{"id":7459,"date":"2024-03-08T06:40:39","date_gmt":"2024-03-08T09:40:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7459"},"modified":"2024-03-08T06:40:45","modified_gmt":"2024-03-08T09:40:45","slug":"ennio-candotti-e-o-progresso-da-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/ennio-candotti-e-o-progresso-da-ciencia\/","title":{"rendered":"\u00cannio Candotti e o Progresso da Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 8 de mar\u00e7o de 2024)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tempos atr\u00e1s, se voc\u00ea fosse brilhante e quisesse salvar o mundo, o caminho era se tornar f\u00edsico.&nbsp; Assim era e foi o que fez \u00cannio Candotti, que nos deixou em dezembro passado. Nascido na It\u00e1lia, \u00cannio chegou no Brasil ainda crian\u00e7a e estudou f\u00edsica na Universidade de S\u00e3o Paulo e depois na It\u00e1lia, procurando seguir os passos da gera\u00e7\u00e3o de Marcelo Damy, Mario Schenberg, Jos\u00e9 Leite Lopes, S\u00e9rgio Mascarenhas, Oscar Salla e outros que, na d\u00e9cada de 40, trouxeram para o Brasil os conhecimentos e as esperan\u00e7as que as descobertas dos segredos dos \u00e1tomos e do universo anunciavam. \u00cannio, nos anos mais recentes, foi o fundador e presidente do Museu da Amaz\u00f4nia, depois de ter sido, por quatro vezes, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia e criador da revista <em>Ci\u00eancia Hoje.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles eram n\u00e3o &nbsp;s\u00f3 cientistas, mas intelectuais p\u00fablicos. Por um lado, ajudavam a desvendar os segredos na natureza, trabalhando nos limites do que o racioc\u00ednio matem\u00e1tico, as observa\u00e7\u00f5es experimentais e a livre troca de ideias entre os pares permitiam. Por outro, acreditavam que, se os mesmos m\u00e9todos fossem aplicados para produzir riqueza e organizar a sociedade, o futuro estava garantido. Al\u00e9m pesquisar, se valiam das c\u00e1tedras para difundir suas ideias entre os alunos, escreviam nos jornais e se mobilizavam para que os governos dessem aos cientistas os recursos e a autonomia que precisavam para trabalhar. Em 1948, sessenta cientistas paulistas, em grande parte professores da USP, criaram a SBPC nos moldes da American Association for the Advancement of Science, estabelecida cem anos antes para &nbsp;\u201cpromover a coopera\u00e7\u00e3o entre cientistas, defender a liberdade cient\u00edfica, incentivar a responsabilidade cient\u00edfica e apoiar a educa\u00e7\u00e3o e a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para o bem da humanidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qual era exatamente este papel intelectual n\u00e3o era muito claro. Para muitos, o importante era fortalecer a cultura da ci\u00eancia, apoiando os cientistas, garantindo a autonomia da pesquisa e fazendo com que o p\u00fablico entendesse e respeitasse o trabalho que faziam. Se todos reconhecessem a import\u00e2ncia da ci\u00eancia, a racionalidade passaria a preponderar sobre a ignor\u00e2ncia, novas descobertas trariam benef\u00edcios para todos, e este seria o caminho do progresso. Para outros, era necess\u00e1rio ir al\u00e9m, e direcionar a pesquisa para atender \u00e0s prioridades da economia e sociedade. Para outros ainda, era necess\u00e1rio empreender uma luta pol\u00edtica pelo predom\u00ednio da raz\u00e3o sobre o obscurantismo, que era tamb\u00e9m uma luta dos oprimidos contra os opressores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A SBPC influenciou a cria\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa de S\u00e3o Paulo, em 1962, e durante o governo militar suas reuni\u00f5es anuais, com milhares de participantes, tinham grande repercuss\u00e3o,&nbsp; como espa\u00e7o livre de express\u00e3o de ideias que desafiavam o regime. A SBPC era conduzida por cientistas de renome, como Maur\u00edcio Rocha e Silva, Jos\u00e9 Goldemberg, Oscar Salla e Mauro Salzano, que davam respaldo a suas atividades. Com a democratiza\u00e7\u00e3o, os cientistas da nova gera\u00e7\u00e3o come\u00e7aram a priorizar suas associa\u00e7\u00f5es especializadas, e a SBPC passou a se dedicar cada vez mais \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e temas de pol\u00edtica universit\u00e1ria e acad\u00eamica. \u00cannio Candotti assumiu a vice-presid\u00eancia 1985, quando j\u00e1 tinha, na pr\u00e1tica, deixado a vida de pesquisador para, a partir da\u00ed, se dedicar ao papel de &nbsp;intelectual p\u00fablico, divulgador e defensor da ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O relativo esvaziamento da SBPC, que tamb\u00e9m afetou a Academia Brasileira de Ci\u00eancias no Rio de Janeiro, se explica em parte pelas incertezas que, sobretudo ap\u00f3s a segunda guerra, passam a afetar o mundo da ci\u00eancia. A f\u00edsica trazia a promessa da energia barata e inesgot\u00e1vel, mas seu primeiro grande produto foi a bomba at\u00f4mica.&nbsp; As ci\u00eancias biol\u00f3gicas e agr\u00edcolas mostraram como reduzir as epidemias e a fome, mas, em muitas partes do mundo, as pessoas continuam morrendo por desnutri\u00e7\u00e3o e falta de tratamento. Os investimentos da pesquisa se concentram cada vez mais em aplica\u00e7\u00f5es civis e militares, produzindo conhecimentos que se mant\u00eam em segredo, enquanto a pesquisa aberta, das universidades, tem perdido relev\u00e2ncia. E a pr\u00f3pria carreira de pesquisador, antes uma voca\u00e7\u00e3o de poucos idealistas, se transformou em uma profiss\u00e3o como as outras, pressionada pela l\u00f3gica de \u201cpublicar ou morrer\u201d e afetada pela incertezas &nbsp;da pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pandemia da Covid levou os paradoxos da ci\u00eancia moderna a seu extremo. Por um lado, a revolu\u00e7\u00e3o que foi a produ\u00e7\u00e3o de vacinas usando os conhecimentos mais avan\u00e7ados de engenharia gen\u00e9tica; por outro, a grande onda de desconfian\u00e7a e rea\u00e7\u00e3o a seu uso, destruindo o consenso quase universal sobre a import\u00e2ncia das imuniza\u00e7\u00f5es. Aqui, como em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia, \u00cannio Candotti tinha raz\u00e3o: a ci\u00eancia \u00e9 cada vez mais necess\u00e1ria e importante, n\u00e3o h\u00e1 como voltar atr\u00e1s. Mas hoje sabemos que n\u00e3o basta mais proclamar suas virtudes e falar mal da ignor\u00e2ncia, \u00e9 necess\u00e1rio lidar com coragem com as contradi\u00e7\u00f5es e paradoxos que ela traz. \u00c9 isto que, no s\u00e9culo 21, as sociedades cient\u00edficas precisam aprender a fazer.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 8 de mar\u00e7o de 2024) Tempos atr\u00e1s, se voc\u00ea fosse brilhante e quisesse salvar o mundo, o caminho era se tornar f\u00edsico.&nbsp; Assim era e foi o que fez \u00cannio Candotti, que nos deixou em dezembro passado. 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