{"id":7453,"date":"2024-03-02T08:08:27","date_gmt":"2024-03-02T11:08:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7453"},"modified":"2024-03-02T16:29:46","modified_gmt":"2024-03-02T19:29:46","slug":"sergio-fausto-confusa-teoria-anti-ocidental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/sergio-fausto-confusa-teoria-anti-ocidental\/","title":{"rendered":"S\u00e9rgio Fausto: confusa teoria anti-ocidental"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Artigo de S\u00e9rgio Fausto, publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 2 de mar\u00e7o de 2024)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos, tornou-se moda atribuir ao Ocidente grande parte dos males que acometem o mundo. A moda tem adeptos sobretudo na esquerda, mas tamb\u00e9m na extrema direita nacionalista sob influ\u00eancia do Kremlin. Num caso e noutro, o ataque ao Ocidente parte de \u00e2ngulos opostos, mas converge para um alvo comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui me interessa o campo da esquerda. Mal ou bem, com muitas contradi\u00e7\u00f5es, nele se situaram for\u00e7as que, desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, impulsionaram conquistas civilizat\u00f3rias da humanidade. Nele est\u00e1 uma nova gera\u00e7\u00e3o de ativistas, ainda em forma\u00e7\u00e3o, com energia para levar adiante, atualizando, o legado de gera\u00e7\u00f5es anteriores. Por isso, preocupa ver que ela se encanta com uma confusa ideologia antiocidental, que bateu asas a partir de uma vertente respeit\u00e1vel das ci\u00eancias humanas: o \u201cdecolonialismo\u201d, termo incorporado no Brasil diretamente do ingl\u00eas e do franc\u00eas, sem o \u201cs\u201d que permitiria descoloniz\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os adeptos do \u201cdecolonialismo\u201d, o Ocidente n\u00e3o seria a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o Iluminismo, as Revolu\u00e7\u00f5es Americana e Francesa, a democracia e os direitos humanos, e sim o colonialismo e a escravid\u00e3o que, sob novas formas, continuariam a ser os fatores principais da opress\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo. Nessa vis\u00e3o bin\u00e1ria, o salto cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico produzido na Europa a partir dos s\u00e9culos 16 e 17 \u00e9 visto como mero instrumento para a expans\u00e3o brutal do colonialismo. J\u00e1 o Iluminismo, no s\u00e9culo seguinte, \u00e9 reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ideologia justificadora da opress\u00e3o colonial, do trabalho escravo e do racismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, os \u201cdecolonialistas\u201d destacam seletivamente o restabelecimento da escravid\u00e3o nas col\u00f4nias francesas, com Napole\u00e3o, em lugar da sua aboli\u00e7\u00e3o em 1794. A Revolu\u00e7\u00e3o Americana, m\u00e3e das guerras de independ\u00eancia e parteira da primeira Rep\u00fablica no Novo Mundo, \u00e9 desvalorizada em seu conjunto pela n\u00f3doa da escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O erro dessa vis\u00e3o \u00e9 supor que um processo hist\u00f3rico t\u00e3o complexo e longo quanto a modernidade ocidental possa ser compreendido em bloco e submetido a um ju\u00edzo moral condenat\u00f3rio com base na ideia de que a \u201cparte boa\u201d nada mais \u00e9 do que uma ilus\u00e3o a encobrir a \u201cparte m\u00e1\u201d, esta sim reveladora da ess\u00eancia opressiva da modernidade ocidental. Trata-se de uma ideia avessa \u00e0 compreens\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es que constituem a realidade social, no passado e no presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 verdade \u2013 e nisso o \u201cdecolonialismo\u201d est\u00e1 coberto de raz\u00e3o \u2013 que a Europa se serviu da ci\u00eancia e da tecnologia para conquistar territ\u00f3rios, submeter e frequentemente escravizar popula\u00e7\u00f5es aut\u00f3ctones da \u00c1frica, Am\u00e9rica e \u00c1sia e da distor\u00e7\u00e3o das ideias iluministas para justificar o empreendimento colonial, primeiro, a expans\u00e3o imperialista, depois, e teorias absurdas e