{"id":7498,"date":"2024-10-11T08:09:55","date_gmt":"2024-10-11T11:09:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7498"},"modified":"2024-10-11T08:09:59","modified_gmt":"2024-10-11T11:09:59","slug":"recordistas-mundiais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/recordistas-mundiais\/","title":{"rendered":"Recordistas mundiais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 11 de novembro de 2024)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior de 2023, publicado recentemente,  confirma que somos recordistas mundiais em pelo menos duas coisas, a propor\u00e7\u00e3o de estudantes em institui\u00e7\u00f5es privadas, 80%, e em cursos \u00e0 dist\u00e2ncia, metade. No setor p\u00fablico, somente 10% dos alunos est\u00e3o em cursos \u00e0 dist\u00e2ncia; no setor privado, 60%.\u00a0 S\u00e3o ao todo cerca de 10 milh\u00f5es de estudantes: 27% em cursos de neg\u00f3cios, administra\u00e7\u00e3o e direito; 22% na \u00e1rea de sa\u00fade e bem-estar; e 17% na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o. Nas engenharias s\u00e3o 9%, na computa\u00e7\u00e3o 7%, e, nas ci\u00eancias naturais, 1.3%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil n\u00e3o difere muito da maioria dos pa\u00edses, mas exagera. Em quase todo o mundo, tamb\u00e9m, s\u00e3o tr\u00eas as \u00e1reas com mais estudantes: administra\u00e7\u00e3o (inclu\u00eddo economia, neg\u00f3cios e direito) sa\u00fade (incluindo medicina) e educa\u00e7\u00e3o. A principal diferen\u00e7a do Brasil \u00e9 o tamanho diminuto das \u00e1reas de ci\u00eancias naturais e engenharias. Nos \u00faltimos anos, em quase toda parte, a educa\u00e7\u00e3o superior privada cresceu, assim como a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia. O setor privado cresceu porque o setor p\u00fablico n\u00e3o d\u00e1 conta de atender toda a demanda, e a venda de servi\u00e7os de&nbsp; ensino se transformou em um bom neg\u00f3cio. Al\u00e9m disto, o setor privado conta geralmente com mais autonomia e capacidade empresarial para ir atr\u00e1s de sua clientela.&nbsp; O alunos das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas s\u00e3o em geral &nbsp;jovens de origem social m\u00e9dia ou alta que completam o ensino m\u00e9dio de qualidade e conseguem passar com boas notas nos processos seletivos. Para os mais velhos, geralmente mais pobres, que terminam o ensino m\u00e9dio com dificuldade e precisam trabalhar, a alternativa eram os cursos noturnos em institui\u00e7\u00f5es privadas. A pandemia mostrou que era poss\u00edvel dar estes mesmos conte\u00fados \u00e0 dist\u00e2ncia a um menor custo, e isto se tornou irrevers\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A principal explica\u00e7\u00e3o para nossos extremos \u00e9 o elitismo do modelo adotado na reforma universit\u00e1ria de 1968, que perdura em suas linhas gerais. A reforma procurou trazer para o Brasil um modelo \u00fanico de universidade de pesquisa vagamente inspirado na universidade alem\u00e3 do in\u00edcio do s\u00e9culo 19 e adotado por algumas universidades americanas, com professores doutores trabalhando em tempo integral, envolvidos em atividades de ensino e pesquisa e alunos bem qualificados e estudando tamb\u00e9m em tempo integral. \u00c9 um modelo que custa caro e n\u00e3o tem como dar conta da crescente demanda por educa\u00e7\u00e3o superior que s\u00f3 come\u00e7aria no Brasil a partir da d\u00e9cada 70, vinda de estudantes que chegam do ensino m\u00e9dio com forma\u00e7\u00e3o menos rigorosa e precisando trabalhar. Os pa\u00edses que conseguiram lidar com esta transi\u00e7\u00e3o foram o que os que mantiveram e at\u00e9 ampliaram a presen\u00e7a de suas institui\u00e7\u00f5es de elite, mas tamb\u00e9m investiram em outras modalidades de ensino profissional e t\u00e9cnico, j\u00e1 a partir do ensino m\u00e9dio. O Brasil insistiu em um modelo p\u00fablico \u00fanico que se manteve imut\u00e1vel na forma, mas, ao se ampliar de maneira for\u00e7ada, acabou se deteriorando em parte, criando grande desigualdade em seu interior e abrindo espa\u00e7o para que o setor privado expandisse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por muitos anos, o governo federal tratou o setor privado como um problema, e n\u00e3o como parte da solu\u00e7\u00e3o para sua incapacidade de ampliar e diversificar a oferta de educa\u00e7\u00e3o. O sistema de avalia\u00e7\u00e3o criado em 2004 tinha como principal objetivo controlar o setor privado, o que nunca conseguiu. E os governos do PT, &nbsp;supostamente contr\u00e1rios ao setor privado, ao se darem conta que s\u00f3 ele seria capaz de ampliar o acesso, passaram a subsidi\u00e1-lo atrav\u00e9s de dois mecanismos, as isen\u00e7\u00f5es fiscais do Prouni e o cr\u00e9dito estudantil garantido do FIES, fazendo com que ele se transformasse em um neg\u00f3cio cada vez mais vantajoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os governos tamb\u00e9m fizeram um esfor\u00e7o de ampliar o setor p\u00fablico, atrav\u00e9s dos financiamentos do programa Reuni, e de democratizar o acesso atrav\u00e9s da pol\u00edtica de cotas. Com a crise financeira a partir de 2015 e a rigidez burocr\u00e1tica e administrativa,&nbsp; o setor p\u00fablico s\u00f3 conseguiu passar de 1.6 para 1.9 milh\u00f5es de matr\u00edculas entre 2010 e 2020, enquanto o setor privado passava de 4,7 a 6,7 milh\u00f5es. Com a pol\u00edtica de cotas, a composi\u00e7\u00e3o social do alunos no setor p\u00fabico se tornou mais equitativa, mas foi o setor privado que abriu mais oportunidades de estudo para pessoas vindas de condi\u00e7\u00e3o social mais desfavor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tem a quest\u00e3o, nunca enfrentada, da m\u00e1 qualidade e das altas taxas abandono. Entre todos que&nbsp; entraram no ensino superior em 2019,&nbsp; as taxas de desist\u00eancia, em 2023, eram de 64% no ensino privado \u00e0 dist\u00e2ncia, em um extremo, e 42% no presencial p\u00fablico no outro. Dos que se formam, metade n\u00e3o consegue trabalhar em atividades de n\u00edvel superior. Cada vez h\u00e1 mais pessoas querendo estudar, cada vez mais os governos buscam subsidiar os estudos, mas n\u00e3o existe nenhum sistema que informe aos estudantes, aos futuros empregadores e aos pr\u00f3prios governos, em que institui\u00e7\u00f5es e \u00e1reas as pessoas t\u00eam mais chances de se qualificar a partir das condi\u00e7\u00f5es trazem e fazer uso de seus conhecimentos. O sistema incha, mas fica do mesmo tamanho.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 11 de novembro de 2024) O Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior de 2023, publicado recentemente, confirma que somos recordistas mundiais em pelo menos duas coisas, a propor\u00e7\u00e3o de estudantes em institui\u00e7\u00f5es privadas, 80%, e em cursos \u00e0 dist\u00e2ncia, metade. 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