{"id":7493,"date":"2024-09-13T06:10:49","date_gmt":"2024-09-13T09:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7493"},"modified":"2024-09-13T06:15:56","modified_gmt":"2024-09-13T09:15:56","slug":"a-radicalidade-de-inez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-radicalidade-de-inez\/","title":{"rendered":"A radicalidade de Inez"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em<em> O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 13 de setembro de 2024)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">       <em>   \u201cSer radical \u00e9 tomar as coisas pela raiz. Ora, para as\u00a0 pessoas, a raiz \u00e9 a pr\u00f3pria pessoa\u201d (Karl Marx)<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Inez-scaled.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"1800\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Inez-1200x1800.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7494\" style=\"width:337px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Inez-1200x1800.jpeg 1200w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Inez-744x1116.jpeg 744w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Inez-420x630.jpeg 420w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Inez-768x1152.jpeg 768w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Inez-1024x1536.jpeg 1024w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Inez-scaled.jpeg 1365w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste m\u00eas me despe\u00e7o de Inez Farah, companheira querida de meio s\u00e9culo. Neta de imigrantes, carioca, professora, psic\u00f3loga, m\u00e3e, Inez faz parte da hist\u00f3ria das mulheres brasileiras e cariocas, radicalmente modernas, que ainda precisa ser mais bem contada, antes que a p\u00f3s-modernidade as sepulte de vez.<br>No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, imigrantes de Portugal, It\u00e1lia, Jap\u00e3o, mas tamb\u00e9m do Oriente M\u00e9dio e Europa Central, vinham aos milh\u00f5es para o Brasil, fugindo das guerras e persegui\u00e7\u00f5es, buscando um lugar em que pudessem viver em paz, trabalhar e formar suas fam\u00edlias. Os av\u00f3s de Inez, crist\u00e3os s\u00edrio-libaneses, tal como os meus, judeus, faziam parte destas levas, trabalhando no com\u00e9rcio, dando cr\u00e9dito quando as grandes lojas ainda n\u00e3o existiam, e investindo na educa\u00e7\u00e3o dos filhos. Os homens iam \u00e0 luta para ganhar dinheiro e as mulheres se casavam cedo, tinham um filho por ano e se refugiavam na religi\u00e3o. N\u00e3o Inez. Uma de sete irm\u00e3os, n\u00e3o escapa da primeira comunh\u00e3o, e \u00e9 enviada cedo para o col\u00e9gio interno Santos dos Anjos em Vassouras. Indisciplinada, aproveita as deten\u00e7\u00f5es de fim de semana para se tornar amiga das madres francesas e conversar sobre literatura e artes. Depois se muda do interior para a casa da av\u00f3 na zona norte do Rio de Janeiro, onde se prepara para ingressar no Instituto de Educa\u00e7\u00e3o.<br>Nos anos 50, no Brasil, poucos estudavam, e metade da popula\u00e7\u00e3o era analfabeta. Mas o pa\u00eds se modernizava, e as fam\u00edlias tradicionais no Rio de Janeiro mandavam seus filhos para os col\u00e9gios cat\u00f3licos, como o S\u00e3o Bento e Santo In\u00e1cio para os homens, e o Sacre C\u0153ur de Marie para as mo\u00e7as. Para os filhos de imigrantes e das novas classe m\u00e9dias, as alternativas eram o Col\u00e9gio Pedro II e o Instituto de Educa\u00e7\u00e3o, p\u00fablicos e gratuitos, que davam acesso \u00e0s carreiras universit\u00e1rias para os homens e ao magist\u00e9rio para as mulheres. Os exames de admiss\u00e3o eram dif\u00edceis, os professores os melhores que havia, e a educa\u00e7\u00e3o, laica. Inez se encanta com a qualidade do ensino e das instala\u00e7\u00f5es do Instituto, participa do gr\u00eamio e do jornal dos estudantes. Em 1958, aos 19 anos, se forma como professora e j\u00e1 sai contratada pelo governo do Estado. Enquanto alfabetiza crian\u00e7as na Zona Norte, se candidata para o novo curso de psicologia na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica na Zona Sul. Se forma em 1962 e \u00e9 promovida, no Estado, para trabalhar no \u201cServi\u00e7o de \u201cOrtofrenia e Psicologia\u201d, do Instituto de Pesquisas Educacionais.