{"id":7512,"date":"2024-11-08T16:17:44","date_gmt":"2024-11-08T19:17:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7512"},"modified":"2024-11-09T14:40:22","modified_gmt":"2024-11-09T17:40:22","slug":"ao-pe-da-lareira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/ao-pe-da-lareira\/","title":{"rendered":"Ao p\u00e9 da lareira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo,<\/em> 8 de novembro, 2024)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-11.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"800\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-11.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7533\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-11.png 800w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-11-744x744.png 744w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-11-420x420.png 420w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-11-768x768.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Gustavo Capanema quis fundar a Universidade do Brasil, na d\u00e9cada de 1930, ele abriu um concurso internacional para construir a Cidade Universit\u00e1ria. Ganhou Marcelo Piacentini, o arquiteto de Mussolini. Os perdedores, o grupo de L\u00facio Costa associado ao franc\u00eas Le Corbusier, protestaram, e acabaram recebendo como compensa\u00e7\u00e3o o projeto do edif\u00edcio do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Com a guerra, a universidade de Piacentini nunca passou da maquete. O Edif\u00edcio do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o ainda resiste, meio abandonado no caos urbano do centro do Rio de Janeiro.&nbsp; Aprendi isso quando pesquisava os arquivos de Capanema, e me fazia lembrar a &nbsp;frase de que uma universidade come\u00e7a com uma conversa informal ao p\u00e9 de uma lareira, que havia lido nos papeis que descreviam a funda\u00e7\u00e3o, cem anos antes, da Universidade da California em Berkeley, onde estive para meus estudos de doutorado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de que universidades s\u00e3o feitas por comunidades de pessoas, e s\u00f3 depois por leis e edif\u00edcios, foi o fio condutor de uma s\u00e9rie de estudos&nbsp; em que participei ao longo dos anos. Claro, elas precisam de pr\u00e9dios, equipamentos, pessoal administrativo,&nbsp; e atender \u00e0s expectativas dos estudantes, da sociedade e das profiss\u00f5es. Mas seu principal capital, que faz a diferen\u00e7a, \u00e9 o talento de seus professores e uma cultura de valoriza\u00e7\u00e3o do estudo, da pesquisa, da independ\u00eancia intelectual e da compet\u00eancia t\u00e9cnica, que desenvolvem e transmitem a seus alunos e a toda sociedade. Se isto \u00e9 verdade, ent\u00e3o os professores universit\u00e1rios formariam uma esp\u00e9cie de profiss\u00e3o das profiss\u00f5es, uma comunidade cuja identidade central seriam estes valores, que transcenderiam outras identidades institucionais, profissionais e mesmo nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe, no entanto, outra vis\u00e3o, a de que o ideal das profiss\u00f5es aut\u00f4nomas \u00e9 um mito, que elas na pr\u00e1tica s\u00e3o ou acabam sendo controladas pelas grandes burocracias p\u00fablicas e privadas. Os profissionais aut\u00f4nomos de transformariam em empregados, e as comunidades profissionais, em sindicatos de um proletariado letrado.&nbsp; Quando, na d\u00e9cada de 90, fizemos uma pesquisa sobre os professores universit\u00e1rios no Brasil, constatamos que havia, no pa\u00eds, um pequeno grupo de professores de alta forma\u00e7\u00e3o, pesquisadores, que compartilhavam os valores de autonomia e lideran\u00e7a intelectual da comunidade acad\u00eamica; um grupo bem maior, de forma\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, funcion\u00e1rios das universidades p\u00fablicas, em que prevalecia a identidade corporativa e sindical; e um terceiro grupo fragmentado, sem identidade pr\u00f3pria, trabalhando de forma prec\u00e1ria para o mercado de ensino superior privado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que aconteceu com os professores universit\u00e1rios brasileiros desde ent\u00e3o? Olhando os dados, algumas coisas chamam a aten\u00e7\u00e3o. Entre 2010 e 2023, o n\u00famero de estudantes universit\u00e1rios passou de 6 para 10 milh\u00f5es, mas o n\u00famero de professores permaneceu praticamente o mesmo, cerca de 350 mil, metade no setor p\u00fablico, metade no privado. A raz\u00e3o \u00e9 que o sistema p\u00fablico cresceu pouco, e o sistema privado aumentou sua efici\u00eancia pelo uso mais intensivo de seus professores, sobretudo atrav\u00e9s do ensino \u00e0 dist\u00e2ncia. O n\u00famero de alunos por professor no setor privado subiu de 22 para 40, enquanto, no setor p\u00fablico, permaneceu entre 10 e 12. Desapareceu, praticamente, a figura do professor horista no setor privado, substitu\u00eddo pelos contratos em tempo parcial.