{"id":7405,"date":"2024-01-20T10:33:18","date_gmt":"2024-01-20T13:33:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7405"},"modified":"2024-01-20T11:07:33","modified_gmt":"2024-01-20T14:07:33","slug":"robert-e-verhine-avaliando-a-pos-graduacao-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/robert-e-verhine-avaliando-a-pos-graduacao-no-brasil\/","title":{"rendered":"Robert E. Verhine: Avaliando a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Resenha de Brasil, Andr\u00e9, <em>Advancing the evaluation of graduate education: towards a multidimensional model in Brazil. <\/em>Leiden, Holanda: Universiteit Leiden \/ ProefschriftMaken, 2023, 378p.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(<a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-capes-e-suas-avaliacoes\/\" data-type=\"post\" data-id=\"7410\">para um coment\u00e1rio adicional a esta resenha veja a postagem seguinte, A CAPES e suas avalia\u00e7\u00f5es)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo nacional de avalia\u00e7\u00e3o de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da CAPES, implementado em 1980, tem recebido muita aten\u00e7\u00e3o da comunidade acad\u00eamica brasileira, especialmente considerando seu profundo impacto no financiamento e na regula\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Enquanto muitos reconhecem que a estrutura da avalia\u00e7\u00e3o nacional, aplicada a todos os programas do pa\u00eds em intervalos regulares, tem sido eficaz na promo\u00e7\u00e3o da qualidade do programa, outros v\u00eaem o esfor\u00e7o de uma forma mais negativa, argumentando, entre outras cr\u00edticas, que a qualidade educacional \u00e9 vista de maneira restrita e excessivamente quantitativa, o que interfere na autonomia acad\u00eamica das universidades garantida na Constitui\u00e7\u00e3o brasileira. Embora muitos artigos tenham contribu\u00eddo ao debate em curso, nunca houve um livro detalhado dedicado exclusivamente ao tema, at\u00e9 recentemente. Esta aus\u00eancia na literatura de avalia\u00e7\u00e3o foi agora remediada, pelo menos para a comunidade internacional, por um livro que acaba de ser publicado em ingl\u00eas, intitulado \u201cAvan\u00e7ando a avalia\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o: rumo a um modelo multidimensional de educa\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> O livro, que tem quase 400 p\u00e1ginas, \u00e9 baseado em uma tese de doutorado de autoria de Andr\u00e9 Brasil, gestor de alto escal\u00e3o da Diretoria de Avalia\u00e7\u00e3o da CAPES.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro est\u00e1 dividido em 12 cap\u00edtulos e aborda detalhadamente a constru\u00e7\u00e3o e a din\u00e2mica da avalia\u00e7\u00e3o nacional, seu impacto na produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e na qualidade da aprendizagem, seus pontos fortes e fracos e, por fim, as medidas que devem ser tomadas para seu aprimoramento. O livro conclui apresentando dez princ\u00edpios que norteiam o modelo de avalia\u00e7\u00e3o da CAPES e oferece treze recomenda\u00e7\u00f5es para seu aprimoramento, que, segundo o autor, foram \u201cmeticulosamente delineadas para respeitar os contornos socioculturais distintos do Brasil\u201d (p. 298). Devido &nbsp;\u00e0 riqueza de detalhes do livro, a presente resenha n\u00e3o pretende analisar todos os seus muitos aspectos. Em vez disso, o resenhista apresenta elementos-chave que considera mais relevantes para a reforma e melhoria do modelo de avalia\u00e7\u00e3o da CAPES atualmente em uso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para quem j\u00e1 conhece o modelo CAPES, o cap\u00edtulo mais interessante do livro \u00e9 o Cap\u00edtulo 5, que traz uma an\u00e1lise comparativa dos sistemas brasileiro e holand\u00eas de avalia\u00e7\u00e3o de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, identificando diferen\u00e7as e semelhan\u00e7as no que diz respeito \u00e0 estrutura organizacional, m\u00e9todos de avalia\u00e7\u00e3o