{"id":7476,"date":"2024-06-14T06:46:47","date_gmt":"2024-06-14T09:46:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7476"},"modified":"2024-06-24T18:47:59","modified_gmt":"2024-06-24T21:47:59","slug":"cem-novos-institutos-federais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/cem-novos-institutos-federais\/","title":{"rendered":"Cem novos institutos federais?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo,<\/em> 14 de junho de 2024)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final de mar\u00e7o, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o anunciou a cria\u00e7\u00e3o de cem novos Institutos Federais de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia. Alguns jornais saudaram a iniciativa, dizendo que, finalmente, o governo estava dando aten\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e profissional. Fiquei sem entender: como \u00e9 que o governo federal, que mal consegue manter suas universidades e institutos funcionando, vai criar mais cem? E ser\u00e1 que, criando, vai fazer diferen\u00e7a? &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estes institutos foram criados em 2008, a partir de uma rede de Centros Federais de Educa\u00e7\u00e3o T\u00e9cnica de n\u00edvel m\u00e9dio que existiam em v\u00e1rios Estados. Seus professores e funcion\u00e1rios foram equiparados aos das universidades federais, novos cargos foram criados, e, al\u00e9m de cursos t\u00e9cnicos de n\u00edvel m\u00e9dio, eles passaram tamb\u00e9m a poder dar cursos superiores e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0 Hoje, s\u00e3o 39 institutos e dois que continuam como CEFETs. \u00c9 dif\u00edcil saber exatamente o que fazem, os dados s\u00e3o escassos e confusos, mas, pelas estat\u00edsticas do INEP, eles t\u00eam cerca de 230 mil alunos em cursos de gradua\u00e7\u00e3o e 320 mil na educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, matriculados em cerca de 600 locais diferentes, a grande maioria em cursos integrados com o ensino profissional. Al\u00e9m disto, t\u00eam cerca de 4 mil estudantes em cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, quase todos de mestrado. O projeto do MEC n\u00e3o \u00e9, na verdade, de criar cem institutos, mas cem novos locais para os cursos de ensino m\u00e9dio, o que poderia significar cerca de 50 mil matr\u00edculas adicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entrar nestes cursos m\u00e9dios, \u00e9 preciso passar por um processo seletivo, e as vantagens para os que conseguem s\u00e3o grandes. Eles estudam em tempo integral e os colegas s\u00e3o mais qualificados, criando um ambiente mais estimulante. Os professores tamb\u00e9m s\u00e3o mais qualificados, ganham mais do que os das redes estaduais, o n\u00famero de alunos por professor \u00e9 menor, e as instala\u00e7\u00f5es s\u00e3o melhores.&nbsp; E, quando fazem o ENEM, os formados entram nas cotas de estudantes das redes p\u00fablicas, ficando nos primeiros lugares. Esses cursos t\u00eam sido propostos como o modelo ideal para o ensino t\u00e9cnico m\u00e9dio no Brasil, mas os alunos, por serem selecionados e estudarem em escolas de qualidade,&nbsp; tratam de ingressar em universidades em vez de se profissionalizarem como t\u00e9cnicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os cursos superiores, seria de se esperar que os alunos estivessem sobretudo em cursos &nbsp;aplicados de curta dura\u00e7\u00e3o(o que no Brasil se chama de \u201ccursos tecnol\u00f3gicos\u201d).&nbsp; Isto ocorre, mas bem menos do que seria de se esperar: 26% comparado com 30% em cursos de forma\u00e7\u00e3o de professores (licenciaturas) e 44% em cursos tradicionais de bacharelado. Das \u00e1reas de estudo, um ter\u00e7o est\u00e1 em educa\u00e7\u00e3o, 44% em cursos de engenharia e computa\u00e7\u00e3o, e os demais dispersos em outras \u00e1reas.&nbsp; Estes institutos sofrem com uma praga conhecida que afeta o ensino profissional em muitas partes, a press\u00e3o para se tornarem o mais parecido poss\u00edvel com universidades, \u00e0 custa das miss\u00f5es originais para as quais teriam sido criados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso dos institutos \u00e9 semelhante ao das universidades federais.&nbsp; Come\u00e7a-se com um modelo idealizado, caro e em pequena escala, e depois n\u00e3o se consegue expandir, seja pelas limita\u00e7\u00f5es do modelo, que se desvirtua, seja pela falta de recursos. Os institutos federais s\u00e3o uma gota d\u2019\u00e1gua: cerca de 2 a 3% das matr\u00edculas, tanto do ensino m\u00e9dio quanto do ensino superior e tecnol\u00f3gico. &nbsp;Daria para aumentar? Os Institutos Federais custaram, em 2022, cerca de 18 bilh\u00f5es de reais, comparado com os 56 bilh\u00f5es das demais 80 institui\u00e7\u00f5es superiores federais. A quase totalidade destes custos vai para pessoal, sobrando quase nada para investimentos e custeio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Nos cursos de gradua\u00e7\u00e3o, partiu-se com a ideia de uma universidade p\u00fablica, universal, gratuita e fundada na pesquisa. Hoje, quase 80% das matr\u00edculas do ensino superior est\u00e3o no setor privado, e poucas universidades p\u00fablicas conseguem manter atividades de pesquisa mais significativa. A educa\u00e7\u00e3o superior tecnol\u00f3gica vem se expandindo, mas sobretudo no setor privado. Na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, criou-se um sistema controlado&nbsp; e subsidiado para formar mestres e doutores, mas a maioria de seus estudantes n\u00e3o t\u00eam interesse em fazer carreira&nbsp; em pesquisa, as matr\u00edculas est\u00e3o caindo, e a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o lato senso \u00e9 muito maior, desregulada e n\u00e3o se sabe bem o que faz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o central \u00e9 qual o papel adequado para o governo federal e dos estados quando os gastos p\u00fablicos n\u00e3o t\u00eam mais como expandir e as demandas e necessidades da sociedade v\u00e3o muito al\u00e9m do que os governos podem proporcionar. A cria\u00e7\u00e3o de 10 novos campi universit\u00e1rios no modelo tradicional, anunciada esta semana, assim como a restri\u00e7\u00f5es recentes aos cursos de educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, mostra que o governo federal ainda n\u00e3o entendeu o problema. Melhorar o papel regulat\u00f3rio, estimular boas pr\u00e1ticas, concentrar os recursos existentes em atividades estrat\u00e9gicas de relev\u00e2ncia, qualidade e equidade, e estimular estados e munic\u00edpios e o setor privado a canalizar melhor suas energias, parece fazer mais sentido do que insistir em, simplesmente, fazer mais do mesmo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 14 de junho de 2024) No final de mar\u00e7o, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o anunciou a cria\u00e7\u00e3o de cem novos Institutos Federais de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia. Alguns jornais saudaram a iniciativa, dizendo que, finalmente, o governo estava dando aten\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e profissional. 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