{"id":7548,"date":"2025-01-10T07:57:19","date_gmt":"2025-01-10T10:57:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7548"},"modified":"2025-01-10T08:00:43","modified_gmt":"2025-01-10T11:00:43","slug":"velhos-e-novos-doutorados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/velhos-e-novos-doutorados\/","title":{"rendered":"Velhos e novos doutorados"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(publicado em O <em>Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 9 de janeiro de 2015)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O novo modelo de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo introduzido pelas universidades paulistas, facilitando a passagem do mestrado para o doutorado, \u00e9 muito bem-vindo,&nbsp; embora mais t\u00edmido do que poderia ser e sem uma considera\u00e7\u00e3o adequada, me parece, das diferen\u00e7as de prop\u00f3sito dos programas de mestrado e doutorado, fruto da maneira pela qual os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o foram criados e se desenvolveram no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a Universidade de S\u00e3o Paulo foi criada em 1934, ela trouxe da Europa a institui\u00e7\u00e3o do doutorado, em que um candidato, querendo se dedicar \u00e0 carreira de ensino e pesquisa, desenvolvia um projeto sob a orienta\u00e7\u00e3o de um professor catedr\u00e1tico. Para prosseguir na carreira, era preciso, depois, fazer uma tese de livre-doc\u00eancia, e finalmente de professor titular, quando havia vaga. A reforma universit\u00e1ria de 1968 trouxe para o Brasil um modelo totalmente diferente, o das <em>graduate schools<\/em> americanas, com cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o organizados em unidades administrativas pr\u00f3prias, com curr\u00edculos organizados e sistemas regulares de avalia\u00e7\u00e3o dos candidatos. Nas g<em>raduate schools<\/em>, a sele\u00e7\u00e3o dos estudantes \u00e9 feita pelos departamentos, e n\u00e3o pelos professores, e s\u00f3 depois de um per\u00edodo inicial de estudos&nbsp; e exames \u00e9 que eles definem um projeto de tese e s\u00e3o formalmente promovidos a candidatos ao doutorado, a\u00ed sim sob a orienta\u00e7\u00e3o de um professor. As duas grandes vantagens do sistema americano, que come\u00e7ou a ser introduzido no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 e hoje \u00e9 adotado em todo o mundo, \u00e9 que os doutores se formam com uma base de conhecimentos muito mais ampla, e em muito maior n\u00famero do que no sistema artesanal europeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A&nbsp; dificuldade para a ado\u00e7\u00e3o do modelo americano no Brasil foi que a USP era, na \u00e9poca, a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o com capacidade de dar t\u00edtulos de doutorado, mas no modelo europeu, enquanto as universidades federais, em sua quase totalidade, no m\u00e1ximo conseguiam reunir massa cr\u00edtica para organizar cursos iniciais de mestrado.&nbsp; Aos poucos, a USP foi se adaptando ao novo modelo, organizando programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e instituindo mestrados como etapa inicial de forma\u00e7\u00e3o, enquanto as demais universidades, tamb\u00e9m aos poucos, foram se capacitando para criar programas de doutorado pr\u00f3prios. O resultado \u00e9 que os mestrados, que deveriam ser cursos curtos de complementa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o especializada para o mercado de trabalho, como em todo o mundo, se transformaram, no Brasil, em pr\u00e9-requisitos para os doutorados, ou mini doutorados destinados a suprir a car\u00eancia de professores qualificados nas universidades p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as virtudes da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e3o que ela p\u00f4de contar, desde o in\u00edcio, com um sistema de avalia\u00e7\u00e3o dos cursos organizado pela CAPES; que os cursos s\u00e3o gratuitos; e que boa parte dos alunos recebem bolsas de estudo para se manter.&nbsp; Com o tempo, o sistema foi crescendo, e come\u00e7aram a surgir os problemas: os alunos que o faziam demoravam demais em completar os doutorados, e as avalia\u00e7\u00f5es da CAPES eram demasiado acad\u00eamicas. Apesar disso os mestrados, na pr\u00e1tica, foram se aproximando do modelo do resto do mundo, de forma\u00e7\u00e3o complementar ao ensino de gradua\u00e7\u00e3o, em que os estudantes est\u00e3o mais interessados em obter uma melhor coloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho do que completar o doutorado com a perspectiva de se seguir uma carreira de professor universit\u00e1rio e pesquisador. A CAPES tentou lidar com isso criando os mestrados e doutorados profissionais e modificando o sistema de avalia\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que se criou um grande mercado privado e n\u00e3o regulado de cursos de MBA e especializa\u00e7\u00e3o, hoje tr\u00eas vezes maior do que o de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o estrito senso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O novo modelo das universidades paulistas pretende lidar com estes problemas facilitando a passagem do mestrado para o doutorado ap\u00f3s um primeiro ano de cursos gerais e de empreendedorismo, dando bolsas mais robustas para os alunos selecionados para o doutorado ap\u00f3s este primeiro ano, e uma forma\u00e7\u00e3o complementar a n\u00edvel de mestrado para os demais. O modelo \u00e9 t\u00edmido porque ele poderia, simplesmente, facilitar o recrutamento de estudantes de doutorado diretamente dos cursos de gradua\u00e7\u00e3o, deixando o projeto de tese para ap\u00f3s um per\u00edodo inicial de forma\u00e7\u00e3o, como nas <em>graduate schools <\/em>americanas; e peca por dar a entender que os mestrados seriam, simplesmente, pr\u00eamios de consola\u00e7\u00e3o para os que n\u00e3o conseguissem entrar nos doutorados, e n\u00e3o uma alternativa de forma\u00e7\u00e3o v\u00e1lida em seus pr\u00f3prios termos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E peca tamb\u00e9m, me parece, por pretender que a quest\u00e3o do pouco v\u00ednculo das universidades e programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pesquisa brasileiros com o setor produtivo possa ser resolvida com cursos de empreendedorismo ou mudan\u00e7as de curr\u00edculo de um tipo ou outro, quando a dificuldade est\u00e1, sobretudo, na falta de competitividade e est\u00edmulo \u00e0 inova\u00e7\u00e3o da economia brasileira, fechada e protegida como \u00e9. Com ou sem\u00a0 cursos deste tipo, se houver demanda por inova\u00e7\u00e3o, e os profissionais tiverem forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida em suas \u00e1reas de informa\u00e7\u00e3o, ela vir\u00e1. Se n\u00e3o houver, n\u00e3o ser\u00e3o cursos de empreendedorismo ou mudan\u00e7as pedag\u00f3gicas que far\u00e3o a diferen\u00e7a.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 9 de janeiro de 2015) O novo modelo de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo introduzido pelas universidades paulistas, facilitando a passagem do mestrado para o doutorado, \u00e9 muito bem-vindo,&nbsp; embora mais t\u00edmido do que poderia ser e sem uma considera\u00e7\u00e3o adequada, me parece, das diferen\u00e7as de prop\u00f3sito dos programas &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/velhos-e-novos-doutorados\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Velhos e novos doutorados&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-7548","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7548","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7548"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7548\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7551,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7548\/revisions\/7551"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7548"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7548"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7548"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}