e dados, partes interessadas relevantes e grau de transpar\u00eancia. A an\u00e1lise revela que as duas abordagens de avalia\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito diferentes, refletindo pontos de vista distintos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o, \u00e0 autonomia universit\u00e1ria e \u00e0 gest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior. As universidades holandesas, que datam do s\u00e9culo XVI, s\u00e3o muito mais antigas que as cong\u00eaneres brasileiras, o que significa que a autonomia universit\u00e1ria e a internacionaliza\u00e7\u00e3o est\u00e3o muito mais firmemente enraizadas nas primeiras do que nas segundas. Diferentemente do Brasil, na Holanda o uso do ingl\u00eas \u00e9 enfatizado e a pesquisa \u00e9 organizada em unidades acad\u00eamicas e n\u00e3o em programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como o Brasil come\u00e7ou tarde a promover o estudo e a pesquisa sobre a universidade, tem tentado recuperar o tempo adotando uma abordagem central e nacional para garantir a qualidade dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, capaz de causar um impacto r\u00e1pido e universalizado. Essa orienta\u00e7\u00e3o centralizada resultou na cria\u00e7\u00e3o do Sistema Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o (SNPG) e na concentra\u00e7\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o em \u00f3rg\u00e3o governamental nacional. A avalia\u00e7\u00e3o tende a ser uniforme, aplicada a todos os programas do pa\u00eds, e tem grandes implica\u00e7\u00f5es para as unidades avaliadas, estando diretamente vinculada \u00e0s pol\u00edticas regulat\u00f3rias e de financiamento e desenhada para garantir o funcionamento, a estabilidade e a qualidade do sistema atrav\u00e9s de uma abordagem hier\u00e1rquica governamental. No Brasil, o governo \u201cdirige\u201d o desenvolvimento da ci\u00eancia no pa\u00eds, utilizando a avalia\u00e7\u00e3o dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o como principal ferramenta de regula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Holanda, o foco da avalia\u00e7\u00e3o est\u00e1 na pesquisa e n\u00e3o nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, e a pesquisa \u00e9 organizada de acordo com disciplinas e unidades acad\u00eamicas, nas quais est\u00e3o inclu\u00eddos programas de doutorado (mas n\u00e3o de mestrado). Ao contr\u00e1rio do Brasil, o estado n\u00e3o possui uma atua\u00e7\u00e3o avaliadora na Holanda. Embora as diretrizes sejam fornecidas por organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais nacionais de reitores e de professores universit\u00e1rios, as institui\u00e7\u00f5es t\u00eam autonomia para definir a sua pr\u00f3pria estrat\u00e9gia, organiza\u00e7\u00e3o e escopo de avalia\u00e7\u00e3o. Assim, o sistema de avalia\u00e7\u00e3o holand\u00eas \u00e9 bottom-up e descentralizado. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica interna e participativa realizada com base na identidade, objetivos e estrat\u00e9gias de cada unidade avaliada, tornando o processo predominantemente interno, formativo, contextual e qualitativo. N\u00e3o foi concebido para controle externo, regula\u00e7\u00e3o estatal ou responsabiliza\u00e7\u00e3o. Os protocolos nacionais definem objetivos gerais de avalia\u00e7\u00e3o a n\u00edvel nacional, mas os crit\u00e9rios n\u00e3o s\u00e3o r\u00edgidos, padronizados ou obrigat\u00f3rios. As unidades de investiga\u00e7\u00e3o t\u00eam autonomia para as reorganizar de acordo com as suas caracter\u00edsticas espec\u00edficas. Os protocolos n\u00e3o definem regras ou diretrizes sobre as consequ\u00eancias da avalia\u00e7\u00e3o e nenhuma institui\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 respons\u00e1vel por definir ou aplicar san\u00e7\u00f5es, recompensas e incentivos. Essa \u00e9 prerrogativa de cada unidade ou institui\u00e7\u00e3o, seguindo suas pol\u00edticas internas. Assim, ao contr\u00e1rio do caso brasileiro, na Holanda a avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 regulat\u00f3ria, n\u00e3o estabelece classifica\u00e7\u00f5es e n\u00e3o cria indicadores que permitam a comparabilidade entre unidades. