais norte-americanas abriram uma outra perspectiva ao procurar entender diretamente o comportamento do eleitor, e, a partir da\u00ed, o funcionamento do sistema eleitoral e do regime democr\u00e1tico, fazendo uso de pesquisas de opini\u00e3o e dados eleitorais.&nbsp; Estas pesquisas se iniciam com os trabalhos pioneiros da \u201cescola de Columbia\u201d, de Robert K. Merton, Paul Lazarsfeld e Elihu Katz, na d\u00e9cada de 40, sobre comunica\u00e7\u00e3o de massas (Katz and Lazarsfeld 1964; Lazarsfeld, Berelson and Gaudet 1968) e mais adiante com as pesquisas eleitorais da \u201cescola de Michigan\u201d, com os trabalhos de Angus Campbell,&nbsp; Phillip Converse, Donald Stokes e outros (Campbell et al. 1960). Dois artigos tiveram grande influ\u00eancia nesta literatura, o do economista Antony Downs, de 1957, que propunha um modelo simples de decis\u00e3o dos votos dos eleitores e de comportamento dos partidos (Downs 1957), e outro de Phillip Converse, de 1964, sobre como os eleitores entendem e pensam as quest\u00f5es da pol\u00edtica (Converse 1964; Friedman and Friedman 2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que estas pesquisas mostram \u00e9 que, em geral, os eleitores tomam suas decis\u00f5es a partir de fragmentos muitas vezes desconexos de informa\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o se estruturam de forma coerente como uma ideologia ou um entendimento mais profundo do sistema pol\u00edtico. A pergunta, ent\u00e3o, \u00e9 como o sistema democr\u00e1tico, que se pretende representativo, consegue funcionar sobre uma base t\u00e3o prec\u00e1ria. A resposta \u00e9 que os eleitores se informam com pessoas ou fontes em que confiam, e votam com os candidatos que melhor refletem seus interesses. Os textos pioneiros de Merton, Lazarsfeld e Katz falavam no \u201ctwo steps flow of communication\u201d, em que l\u00edderes de opini\u00e3o explicavam e legitimavam as informa\u00e7\u00f5es que chegavam pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 massa, e Converse, na mesma linha, identifica uma pequena percentagem de eleitores que organizam as informa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em uma \u201cideologia\u201d, ou quadro de refer\u00eancia coerente, e pessoas pr\u00f3ximas seguem. No modelo de Downs, as prefer\u00eancias dos eleitores tendem a se distribuir conforme uma curva normal, em um cont\u00ednuo da esquerda \u00e0 direita, o que faz com que os partidos procurem se posicionar o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da m\u00e9dia de opini\u00f5es, para receber o maior n\u00famero poss\u00edvel de votos. Isto explicaria o sistema bipartid\u00e1rio americano e a altern\u00e2ncia de poder, dada a oscila\u00e7\u00e3o dos resultados obtidos pelos diferentes governos no atendimento \u00e0s&nbsp; prefer\u00eancias dos eleitores. Uma outra explica\u00e7\u00e3o para a estabilidade do sistema americano, at\u00e9 aquela \u00e9poca, era a forte tend\u00eancia de os eleitores votarem&nbsp; conforme sua identifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com determinado partido, o que servia de amortecedor para grandes oscila\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que estas teorias n\u00e3o explicam \u00e9 como este aparente equil\u00edbrio foi sendo rompido nos Estados Unidos pela polariza\u00e7\u00e3o crescente, que culminou na elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, um processo que tamb\u00e9m vem ocorrendo, em maior ou menor grau, em outros pa\u00edses.\u00a0 A resposta, segundo um artigo mais recente de dois cientistas pol\u00edticos, Hacker e Pierson, estaria em uma outra maneira de entender o processo pol\u00edtico eleitoral, n\u00e3o mais atrav\u00e9s do comportamento dos eleitores, mas atrav\u00e9s das a\u00e7\u00f5es deliberadas dos grupos de interesse que disputam o poder no sistema eleitoral e, para isso, procuram organizar o eleitorado e o pr\u00f3prio sistema eleitoral a seu favor.