{"id":7425,"date":"2024-02-09T06:42:12","date_gmt":"2024-02-09T09:42:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7425"},"modified":"2024-02-09T10:37:33","modified_gmt":"2024-02-09T13:37:33","slug":"pe-de-meia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/pe-de-meia\/","title":{"rendered":"P\u00e9 de Meia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 9 de fevereiro de 2014)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a reforma do ensino m\u00e9dio estancada, o governo resolveu instituir o programa \u201cp\u00e9-de-meia\u201d, pelo qual estudantes de baixa renda do ensino m\u00e9dio que frequentem as aulas receber\u00e3o duzentos reais por m\u00eas e mais mil reais por ano completado, a serem recebidos ao final do curso. Pelo an\u00fancio, o custo seria de 7.1 bilh\u00f5es ao ano, atendendo a 2.5 milh\u00f5es de estudantes. Pelos dados da pesquisa do IBGE que consultei para este artigo (Pnad cont\u00ednua 2021), existiriam cerca de 5.7 milh\u00f5es de jovens entre 15 e 24 anos com renda familiar per-capita de at\u00e9 \u00bc de sal\u00e1rio-m\u00ednimo, dos quais 2.8 milh\u00f5es no ensino m\u00e9dio, n\u00famero pr\u00f3ximo ao divulgado pelo governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os objetivos da lei s\u00e3o gen\u00e9ricos &#8211; democratizar o acesso, mitigar a desigualdade, estimular a mobilidade social, promover o desenvolvimento humano \u2013 e em nenhum lugar se indica como o incentivo contribuir\u00e1 para estes fins.&nbsp; O que est\u00e1 de tr\u00e1s, aparentemente, \u00e9 a ideia de que existe muita evas\u00e3o escolar no ensino m\u00e9dio, que ela afeta sobretudo jovens de baixa renda, e que isto pode ser corrigido com um est\u00edmulo financeiro. Nada disso \u00e9 certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de dar um dinheiro para manter as crian\u00e7as na escola \u00e9 antiga e vem do Bolsa Escola, que deu origem ao Bolsa Fam\u00edlia. O que se viu, no entanto, foi que as chamadas \u201ccondicionalidades\u201d praticamente n\u00e3o funcionavam. Com bolsa ou sem bolsa, havendo escolas, as fam\u00edlias mandavam os filhos, da mesma maneira que buscavam atendimento de sa\u00fade se havia servi\u00e7os dispon\u00edveis. Com suas limita\u00e7\u00f5es, o Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 importante como pol\u00edtica de renda, mas n\u00e3o tem como solucionar problemas n\u00e3o resolvidos das \u00e1reas de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A outra coisa que sabemos \u00e9 que o problema da deser\u00e7\u00e3o escolar \u00e9 muito menor do que se pensa. Os trabalhos de Philip Fletcher, S\u00e9rgio Costa Ribeiro e Ruben Klein mostraram, na d\u00e9cada de 80, que o problema n\u00e3o estava no abandono, e sim na repet\u00eancia. As crian\u00e7as permaneciam na escola, mas aprendiam pouco e iam ficando para tr\u00e1s.&nbsp; Depois se pensou que o abandono&nbsp; ocorria principalmente a partir do ensino fundamental 2, aos 11 anos de idade, e se acentuava no ensino m\u00e9dio. Mas os dados atuais mostram que praticamente n\u00e3o existe abandono at\u00e9 os 15 anos, e que ele n\u00e3o \u00e9 maior entre os mais pobres. Para estes, aos 14 anos, a percentagem que n\u00e3o estuda \u00e9 de 0,6%. H\u00e1 um pequeno aumento aos 15, para 2,6%, e s\u00f3 a partir da\u00ed cresce \u2013&nbsp; 4,8%, 14,2% e 49,3% para 16, 17 e 18 anos de idade. Dos 19 anos em diante, mais da metade dos jovens est\u00e1 fora da escola. Aos 19 anos, 27% s\u00f3 estudam, 12% estudam e trabalham, 27% s\u00f3 trabalham,&nbsp; e 33% engrossam o ex\u00e9rcito dos \u201cnem-nem\u201d.