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao fazer a sua an\u00e1lise comparativa, o autor do livro teve o cuidado de notar que os dois sistemas se baseiam em trajet\u00f3rias hist\u00f3ricas, desafios geogr\u00e1ficos e estruturas institucionais. Os mecanismos de avalia\u00e7\u00e3o devem ser adaptados aos contextos \u00fanicos de cada pa\u00eds. Contudo, existem inspira\u00e7\u00f5es e li\u00e7\u00f5es que podem ser tiradas das experi\u00eancias positivas de cada pa\u00eds. Em \u00faltima an\u00e1lise, ele reconhece vantagens para ambas as abordagens, afirmando que, do ponto de vista comparativo, o modelo brasileiro tem servido de forma mais eficaz para estimular a produ\u00e7\u00e3o de pesquisas e publica\u00e7\u00f5es, especialmente em um contexto em que o desenvolvimento da cultura da pesquisa \u00e9 relativamente recente, enquanto o modelo holand\u00eas promoveu com mais sucesso um ponto de vista contextualizado conducente ao reconhecimento da diversidade, diferencia\u00e7\u00e3o e autonomia institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O autor volta \u00e0 quest\u00e3o da autoavalia\u00e7\u00e3o de programa no Cap\u00edtulo 11, que aborda a quest\u00e3o da multidimensionalidade, tema subjacente ao qual todo o livro \u00e9 dedicado. Ele observa que, em 2018, a CAPES reconheceu a necessidade de desenhar uma estrat\u00e9gia de autoavalia\u00e7\u00e3o para o SNPG. Este reconhecimento, na opini\u00e3o do autor, derivou de duas tend\u00eancias principais. Em primeiro lugar, a expans\u00e3o significativa do SNPG, que cresceu de cerca de 400 programas em 1980 para quase 5.000 em 2020, tornou-se um obst\u00e1culo para captar as narrativas complexas vividas pelo n\u00famero rapidamente crescente de iniciativas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Em segundo lugar, era cada vez mais evidente que a sua abordagem de avalia\u00e7\u00e3o externa tinha promovido um sistema cient\u00edfico excessivamente homog\u00eaneo, levando os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u201ca tornarem-se fotoc\u00f3pias de qualidade inferior aos de melhor desempenho\u201d (p. 260).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No que diz respeito ao tema da multidimensionalidade, entendido como uma abordagem avaliativa que busca captar a realidade de forma ampla, focando em uma variedade de dimens\u00f5es, subdimens\u00f5es e indicadores operacionais que se relacionam, de forma articulada, com a qualidade educacional, o autor afirma que a autoavalia\u00e7\u00e3o \u00e9 potencialmente \u201co instrumento mais valioso numa avalia\u00e7\u00e3o genuinamente multidimensional\u201d (p. 273), pois, se bem desenvolvido, pode assegurar a relev\u00e2ncia contextualizada que historicamente faltou ao modelo de avalia\u00e7\u00e3o da CAPES. Ele postula que uma abordagem multidimensional eficaz \u201cs\u00f3 \u00e9 verdadeiramente poss\u00edvel por meio da autoavalia\u00e7\u00e3o\u201d, pois permite que a multidimensionalidade \u201cincentive a diversidade na ci\u00eancia brasileira e que possa empregar as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es como parceiras mais ativas no processo de avalia\u00e7\u00e3o\u201d (p. 277).