{"id":7466,"date":"2024-04-13T09:26:17","date_gmt":"2024-04-13T12:26:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7466"},"modified":"2024-04-13T09:26:20","modified_gmt":"2024-04-13T12:26:20","slug":"a-inflacao-de-diplomas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-inflacao-de-diplomas-2\/","title":{"rendered":"A infla\u00e7\u00e3o de diplomas \u2013 2"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu<a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/inflacao-de-diplomas\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/inflacao-de-diplomas\/\"> artigo recente sobre o crescente descompasso entre a educa\u00e7\u00e3o superior e o mercado de trabalho no Brasil <\/a>provocou alguns coment\u00e1rios sobre aspectos importantes do problema que eu n\u00e3o teria como tratar nos limites de espa\u00e7o de um artigo de jornal. Ant\u00f4nio Augusto Prates, meu colega soci\u00f3logo da UFMG, escreve que \u00e9 o prest\u00edgio do diploma, mais do que a busca de qualifica\u00e7\u00e3o profissional, que tem motivado tanto a procura por educa\u00e7\u00e3o superior quanto as pol\u00edticas p\u00fablicas para o setor. Segundo ele, &nbsp;\u201cas pessoas est\u00e3o dispostas a pagar pelas defici\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o profissional em troca do acesso \u00e0 graus superiores na escala de prest\u00edgio social. Nesse caso \u00e9 o mercado de bens simb\u00f3licos que afeta sobremaneira as decis\u00f5es pol\u00edticas sobre a expans\u00e3o do ensino superior\u201d. &nbsp;Eduardo Oliveira Beltrame, cientista catarinense que hoje trabalha no Instituto de Tecnologia da Calif\u00f3rnia (Caltech), menciona a refer\u00eancia que fa\u00e7o aos aspectos mais gerais da educa\u00e7\u00e3o, como forma\u00e7\u00e3o cultural, valores e capacidade de aprender, e&nbsp; diz que, &nbsp;\u2018dada a acelera\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es pelas quais a sociedade e mundo passam nos \u00faltimos 150 anos, mas sobretudo nas \u00faltimas d\u00e9cadas (principalmente mudan\u00e7as culturais, tecnol\u00f3gicas, ambientais, e os modos de vida decorrentes da nossa avassaladora urbaniza\u00e7\u00e3o), eu penso que estes outros aspectos da educa\u00e7\u00e3o que transcendem a quest\u00e3o do mercado de trabalho s\u00e3o na verdade os mais importantes\u201d.&nbsp; E o soci\u00f3logo Jos\u00e9 Pastore, especialista em mercado de trabalho, em coment\u00e1rio enviado ao jornal <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>,&nbsp; chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, no Brasil, a grande maioria das ocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o requer muita educa\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00e3o ocupa\u00e7\u00f5es simples, rudimentares, de baixos sal\u00e1rios e muita rotatividade: balconistas, ajudantes, gar\u00e7ons, dom\u00e9sticas\u2026\u201d&nbsp; A educa\u00e7\u00e3o poderia ajudar mais se os empregos fossem de melhor qualidade, diz ele, mas \u201cisso n\u00e3o mudar\u00e1 de repente porque \u00e9 reflexo de nossa hist\u00f3rica estrutura de produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Beltrame tamb\u00e9m pergunta por refer\u00eancias que tratam do tema da educa\u00e7\u00e3o em sentido mais amplo, que vai al\u00e9m do mercado de trabalho. \u00c9 importante, aqui, distinguir a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, cujo objetivo \u00e9 forma\u00e7\u00e3o geral, da educa\u00e7\u00e3o superior, em que o tema do mercado de trabalho \u00e9 mais central, embora n\u00e3o seja o \u00fanico. Participei alguns anos atr\u00e1s de um grupo de trabalho de um projeto denominado \u201cInternational Panel for Social Progress\u201d que preparou um documento que apontava para quatro grandes fun\u00e7\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o geral e human\u00edstica, a forma\u00e7\u00e3o para a cidadania, a prepara\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho e a busca de equidade. Existe uma tradu\u00e7\u00e3o do texto para o portugu\u00eas, e \u00e9 uma tentativa de dar um panorama bem abrangente do tema, nos diferentes n\u00edveis e contextos (Spiel and Schwartzman 2018a; Spiel and Schwartzman 2018b). Sobre a educa\u00e7\u00e3o superior e sua rela\u00e7\u00e3o com o mercado de trabalho, recomendaria a vis\u00e3o comparativa proporcionada por Ulrich Teichler, o decano das pesquisas sobre educa\u00e7\u00e3o superior, em artigo de 2018, entre outros ((Teichler 2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto de Teichler \u00e9 importante pela vis\u00e3o comparativa que tr\u00e1s. \u00c9 muito diferente falar de educa\u00e7\u00e3o superior em pa\u00edses em que metade ou mais dos jovens chegam a este n\u00edvel e em outros em que s\u00f3 uns poucos t\u00eam este privil\u00e9gio; e \u00e9 muito diferente falar em sistemas em que a educa\u00e7\u00e3o superior est\u00e1 orientada para a forma\u00e7\u00e3o geral, como nos \u201ccolleges\u201d&nbsp; ingleses, e outros em que ela est\u00e1 estruturada para proporcionar diplomas profissionais, como na tradi\u00e7\u00e3o francesa que o Brasil herdou. Em todos eles existe sempre a dimens\u00e3o&nbsp; simb\u00f3lica e de prest\u00edgio de que fala Prates, mas