&nbsp;&nbsp;Isto ocorre em todas as faixas de renda. Mesmo nas fam\u00edlias mais ricas, de mais de 5 sal\u00e1rios m\u00ednimos\u2002mensais per capita, um ter\u00e7o dos jovens j\u00e1 est\u00e1 fora da escola aos 19 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe claramente um efeito de idade. Ao se aproximar da maioridade, os jovens precisam decidir o que fazer da vida, e a op\u00e7\u00e3o para a maioria \u00e9 deixar de estudar. H\u00e1 os que deixam a escola para trabalhar, mas poucos conseguem de fato uma ocupa\u00e7\u00e3o. A maioria abandona simplesmente porque ficou para tr\u00e1s, n\u00e3o entende e nem se motiva pelo que \u00e9 ensinado, e n\u00e3o v\u00ea perspectiva na corrida de obst\u00e1culos que \u00e9 concluir o ensino m\u00e9dio, fazer o ENEM e tentar uma faculdade. \u00c9 improv\u00e1vel que uma pequena bolsa de perman\u00eancia tenha mais do que um efeito marginal, j\u00e1 que ela \u00e9 desnecess\u00e1ria para os que continuam matriculados e incapaz de fazer com que os que j\u00e1 desistiram voltem \u00e0 escola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reforma do ensino m\u00e9dio de 2019, agora condenada pelo MEC, tentou lidar com parte deste problema ao abrir caminho para um ensino m\u00e9dio com conte\u00fados modernos, mais possibilidades de escolha e o fortalecimento de um ensino t\u00e9cnico mais pr\u00e1tico e apropriado para os milh\u00f5es que n\u00e3o querem ou n\u00e3o conseguem seguir os cursos tradicionais. Passar de um modelo \u00fanico, que deixa milh\u00f5es pelo caminho e se baseia em um curr\u00edculo elitista moldado pelo ENEM, para um outro com a complexidade requerida por uma educa\u00e7\u00e3o de massas, com profundas desigualdades e em meio a uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, n\u00e3o seria f\u00e1cil. Teorias pedag\u00f3gicas \u00e0 parte, tenho para mim que a principal raz\u00e3o da resist\u00eancia que a reforma encontra foi que ela mexe com as rotinas de trabalho do Minist\u00e9rio, das secretarias de educa\u00e7\u00e3o e dos professores das redes p\u00fablicas. Apesar disto, v\u00e1rias tentativas foram feitas de experimentar com curr\u00edculos inovadores, pluralidade de trajet\u00f3rias e cursos t\u00e9cnicos, que precisam ser  avaliadas e valorizadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma\u00a0 alternativa \u00a0que tem sido apresentada \u00e9 a escola m\u00e9dia de tempo integral. \u00a0Hoje, nas redes estaduais, somente 20% dos alunos est\u00e3o nestes cursos, enquanto um n\u00famero muito maior (que n\u00e3o aparece mais nas estat\u00edsticas do INEP) estuda em cursos noturnos em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias.\u00a0 Quando escolas de tempo integral s\u00e3o bem geridas e o curr\u00edculo \u00e9 inovador,\u00a0 o resultado pode ser interessante, mas isto pode ser tamb\u00e9m feito, a menor custo, com escolas diurnas regulares. Um bom uso do dinheiro do p\u00e9-de-meia, ali\u00e1s, seria destin\u00e1-lo a reduzir o ensino noturno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Duas frases simples resumem a moral desta hist\u00f3ria.&nbsp; No ensino m\u00e9dio, n\u00e3o \u00e9 o mercado que atrai os jovens, \u00e9 a m\u00e1 qualidade e inadequa\u00e7\u00e3o dos cursos que os expele. E n\u00e3o h\u00e1 como melhorar o que est\u00e1 ruim colocando dinheiro para ter mais do mesmo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 9 de fevereiro de 2014) Com a reforma do ensino m\u00e9dio estancada, o governo resolveu instituir o programa \u201cp\u00e9-de-meia\u201d, pelo qual estudantes de baixa renda do ensino m\u00e9dio que frequentem as aulas receber\u00e3o duzentos reais por m\u00eas e mais mil reais por ano completado, a serem recebidos ao &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/pe-de-meia\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;P\u00e9 de Meia&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-7425","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7425","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7425"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7425\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7433,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7425\/revisions\/7433"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}