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 claro que, no Cap\u00edtulo 11, a sua discuss\u00e3o sobre a abordagem da multidimensionalidade \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o trata de muito mais do que apenas a autoavalia\u00e7\u00e3o. Ele analisa a proposta multidimensional feita em 2018 pela Comiss\u00e3o do PNPG, respons\u00e1vel por acompanhar o Plano do per\u00edodo 2011-2020. Esta proposta defendia a utiliza\u00e7\u00e3o de cinco dimens\u00f5es, com cada dimens\u00e3o classificada separadamente numa escala de um a sete, preservando assim a classifica\u00e7\u00e3o dos programas, mas eliminando a atribui\u00e7\u00e3o de uma nota \u00fanica a cada programa. Embora a Comiss\u00e3o do PNPG tenha anunciado a sua proposta como um \u201cnovo modelo\u201d, o autor argumenta corretamente que o seu enquadramento n\u00e3o muda muito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o j\u00e1 em vigor. Ainda assim, ele v\u00ea a proposta da referida Comiss\u00e3o como um avan\u00e7o, representando \u201cum passo modesto, mas relevante, para permitir que os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o encontrem suas pr\u00f3prias identidades\u201d (p. 273). O mesmo tamb\u00e9m ressalta o fato de ser uso-amig\u00e1vel, no sentido de que os programas individuais podem selecionar os indicadores ou itens que os ajudariam a definir os perfis dos seus programas de acordo com os seus interesses. Afirma, ainda, que essa flexibilidade orientada para o utilizador produziria resultados mais ricos e mais relevantes para a melhoria do programa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da sua argumenta\u00e7\u00e3o coerente, detalhada e bem fundamentada, muitos aspectos da sua narrativa podem ser questionados, incluindo o fato, reconhecido pelo pr\u00f3prio autor, de que o seu estudo n\u00e3o aborda os aspectos operacionais das suas muitas recomenda\u00e7\u00f5es, limitando, potencialmente, sua aplicabilidade. Contudo, para este resenhista, quatro quest\u00f5es merecem aten\u00e7\u00e3o especial aqui. Cada uma \u00e9 brevemente discutida abaixo.<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>O autor defende a avalia\u00e7\u00e3o externa realizada pela CAPES. Embora reconhe\u00e7a suas limita\u00e7\u00f5es e a necessidade de reformas \u00e0 luz da complexidade e diversidade do Sistema de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do Brasil, ele enfatiza seu importante papel na promo\u00e7\u00e3o da qualidade e da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, al\u00e9m de ser muito positivo ao descrever o uso de comiss\u00f5es de pares, \u00e1reas de avalia\u00e7\u00e3o, um padr\u00e3o formul\u00e1rio de avalia\u00e7\u00e3o para orientar a aplica\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios e indicadores, e o Sistema Qualis para julgar, por meio de an\u00e1lises qualitativas e quantitativas, artigos de peri\u00f3dicos e outros produtos. Mas, por outro lado, sugere que a avalia\u00e7\u00e3o externa n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel devido ao tamanho crescente do SNPG e critica-o frequentemente por limitar a diversidade e a inova\u00e7\u00e3o em todo o sistema. Assim, conforme descrito acima, ele concentra grande parte do livro na import\u00e2ncia da autoavalia\u00e7\u00e3o, que descreve com detalhes brilhantes. Mas, nunca fica claro como ele v\u00ea a avalia\u00e7\u00e3o externa e a autoavalia\u00e7\u00e3o inter-relacionadas. A autoavalia\u00e7\u00e3o \u00e9 um complemento ou substituto do modelo externo? Em alguns momentos, ele parece indicar que o processo interno deveria substituir a abordagem centralizada e de cima para baixo, como ocorreu na Holanda, enquanto em outros momentos ele sugere que o componente externo deveria permanecer o elemento principal, devido ao seu impacto global e a sua capacidade de fornecer resultados comparativos. Segundo ele, as duas iniciativas exigiriam articula\u00e7\u00e3o, mas ele n\u00e3o faz nenhum esfor\u00e7o para revelar o que \u201carticula\u00e7\u00e3o\u201d pode significar em termos concretos.