\u00a0 O autor de refer\u00eancia, no caso, deixaria de ser Antony Downs, e passaria ser E. E. Schattschneider, cujos trabalhos iniciais datam da d\u00e9cada de 1930, e cujo texto mais conhecido, <em>The Semi-Sovereign People,<\/em> \u00e9 de 1960 (Hacker and Pierson 2014; Schattschneider 1960). Na perspectiva de Schattschneider, a disputa pol\u00edtica n\u00e3o se d\u00e1 simplesmente pela competi\u00e7\u00e3o pelos votos de uma massa indiferenciada de eleitores, mas pela a\u00e7\u00e3o de grupos que procuram moldar as opini\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es de seus eleitores conforme seus interesses. No regime democr\u00e1tico, o eleitor continua sendo soberano, mas \u00e9 uma soberania limitada e condicionada pelo trabalho de determinados grupos para conquistar o poder e exerc\u00ea-los conforme seus interesses. \u00c9 esta a\u00e7\u00e3o que pode explicar o que o modelo de Downs n\u00e3o consegue, a transforma\u00e7\u00e3o da curva normal de prefer\u00eancias em uma distribui\u00e7\u00e3o bimodal, ou seja, em polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma maneira pela qual os grupos de interesse atuam para influenciar o comportamento dos eleitores \u00e9 pela cria\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas destinadas a garantir determinados resultados. Um exemplo dado pelos autores \u00e9 o de uma pesquisa sobre a cria\u00e7\u00e3o de sindicatos de professores nos Estados Unidos nas d\u00e9cadas de 50 e 60. A pesquisa mostrou que estes sindicatos n\u00e3o surgiram de forma natural e autom\u00e1tica pela agrega\u00e7\u00e3o dos interesses comuns dos professores, mas foram o resultado do trabalho sistem\u00e1tico do Partido Democrata em determinados estados para organiz\u00e1-los. Estes processos cruciais de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o do eleitorado, e os resultados que produzem, se tornam invis\u00edveis quando o processo pol\u00edtico \u00e9 analisado exclusivamente a partir das opini\u00f5es e atitudes dos eleitores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aplicando esta perspectiva ao Brasil, \u00e9 poss\u00edvel observar que o getulismo e o lacerdismo, o golpe de 1964, a campanha pelas Diretas J\u00e1, as elei\u00e7\u00f5es de J\u00e2nio Quadros, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso e os protestos de 2013 mostram que a mobiliza\u00e7\u00e3o e radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, n\u00e3o s\u00e3o coisas novas no Brasil, mas foram mobiliza\u00e7\u00f5es ef\u00eameras, que n\u00e3o criaram ra\u00edzes. A novidade importante neste cen\u00e1rio foi o surgimento do Partido dos Trabalhadores no in\u00edcio dos anos 80.&nbsp; O PT come\u00e7ou como o bra\u00e7o pol\u00edtico de um setor espec\u00edfico do sindicalismo industrial, com uma ret\u00f3rica que buscava renovar o antigo discurso pol\u00edtico da esquerda. Aos poucos, na medida em que foi conquistando posi\u00e7\u00f5es de poder, passou a incorporar tamb\u00e9m sindicatos do setor de servi\u00e7os, organiza\u00e7\u00f5es do campo, setores da burocracia, setores da Igreja Cat\u00f3lica, pol\u00edticos tradicionais&nbsp; e aliados do setor empresarial.&nbsp; A primeira vit\u00f3ria de Lula contra Jos\u00e9 Serra em 2002 se deveu sobretudo ao desgaste do PSDB depois do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, mas, a partir da\u00ed, com o programa do bolsa fam\u00edlia, o aumento dos gastos p\u00fablicos e a distribui\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios e vantagens a parceiros, o PT foi incorporando cada vez mais setores a seu projeto de poder, criando um arco de alian\u00e7as que foi capaz de sobreviver \u00e0 crise de 2015 e renascer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em contraste com o PT, nenhum outro partido pol\u00edtico brasileiro, at\u00e9 recentemente, depois da dissolu\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a entre o velho PSD e o Partido Trabalhista de Get\u00falio Vargas na elei\u00e7\u00e3o de J\u00e2nio Quadros, tentou ou conseguiu organizar uma parceria est\u00e1vel e organizada com determinados setores da sociedade. O PSDB, que a princ\u00edpio poderia ter se transformado em um forte partido de massas gra\u00e7as ao hist\u00f3rico de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica tradicional do antigo PMDB de Orestes Qu\u00e9rcia e o sucesso do Plano Real, nunca deixou de ser um partido de quadros, na terminologia proposta por Maurice Duverger, e acabou por se deteriorar ap\u00f3s a derrota de A\u00e9cio Neves para Dilma Rousseff em 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A novidade do Bolsonarismo foi criar sua