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-4.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"505\" height=\"330\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7519\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-4.png 505w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-4-420x274.png 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 505px) 85vw, 505px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-5.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"361\" height=\"259\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-5.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7520\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois, os professores ficaram mais velhos e mais qualificados. Esta \u00e9 a tend\u00eancia geral, mas existem grandes diferen\u00e7as por setor. No setor privado, a propor\u00e7\u00e3o de professores de 40 anos ou menos passou de 46% para 35%. Nas universidades federais, de 37% para 26%; e nas universidades paulistas, de 16% para 9%. A propor\u00e7\u00e3o de professores com doutorado passou de 56% para 75% no sistema federal, de 15% para 33% no sistema privado, e permaneceu acima de 95% no sistema paulista.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-6.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"361\" height=\"284\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-6.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7521\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, a posi\u00e7\u00e3o relativa dos professores universit\u00e1rios em termos renda piorou. Para demonstrar essa mudan\u00e7a, comparei tr\u00eas rendas m\u00e9dias: a das pessoas com educa\u00e7\u00e3o superior em geral, a dos professores universit\u00e1rios do sistema privado e a dos professores do sistema p\u00fablico, todas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda m\u00e9dia do pa\u00eds. A an\u00e1lise foi feita com dados de dois anos: 2012 e 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, tomando a renda m\u00e9dia do pa\u00eds em cada ano como refer\u00eancia (igual a 100), em 2012, as pessoas com diploma universit\u00e1rio ganhavam, em m\u00e9dia, 253% da renda nacional \u2014 mais do que duas vezes e meia a m\u00e9dia do pa\u00eds. Professores universit\u00e1rios do setor privado recebiam 300%, e os do setor p\u00fablico, 400%. J\u00e1 em 2023, essas propor\u00e7\u00f5es ca\u00edram para 202%, 268% e 357%, respectivamente, conforme os dados da PNAD.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa redu\u00e7\u00e3o indica um enfraquecimento da vantagem salarial tanto para os portadores de diploma quanto, em maior medida, para os professores universit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-7.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"361\" height=\"257\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/image-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7522\" style=\"width:477px;height:auto\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 com estes dados n\u00e3o d\u00e1 para dizer quanto ainda persiste, entre eles, o modelo das comunidades profissionais aut\u00f4nomas, das corpora\u00e7\u00f5es profissionais ou dos sindicatos. Mas temos indica\u00e7\u00f5es, por&nbsp; outros lados, que o prest\u00edgio dos professores tem ca\u00eddo e sua autoridade, e da ci\u00eancia que incorporam, contestada. No setor privado h\u00e1 um processo de profissionaliza\u00e7\u00e3o fragmentada que parece se consolidar: os professores trabalham mais, ganham menos, n\u00e3o t\u00eam estabilidade no trabalho,&nbsp; e formam um \u201cprecariado\u201d que n\u00e3o consegue se organizar para defender seus interesses. No setor p\u00fablico, com a maior qualifica\u00e7\u00e3o, envelhecimento e a perda relativa de vantagens, podemos entender que prevale\u00e7a entre muitos uma atitude defensiva e de ressentimento, mais do que a de uma profiss\u00e3o aut\u00f4noma e altiva. E mal temos lareiras para nos sentarmos a seu p\u00e9 para conversar.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 8 de novembro, 2024) Quando Gustavo Capanema quis fundar a Universidade do Brasil, na d\u00e9cada de 1930, ele abriu um concurso internacional para construir a Cidade Universit\u00e1ria. Ganhou Marcelo Piacentini, o arquiteto de Mussolini. 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