<\/li>\n\n\n\n<li>Em diversas ocasi\u00f5es, o autor defende uma abordagem de avalia\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel, na qual o programa escolhe as dimens\u00f5es e os indicadores com base nos quais seria avaliado. A recomenda\u00e7\u00e3o faz todo o sentido no caso da autoavalia\u00e7\u00e3o, mas o autor parece aplic\u00e1-la tamb\u00e9m \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o externa, especialmente quando apoia o sistema de cinco notas proposto pela Comiss\u00e3o do PNPG por ser um passo modesto, mas relevante. O problema desse argumento \u00e9 que o programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico \u201cusu\u00e1rio\u201d. Na verdade, como fica claro nos cap\u00edtulos iniciais dos livros, o principal usu\u00e1rio \u00e9 e sempre foi o governo brasileiro, que utiliza os resultados da avalia\u00e7\u00e3o para financiar estudos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o (via a CAPES) e para regular a qualidade dos programas (via o Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o). Outro usu\u00e1rio \u00e9 o p\u00fablico brasileiro, que exige (e merece) que todos os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, independentemente de onde estejam, atendam a padr\u00f5es m\u00ednimos de qualidade. O pr\u00f3prio autor parece contradizer sua postura a favor da chamada avalia\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel, quando, por exemplo, defende o direito das \u00e1reas de avalia\u00e7\u00e3o estabelecerem indicadores e crit\u00e9rios a serem utilizados e quando afirma que um ingrediente essencial do modelo de avalia\u00e7\u00e3o da CAPES \u00e9 seu quadro comparativo.<\/li>\n\n\n\n<li>Outra posi\u00e7\u00e3o discut\u00edvel adotada pelo autor envolve a defesa de notas m\u00faltiplas, sendo uma atribu\u00edda a cada dimens\u00e3o, em vez de uma nota unit\u00e1ria gerada pela pondera\u00e7\u00e3o dos componentes com o modelo multidimensional da CAPES. Este ponto de vista n\u00e3o est\u00e1 incorreto, mas requer uma an\u00e1lise mais profunda. A abordagem multi-nota \u00e9 \u00fatil para os programas, pois fornece uma imagem desagregada da sua qualidade que pode facilitar as decis\u00f5es para a sua melhoria. Por\u00e9m, o autor deixa de mencionar que os programas j\u00e1 recebem seus resultados de avalia\u00e7\u00e3o de forma desagregada, com avalia\u00e7\u00e3o em escala de cinco graus feita para cada quesito, item e indicador inclu\u00eddos na Ficha &nbsp;de Avalia\u00e7\u00e3o. Na \u00e1rea de Educa\u00e7\u00e3o, por exemplo, cada programa recebeu, em 2022, uma avalia\u00e7\u00e3o para 62 elementos diferentes, abordando 3 quesitos, 12 itens e 47 indicadores. Por outro lado, o resultado da nota \u00fanica \u00e9 \u00fatil para outros fins, como na tomada de decis\u00f5es governamentais relativas ao financiamento e \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o e quando indiv\u00edduos e organiza\u00e7\u00f5es, incluindo os do exterior, est\u00e3o decidindo se devem ou n\u00e3o trabalhar com um determinado programa. A CAPES, por exemplo, recebe solicita\u00e7\u00f5es de todo o mundo perguntando sobre a equival\u00eancia entre os conceitos (E a \u200b\u200bA) dados aos programas anteriores a 1998 e as notas (1 a 7) dadas a partir de ent\u00e3o. Essas solicita\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma prova do valor, da legitimidade e do reconhecimento internacional conferidos \u00e0s notas da CAPES na forma como est\u00e3o divulgadas atualmente.<\/li>\n\n\n\n<li>Por fim, ao defender o modelo de cinco dimens\u00f5es proposto pela Comiss\u00e3o do PNPG, o autor ignora totalmente o formato de avalia\u00e7\u00e3o constru\u00eddo e aprovado pelo Conselho T\u00e9cnico Cient\u00edfico (CTC-ES) da CAPES em dezembro de 2018. Ao inv\u00e9s de ser composto por dimens\u00f5es avaliadas de forma independente e isoladas entre si, a Ficha de Avalia\u00e7\u00e3o aprovada pelo CTC-ES apresenta uma abordagem mais hol\u00edstica, integrada e condensada, organizada em torno de tr\u00eas dimens\u00f5es e 12 subdimens\u00f5es que espelham o chamado modelo cl\u00e1ssico de avalia\u00e7\u00e3o de programas que se concentra, sistematicamente, em insumos (Programa), processos (Forma\u00e7\u00e3o) e resultados (Impacto na Sociedade). A dimens\u00e3o Programa, que existia anteriormente mas nunca foi ponderada, inclui como componentes-chave tanto o planejamento estrat\u00e9gico como a autoavalia\u00e7\u00e3o do programa, dois ingredientes que o autor