pr\u00f3pria clientela organizada, aproveitando-se dos espa\u00e7os deixados de fora do Partido dos Trabalhadores ap\u00f3s a crise de 2015 e pelo fracasso do PSDB e outras correntes de centro e \u00e0 esquerda de construir uma alternativa . Estes espa\u00e7os foram muitos, e incluem as popula\u00e7\u00f5es das periferias das grandes cidades, que buscavam prote\u00e7\u00e3o nos novos cultos religiosos e na conviv\u00eancia sofrida com o crime organizado; os setores da classe m\u00e9dia baixa que n\u00e3o se beneficiaram da expans\u00e3o da m\u00e1quina administrativa e n\u00e3o tiveram acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e ao sistema de sa\u00fade p\u00fablico subsidiado; empres\u00e1rios que sofriam com os altos e baixos e a inefici\u00eancia da economia; e as pol\u00edcias militares e partes das for\u00e7as armadas que n\u00e3o recebiam os mesmos benef\u00edcios e a mesma aten\u00e7\u00e3o que outras partes do servi\u00e7o p\u00fablico. Some-se a isto setores da sociedade que se sentem amea\u00e7ados pelas pol\u00edticas e mobiliza\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias que colocam em quest\u00e3o padr\u00f5es tradicionais de comportamento, relacionamento e domina\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vinham se desfazendo naturalmente e que, por isto mesmo, s\u00e3o ansiosamente defendidos.&nbsp; Tal como nos Estados Unidos, estas parcerias foram estabelecidas inicialmente atrav\u00e9s do uso inovador das novas redes de comunica\u00e7\u00e3o social, De forma sim\u00e9trica ao discurso do PT em nome do \u201cpovo\u201d contra a \u201cheran\u00e7a maldita\u201d e as \u201celites\u201d, elas foram refor\u00e7adas pela ressurei\u00e7\u00e3o do antigo discurso integralista de Deus, P\u00e1tria e Fam\u00edlia e contra a corrup\u00e7\u00e3o. Com Bolsonaro no governo, esta rede passou a ser alimentada diretamente com subs\u00eddios, distribui\u00e7\u00e3o de cargos e outras formas de organiza\u00e7\u00e3o e institucionaliza\u00e7\u00e3o, incluindo o est\u00edmulo ao armamento da popula\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas redes de interesse e a a\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de determinadas correntes pol\u00edticas para estabelecer alian\u00e7as e mobilizar apoios n\u00e3o s\u00e3o facilmente capturadas por pesquisas de opini\u00e3o que medem as atitudes e orienta\u00e7\u00f5es dos eleitores por amostras e grupos focais, e, por isto, n\u00e3o aparecem com destaque no livro de Nunes e Traumann. Mas, sem esta an\u00e1lise n\u00e3o conseguimos saber qual a profundidade e a resili\u00eancia da calcifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que eles postulam. Existem autores que estimam que o \u201cn\u00facleo duro\u201d do PT, ou seja, eleitores vinculados a suas redes de organiza\u00e7\u00e3o, mobiliza\u00e7\u00e3o e favorecimento de interesses, seria da ordem de 15 a 20% do eleitorado, e as redes criadas pelo bolsonarismo teriam um tamanho semelhante. Al\u00e9m das pessoas que participam diretamente de suas redes, a for\u00e7a das diferentes correntes depende tamb\u00e9m, naturalmente, da quantidade de pessoas atra\u00eddas ou convencidas&nbsp; por sua ret\u00f3rica, que \u00e9 mais incerta. As elei\u00e7\u00f5es de 2022,&nbsp; como o livro mostra, foram decididas em grande parte pelo voto contra, e n\u00e3o a favor de um ou outro lado. Isso significa que cerca de 60% do eleitorado estaria, em princ\u00edpio, dispon\u00edvel para apoiar outras correntes pol\u00edticas que conseguissem organizar e representar seus interesses de forma mais efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um tema central nesta quest\u00e3o \u00e9 o lugar e o que se pode esperar da democracia. Os estudos de opini\u00e3o p\u00fablica, comportamento eleitoral e sistemas partid\u00e1rios em todo o mundo mostram a fragilidade da ideia de que os governos democr\u00e1ticos s\u00e3o a&nbsp; simples express\u00e3o direta da \u201cvontade do povo\u201d. Isto n\u00e3o justifica, no entanto, a tese dos movimentos pol\u00edticos de extrema esquerda e direita de que os regimes pol\u00edticos n\u00e3o importam, porque n\u00e3o passam de instrumentos de domina\u00e7\u00e3o de determinados grupos sobre outros. Um conceito mais apropriado de democracia \u00e9 que ela \u00e9 uma forma de governo legitimada por um processo pol\u00edtico aberto, que garante que o poder de determinados setores n\u00e3o se perpetue e exerce fun\u00e7\u00f5es importantes de administrar conflitos e garantir o pluralismo e os direitos civis, pol\u00edticos e sociais dos cidad\u00e3os, e sobretudo das minorias. A grande fragilidade dos regimes democr\u00e1ticos \u00e9 que os setores mais interessados em sua manuten\u00e7\u00e3o s\u00e3o, em geral, os menos motivados e capacitados para se organizar e mobilizar a sociedade para defend\u00ea-la, em contraste com seus opositores nos extremos.