{"id":75,"date":"2006-05-13T09:15:00","date_gmt":"2006-05-13T12:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=75"},"modified":"2008-08-03T18:02:01","modified_gmt":"2008-08-03T21:02:01","slug":"george-zarur-aprendizes-de-feiticeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/george-zarur-aprendizes-de-feiticeiro\/","title":{"rendered":"George Zarur: aprendizes de feiticeiro"},"content":{"rendered":"<p>Ge<span style=\"font-style: italic;\">orge de Cerqueira Leite Zarur, consultor legislativo da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara dos Deputados, publicou no O Globo  de 11 de maio de 2006 o seguinte artigo sobre o tema das pol\u00edticas raciais:<\/span><\/p>\n<p>Estamos todos sentindo que o Brasil em que vivemos \u00e9 muito pior do que o Brasil de algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos s\u00e9culos, estamos construindo nossa identidade na esperan\u00e7a de uma sociedade onde, conforme todos j\u00e1 ouvimos, em algum momento, \u201cser\u00e1 constru\u00edda uma nova civiliza\u00e7\u00e3o em que ser\u00e3o derrubadas as barreiras de ra\u00e7a, religi\u00e3o e classe\u201d. Vivemos o desenvolvimento econ\u00f4mico cont\u00ednuo por mais de setenta anos e nossa pele morena era motivo de orgulho. Havia e h\u00e1 muito preconceito, mas a miscigena\u00e7\u00e3o era entendida como nossa grande vantagem sobre os Estados Unidos e os pa\u00edses anglo-sax\u00f5es, que discriminam ostensivamente por ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Embora a segrega\u00e7\u00e3o legal tenha sido abolida nos Estados Unidos, ela continua central \u00e0 cultura norte-americana, como demonstra um aspecto absolutamente cr\u00edtico, o residencial, pois os negros vivem em guetos, em sua enorme maioria. S\u00e3o segregados por premissa, pois n\u00e3o \u00e9 importante para os anglo-sax\u00f5es classificar algu\u00e9m como \u201cmulato\u201d. A oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 entre \u201cbrancos\u201d e \u201cn\u00e3o brancos\u201d. A id\u00e9ia de \u201cpureza da ra\u00e7a\u201d branca \u00e9 muito forte, uma vez que basta ter uma gota de \u201csangue negro\u201d, para algu\u00e9m ser classificado como negro. Ser negro nos Estados Unidos, \u00e9 como ser portador de uma doen\u00e7a gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 negando sua identidade, ao abandonar a miscigena\u00e7\u00e3o como valor central \u00e0 sua cultura. H\u00e1 diferentes fatores atuando neste sentido. A freada de trinta anos no desenvolvimento econ\u00f4mico \u00e9 um deles. Outro \u00e9 o desespero com a corrup\u00e7\u00e3o e os caminhos da pol\u00edtica. Nossa auto-estima est\u00e1 no ch\u00e3o. Assim, em vez de resgatar nossa identidade de na\u00e7\u00e3o brasileira &#8211; barco do qual somos todos passageiros e tripulantes \u2013 est\u00e3o querendo acabar com o nosso projeto cultural de muitos s\u00e9culos e construir na\u00e7\u00f5es separadas de negros e de brancos, como acontece nos Estados Unidos. O direito \u00e0 diferen\u00e7a, eixo central da democracia, \u00e9 confundido com a associa\u00e7\u00e3o esp\u00faria entre ra\u00e7a e cultura.<\/p>\n<p>Um outro fator que contribui para a importa\u00e7\u00e3o do modelo norte-americano de racismo \u00e9 o custo zero de algumas \u201cpol\u00edticas p\u00fablicas\u201d. Um caso caracter\u00edstico \u00e9 o das cotas para negros, hoje abolidas nas universidades americanas, propostas no Brasil em substitui\u00e7\u00e3o a medidas realmente eficazes, como a melhoria da qualidade da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. N\u00e3o \u00e9 o or\u00e7amento da Uni\u00e3o ou o das universidades que paga a conta das cotas. \u00c9 a classe m\u00e9dia supostamente branca que cede as vagas \u00e0 classe m\u00e9dia supostamente negra; ou o favelado sertanejo nordestino, considerado \u201cbranco\u201d, que as cede ao seu vizinho; ou o irm\u00e3o mais claro, classificado como \u201cbranco\u201d que as cede ao irm\u00e3o mais escuro, considerado \u201cpardo\u201d. Como no Brasil, a classifica\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 pela cor da pele e n\u00e3o pelo \u201csangue\u201d (id\u00e9ia que est\u00e3o tentando disseminar), h\u00e1 na mesma fam\u00edlia irm\u00e3os \u201cpardos\u201d e \u201cbrancos\u201d. Os primeiros t\u00eam direito a cotas e os outros, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Pais e m\u00e3es de filhos mais ou menos morenos, sabemos que ser\u00e1 muito dif\u00edcil explicar-lhes porque s\u00f3 um irm\u00e3o tem direito a cotas nas universidades. Como ser\u00e1 muito dif\u00edcil explicar ao imigrante nordestino a raz\u00e3o pela qual seu vizinho tem direito a cotas e ele n\u00e3o. E assim, toda a sociedade ser\u00e1 fatiada por um novo crit\u00e9rio, o da contaminadora gota de sangue negro. Da\u00ed, o aparecimento de comit\u00eas de identifica\u00e7\u00e3o racial ou de leis visando a imposi\u00e7\u00e3o de documentos raciais, pois, com exce\u00e7\u00e3o das pessoas de pele muito escura, ningu\u00e9m sabe, com certeza, o que \u00e9 um \u201cnegro\u201d no Brasil. E para complicar, h\u00e1 ainda, a chamada \u201cra\u00e7a social\u201d, pois o jogador Ronaldo se considera \u201cbranco\u201d, como os demais mesti\u00e7os ricos se percebem. Mesmo o crit\u00e9rio americano da \u201cgota de sangue\u201d seria de imposs\u00edvel aplica\u00e7\u00e3o no Brasil, sem o apagamento do \u00edndio do nosso passado \u2013 um verdadeiro etnoc\u00eddio simb\u00f3lico &#8211; uma vez que nossa cor morena<br \/>\nse deve tanto a negros como a \u00edndios.<\/p>\n<p>O sistema de classifica\u00e7\u00e3o brasileiro, onde se reconhece pardos, mulatos, sarar\u00e1s, cafuzos, mamelucos, etc. dissipa o conflito, por sua ambig\u00fcidade. O sistema norte-americano, ao opor de forma absoluta, \u201cbrancos\u201d a \u201cn\u00e3o brancos\u201d estimula o conflito. Fiz pesquisa em um gueto negro nos Estados Unidos. Vivi, tamb\u00e9m, em uma comunidade branca sulista norte-americana. Nunca imaginei que pudesse existir tanto \u00f3dio ou, pelo menos, tanta indiferen\u00e7a, por raz\u00f5es raciais!<\/p>\n<p>Diferen\u00e7as \u00e9tnicas causam os mais horrorosos conflitos e guerras pelo mundo afora. N\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel que aprendizes de feiticeiro os tragam para o Brasil!<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>George de Cerqueira Leite Zarur, consultor legislativo da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara dos Deputados, publicou no O Globo de 11 de maio de 2006 o seguinte artigo sobre o tema das pol\u00edticas raciais: Estamos todos sentindo que o Brasil em que vivemos \u00e9 muito pior do que o Brasil de algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s. 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