considera cruciais para a melhoria do programa, mas que s\u00e3o omitidos no modelo proposto pela Comiss\u00e3o do PNPG. Outra vantagem da Ficha aprovada em 2018 \u00e9 que a dimens\u00e3o formativa d\u00e1 \u00eanfase, pela primeira vez, \u00e0s trajet\u00f3rias e opini\u00f5es dos egressos do programa. Al\u00e9m disso, inclui como um de seus itens a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica dos docentes, aspecto que era uma dimens\u00e3o \u00e0 parte tanto na avalia\u00e7\u00e3o da CAPES no passado quanto no modelo proposto pela Comiss\u00e3o do PNPG. Agora, no novo formato, trata-se apenas de um componente de dimens\u00e3o mais geral, reduzindo assim sua influ\u00eancia, algo condizente com o pensamento do autor, ao mesmo tempo em que destaca a principal justificativa para promover a pesquisa e a publica\u00e7\u00e3o nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, como estrat\u00e9gia pedag\u00f3gica para possibilitar que os alunos aprendam sobre a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento trabalhando em estreita colabora\u00e7\u00e3o com aqueles que t\u00eam experi\u00eancia profunda com tais processos. Tamb\u00e9m, a nova Ficha de Avalia\u00e7\u00e3o aumentou a import\u00e2ncia dada aos impactos do programa e relativizou, de forma multidimensional, os impactos internacionais versus aqueles de natureza mais local. E ainda, como parte da nova abordagem, os indicadores qualitativos receberam muito mais peso e valor do que no passado. Todos estes avan\u00e7os v\u00e3o ao encontro dos argumentos apresentados pelo autor em v\u00e1rios momentos da sua longa narrativa, embora nenhum deles fa\u00e7a parte do modelo da Comiss\u00e3o do PNPG que o autor abra\u00e7a.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar das d\u00favidas levantadas acima, este resenhista avalia o livro produzido por Andr\u00e9 Brasil de forma bastante positiva. Em suma, o autor acredita que a avalia\u00e7\u00e3o da CAPES deveria ser mais flex\u00edvel, adapt\u00e1vel e contextualizada, \u201cpermitindo varia\u00e7\u00e3o e customiza\u00e7\u00e3o de acordo com as especificidades de cada programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, em harmonia com contextos institucionais e disciplinares mais amplos\u201d (p. 302). Os esfor\u00e7os para melhorar ainda mais o Sistema ser\u00e3o muito beneficiados pelo que este livro tem a oferecer. Dou a sua leitura a minha mais alta recomenda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nota<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Todos os trechos do texto colocados entre aspas foram traduzidos do ingl\u00eas para o portugu\u00eas pelo autor da resenha.&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resenha de Brasil, Andr\u00e9, Advancing the evaluation of graduate education: towards a multidimensional model in Brazil. Leiden, Holanda: Universiteit Leiden \/ ProefschriftMaken, 2023, 378p. (para um coment\u00e1rio adicional a esta resenha veja a postagem seguinte, A CAPES e suas avalia\u00e7\u00f5es) O modelo nacional de avalia\u00e7\u00e3o de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da CAPES, implementado em 1980, tem &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/robert-e-verhine-avaliando-a-pos-graduacao-no-brasil\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Robert E. Verhine: Avaliando a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Brasil&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":123,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,11],"tags":[],"class_list":["post-7405","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia-e-tecnologia","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/123"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7405"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7405\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7416,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7405\/revisions\/7416"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}