&nbsp; Ao final de seu livro, Nunes e Traumann falam sobre os problemas da democracia e dizem, com raz\u00e3o, que a \u00fanica maneira de defend\u00ea-la \u00e9 com mais democracia e o fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es e da cidadania. \u00c9 isto, e n\u00e3o a mera exorta\u00e7\u00e3o \u00e0s elites pol\u00edticas para que se comportem e coloquem limites aos ataques m\u00fatuos, que pode reestabelecer um m\u00ednimo de conviv\u00eancia na pol\u00edtica brasileira e fortalecer a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meu texto anterior, eu dizia que havia ind\u00edcios de que polariza\u00e7\u00e3o do in\u00edcio de 2023 parecia que havia se arrefecido, n\u00e3o que havia desaparecido. Para saber o quanto,&nbsp; vamos ver em que medida os resultados das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es municipais depender\u00e3o de alinhamentos ideol\u00f3gicos ou de circunst\u00e2ncias locais, e sobretudo como ser\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Campbell, Angus, Phillip Converse, Warren E. Miller, and Donald E Stokes. 1960. <em>The American Voter<\/em>. New York: Willey.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Converse, Philip E. 1964. &#8220;The nature of belief systems in mass publics.&#8221; <em>Critical review<\/em> 18(1-3):1-74.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Downs, Anthony. 1957. &#8220;An economic theory of political action in a democracy.&#8221; <em>Journal of Political Economy<\/em> 65(2):135-50.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Friedman, Jeffrey, and Shterna Friedman. 2018. <em>The nature of belief systems reconsidered<\/em>: Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hacker, Jacob S, and Paul Pierson. 2014. &#8220;After the \u201cmaster theory\u201d: Downs, Schattschneider, and the rebirth of policy-focused analysis.&#8221; <em>Perspectives on Politics<\/em> 12(3):643-62.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Katz, Elihu, and Paul Felix Lazarsfeld. 1964. <em>Personal influence the part played by people in the flow of mass communications<\/em>. New York, N.Y: Free Press of Glencoe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lazarsfeld, Paul Felix, Bernard Berelson, and Hazel Gaudet. 1968. <em>The people&#8217;s choice how the voter makes up his mind in a presidential campaign<\/em>. New York: Columbia University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Schattschneider, E. E. 1960. <em>The Semi-Sovereign People &#8211; a realist view of democracy in America<\/em>. New York: Holt. Rinehart and Winston.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em artigo recente, escrito um ano ap\u00f3s a tentativa de golpe de estado de janeiro de 2023, afirmei que a polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, que teria dominado a pol\u00edtica brasileira at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es de 2022, parecia ter arrefecido.V\u00e1rios leitores discordaram, se referindo \u00e0 Biografia do Abismo \u2013 como a polariza\u00e7\u00e3o divide fam\u00edlias, desafia empresas e compromete o &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/polarizacao-e-calcificacao-da-politica\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Polariza\u00e7\u00e3o e calcifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[37,21],"tags":[],"class_list":["post-7382","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-democraciademocracy","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7382"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7384,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7382\/revisions\/7384"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}