<br>A palavra \u201cortofrenia\u201d era um resqu\u00edcio das ideias eugenistas que imperavam na sa\u00fade p\u00fablica brasileira at\u00e9 antes da guerra, e o trabalho inclu\u00eda a sele\u00e7\u00e3o de diretores de escola e orienta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica para orientadores educacionais e professores. Mas o que interessava mesmo a Inez era o entendimento radical que a psican\u00e1lise havia trazido sobre o desenvolvimento da personalidade infantil, atrav\u00e9s de autores ingleses como Melaine Klein, D. Winnicott e W. R. Bion, cujos livros fazem parte de sua biblioteca daqueles anos. Independente e agora com dinheiro, compra um pequeno apartamento em Ipanema, frequenta as praias da Zona Sul e come\u00e7a a trabalhar como psic\u00f3loga cl\u00ednica. N\u00e3o atua na pol\u00edtica, mas tem lado: depois do golpe de 64, por mais de uma vez seu velho fusca serviu para transportar militantes procurados, e teve a casa invadida por militares armados em busca de um irm\u00e3o.<br>A pr\u00e1tica da psican\u00e1lise naqueles anos era controlada por m\u00e9dicos, quase todos homens, reunidos nas sociedades psicanal\u00edticas. Inez contribui para quebrar o monop\u00f3lio ao dar aulas e organizar um curso pioneiro de especializa\u00e7\u00e3o em psicologia cl\u00ednica na PUC, cujas alunas eram sobretudo mulheres. Logo depois surge outro monop\u00f3lio, o dos graduados em mestrados e doutorados. Inez n\u00e3o v\u00ea sentido em fazer, s\u00f3 pelo t\u00edtulo, uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em psicologia experimental, e acaba deixando a universidade. Aos poucos, os antigos monop\u00f3lios s\u00e3o substitu\u00eddos por novos modismos das diferentes correntes psicanal\u00edticas, aos quais Inez, c\u00e9tica, se recusa a aderir. Na busca de novos caminhos, se especializa em terapia de fam\u00edlia e promove a tradu\u00e7\u00e3o, para o portugu\u00eas, do livro de T. Berry Brazelton sobre crian\u00e7as e m\u00e3es, que nos ensina que cada crian\u00e7a \u00e9 \u00fanica, e precisa ser reconhecida e respeitada em suas diferen\u00e7as pelos pais, ao mesmo tempo em que cada um, \u00e0 sua maneira, pode sempre mais.<br>Profissional estabelecida, passados dos 30 anos, era chegada a hora de investir na pr\u00f3pria fam\u00edlia, ao mesmo tempo em que continua a marcar a vida de tantos em seu trabalho. Foi quando nos conhecemos, e passamos juntos d\u00e9cadas de muita alegria e perdas importantes, que ela vivia com for\u00e7a, anima\u00e7\u00e3o e dor, muitas vezes ao mesmo tempo. Entre filhos, obras na casa, mousse de chocolate, orqu\u00eddeas, viagens, pacientes e amigas fi\u00e9is de toda a vida, Inez foi sempre a grande companheira e c\u00famplice, minha, dos filhos e de tantos mais. Radical em seu compromisso com as pessoas, e moderna em aceitar as diferen\u00e7as e apostar na possibilidade de cada um de construir seu pr\u00f3prio caminho, como ela mesma sempre fez.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 13 de setembro de 2024) \u201cSer radical \u00e9 tomar as coisas pela raiz. Ora, para as\u00a0 pessoas, a raiz \u00e9 a pr\u00f3pria pessoa\u201d (Karl Marx) Neste m\u00eas me despe\u00e7o de Inez Farah, companheira querida de meio s\u00e9culo. 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