existe tamb\u00e9m a expectativa de que o \u201cstatus\u201d proporcionado pela educa\u00e7\u00e3o superior traga outros benef\u00edcios, como empregos rent\u00e1veis e reconhecimento social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo de Bologna, adotado hoje pela maioria dos pa\u00edses da Europa Ocidental, consiste em levar a educa\u00e7\u00e3o geral at\u00e9 os tr\u00eas primeiros anos da educa\u00e7\u00e3o superior, e s\u00f3 a partir da\u00ed abrir o leque para a especializa\u00e7\u00e3o profissional, atrav\u00e9s de mestrados e cursos mais avan\u00e7ados. O sistema de \u201ccolleges\u201d, de educa\u00e7\u00e3o geral, que o modelo de Bologna adota, tem como origem a experi\u00eancia extremamente elitista das universidades inglesas e americanas de grande prest\u00edgio, como Oxford, Cambridge, Havard e Yale, adotado tamb\u00e9m pelos chamados \u201cliberal arts colleges\u201d como Amherst, Swarthmore e Wellesley nos Estados Unidos, e outros na Inglaterra como London, Birmingham etc. \u00a0S\u00e3o cursos para poucos, muito seletivos, e seus alunos t\u00eam acesso praticamente garantido a carreiras de alto prest\u00edgio e reconhecimento.\u00a0 Mas n\u00e3o \u00e9 nada claro que este modelo possa ser universalizado,\u00a0 como pretende o processo de Bologna. Na Europa, ao lado das carreiras universit\u00e1rias tradicionais, os pa\u00edses possuem tamb\u00e9m amplos sistemas de forma\u00e7\u00e3o profissional, ou vocacional, que j\u00e1 come\u00e7a no n\u00edvel m\u00e9dio, e do qual participa a metade ou mais dos jovens. Nos Estados Unidos, boa parte dos jovens vai para os community colleges de dois anos, e n\u00e3o completam os quatro anos de forma\u00e7\u00e3o geral. Os dados mais recentes, para a popula\u00e7\u00e3o americana entre 25 e 34 anos, mostram que 91% completam o ensino m\u00e9dio, mas s\u00f3 38% completam o college de 4 anos, que \u00e9 considerado como um t\u00edtulo pr\u00e9-universit\u00e1rio (\u201cundergraduate\u201d)<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Existam algumas tentativas de desenvolver cursos superiores de forma\u00e7\u00e3o geral no Brasil, os chamados \u201cbacharelados interdisciplinares\u201d, mas s\u00e3o experi\u00eancias limitadas e que ainda precisam ser melhor avaliadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, o coment\u00e1rio de Pastore aponta para o fato, mencionado brevemente em meu artigo, de que a educa\u00e7\u00e3o, sozinha, \u00e9 incapaz de criar um mercado de trabalho de alta qualidade e produtividade, como supunha a teoria do \u201ccapital humano\u201d desenvolvida pelos economistas da educa\u00e7\u00e3o. Em muitos pa\u00edses, pessoas altamente qualificadas por universidades locais acabam imigrando para pa\u00edses em que o mercado de trabalho \u00e9 mais atrativo, da mesma maneira que o capital gerado localmente acaba sendo investido no exterior. &nbsp;A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, mas n\u00e3o \u00e9 capaz de, sozinha, compensar pelas pol\u00edticas econ\u00f4micas, financeiras e institucionais inadequadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isto leva a quest\u00f5es importantes de como e quanto o pa\u00eds deve investir nos diferentes tipos e n\u00edveis educacionais. &nbsp;Deveria ser claro que prioridade deveria ser o investimento na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de qualidade, mas a press\u00e3o por investimentos em educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia e superior \u00e9 sempre grande, e recentemente o governo anunciou a inten\u00e7\u00e3o de criar mais cem institutos federais de tecnologia, que, ao contr\u00e1rio do que se imagina, n\u00e3o formam pessoas com prepara\u00e7\u00e3o adequada para o mercado de trabalho, e sim licenciados e bachar\u00e9is destinados em grande parte ao subemprego, como ocorre com grande parte dos formados no ensino superior tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Spiel, Christiane, and Simon Schwartzman. 2018a. &#8220;A contribui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o para o progresso social.&#8221; <em>Ci\u00eancia &amp; Tr\u00f3pico<\/em> 42(1):22-88.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014. 2018b. &#8220;The contribution of education to social progress.&#8221; Pp. 751-76 in <em>Rethinking Society for the 21st Century<\/em>, edited by International Panel for Social Progress: Cambridge University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teichler, Ulrich. 2018. &#8220;Higher education and graduate employment: Changing conditions and challenges.&#8221; <em>International Centre for Higher Education Research: Kassel, Germany<\/em>:7-33.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> https:\/\/data.census.gov\/table\/ACSST1Y2021.S1501?t=Educational+Attainment&amp;g=010XX00US,$0400000&amp;y=2021<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu artigo recente sobre o crescente descompasso entre a educa\u00e7\u00e3o superior e o mercado de trabalho no Brasil provocou alguns coment\u00e1rios sobre aspectos importantes do problema que eu n\u00e3o teria como tratar nos limites de espa\u00e7o de um artigo de jornal. 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