abjetas de superioridade racial. N\u00e3o menos verdadeiro, por\u00e9m, \u00e9 que os avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos e os novos valores da liberdade e da igualdade produzidos no Velho Continente permitiram e impulsionaram conquistas civilizacionais que beneficiaram a humanidade em seu conjunto nos s\u00e9culos seguintes. E continuam a benefici\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os mesmos valores professados de modo seletivo e praticados de maneira excludente, ao in\u00edcio, motivaram e orientaram grande parte das lutas emancipat\u00f3rias que progressivamente expandiram a esfera dos direitos fundamentais e ampliaram a sua aplica\u00e7\u00e3o no transcurso posterior da hist\u00f3ria. O fato de que a generaliza\u00e7\u00e3o dos valores liberais e democr\u00e1ticos ainda hoje seja parcial \u00e9 mais uma raz\u00e3o para reafirm\u00e1-los, sobretudo num momento hist\u00f3rico em que as for\u00e7as obscurantistas e reacion\u00e1rias ganham terreno em todas as partes do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, Thomas Jefferson foi um senhor de escravos. Mas o Pre\u00e2mbulo da Declara\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia dos Estados Unidos, escrito por ele, abriu um horizonte para lutas emancipat\u00f3rias que se desdobram at\u00e9 hoje, inclu\u00eddas as dos grupos (negros e mulheres, em especial) cujos direitos eram ent\u00e3o negados. A ideia de que os seres humanos, al\u00e9m de iguais e livres, t\u00eam o direito \u00e0 busca da felicidade (pursuit of happiness) ativou uma revolu\u00e7\u00e3o silenciosa duradoura contra formas expl\u00edcitas e impl\u00edcitas de domina\u00e7\u00e3o e cerceamento da subjetividade. Essa concep\u00e7\u00e3o dos seres humanos \u00e9 pr\u00f3pria do Iluminismo, impens\u00e1vel fora da sua tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Transformando-se em ideologia, o \u201cdecolonialismo\u201d substitui a perspectiva cr\u00edtica pertinente pela f\u00faria moral condenat\u00f3ria incapaz de separar o joio do trigo. Inadvertidamente, rejuvenesce velhas ideologias anti-imperialistas e autorit\u00e1rias presentes na esquerda, ao entusiasmar uma nova gera\u00e7\u00e3o de ativistas de muito valor, mas fr\u00e1gil forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado \u00e9 que parte significativa da esquerda silencia diante das atrocidades cometidas pelo Hamas, hesita em condenar a R\u00fassia na sua guerra de agress\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia, d\u00e1 de ombros diante da diferen\u00e7a crucial, para o mundo, entre dois homens igualmente brancos, h\u00e9teros e idosos que disputar\u00e3o a presid\u00eancia dos Estados Unidos, apoia qualquer iniciativa feita em nome do \u201cSul Global\u201d e, no Brasil, n\u00e3o compreende que o Pa\u00eds \u00e9, sim, parte do Ocidente, com as suas marcas pr\u00f3prias e singulares.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Artigo de S\u00e9rgio Fausto, publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 2 de mar\u00e7o de 2024) Nos \u00faltimos anos, tornou-se moda atribuir ao Ocidente grande parte dos males que acometem o mundo. A moda tem adeptos sobretudo na esquerda, mas tamb\u00e9m na extrema direita nacionalista sob influ\u00eancia do Kremlin. Num caso e noutro, o ataque &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/sergio-fausto-confusa-teoria-anti-ocidental\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;S\u00e9rgio Fausto: confusa teoria anti-ocidental&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":121,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-7453","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-democraciademocracy"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7453","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/121"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7453"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7453\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7456,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7453\/revisions\/7456"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}