{"id":7591,"date":"2025-04-11T06:25:53","date_gmt":"2025-04-11T09:25:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7591"},"modified":"2025-04-11T06:28:34","modified_gmt":"2025-04-11T09:28:34","slug":"o-novo-sputnik","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-novo-sputnik\/","title":{"rendered":"O novo Sputnik"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 11 de abril de 2025)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1957, os Estados Unidos tomaram um susto quando souberam que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica havia lan\u00e7ado o primeiro sat\u00e9lite ao espa\u00e7o, indicando que o sistema de ci\u00eancia e tecnologia sovi\u00e9tico poderia ter superado o americano.&nbsp; A superioridade americana que havia se consolidado depois da Segunda Guerra se apoiava em pelo menos tr\u00eas pilares. Primeiro, na <em>big science<\/em>, a capacidade de investir e coordenar conhecimentos, recursos humanos e materiais em grande escala, no projeto da bomba at\u00f4mica e, mais amplamente, na tecnologia militar. Segundo, na pol\u00edtica apoio \u00e0s ci\u00eancias em todos os seus aspectos, estabelecida no documento liderado por Vanenevar Bush que ficou conhecido como <em>Science, the Endless Frontier,<\/em> que inclu\u00eda desde o apoio \u00e0 pesquisa b\u00e1sica nas ci\u00eancias naturais, sociais e humanidades, sem objetivos imediatos, com destaque para a pesquisa universit\u00e1ria e institui\u00e7\u00f5es como a <em>National Science Foundation<\/em>, at\u00e9 a ci\u00eancia aplicada na \u00e1rea da sa\u00fade e outras. E terceiro, no fortalecimento da coopera\u00e7\u00e3o entre universidades, governo e ind\u00fastria, que consolidou os Estados Unidos como o pa\u00eds mais avan\u00e7ado na pesquisa, na produtividade econ\u00f4mica e na educa\u00e7\u00e3o superior, atraindo talentos de todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como explicar que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tivesse passado \u00e0 frente? O que os russos fizeram foi levar ao extremo um modelo extremamente concentrado e centralizado de investimento de recursos e talentos em seus projetos militares de <em>big science<\/em>, provavelmente em escala semelhante \u00e0 americana, mas sem seus dois outros componentes, um sistema universit\u00e1rio aberto e vigoroso e um setor produtivo independente capaz de absorver e multiplicar as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que surgiam. O fracasso da pesquisa agr\u00edcola, sufocada pela recusa ideol\u00f3gica em aceitar os avan\u00e7os da pesquisa gen\u00e9tica mendeliana, deixou claro seus limites.&nbsp; A rea\u00e7\u00e3o americana ao choque do Sputnik foi refor\u00e7ar a pol\u00edtica de ci\u00eancia sem limites, e em pouco tempo o pa\u00eds havia n\u00e3o somente superado a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica na corrida espacial, como consolidado sua lideran\u00e7a nos outros dois componentes, como uma sociedade aberta e plural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O novo Sputnik surgiu aos poucos, com o inesperado sucesso da ind\u00fastria japonesa nos anos 70, e depois da&nbsp; Coreia do Sul, at\u00e9 a d\u00e9cada de 90. De repente, os americanos perceberam n\u00e3o s\u00f3 que as f\u00e1bricas japonesas e coreanas de eletr\u00f4nicos e depois autom\u00f3veis eram mais eficientes, como que seus produtos eram melhores, e a custos muito mais baixos. Diferente dos Estados Unidos, os novos \u201ctigres asi\u00e1ticos\u201d investiam quase nada em ci\u00eancia b\u00e1sica, e suas universidades se dedicavam sobretudo \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos especializados. Ao inv\u00e9s de grandes projetos estatais, desenvolviam forte parceria entre o governo e conglomerados de empresas privadas no desenvolvimento de ind\u00fastrias de bens de consumo para o mercado internacional. No in\u00edcio, os americanos tentaram copiar os m\u00e9todos dos asi\u00e1ticos, como por exemplo na ado\u00e7\u00e3o de sistemas de produ\u00e7\u00e3o <em>just-in-time<\/em> e c\u00edrculos de qualidade, mas aos poucos foram entendendo que a melhor alternativa era estabelecer parcerias comerciais e industriais com estas economias em ascens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 com a China, a partir da d\u00e9cada de 2000, que o novo Sputnik mostra sua for\u00e7a. Igual \u00e0 antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e os Estados Unidos, ela desenvolve uma ci\u00eancia estatal de grande porte na \u00e1rea militar, espacial e de infraestrutura. Igual aos tigres asi\u00e1ticos, abre espa\u00e7o para um setor empresarial privado que se beneficia de parcerias e apoio governamental para produzir em grande escala para o mercado internacional,&nbsp; com produtividade&nbsp; e qualidade crescentes. E, igual aos Estados Unidos do p\u00f3s-guerra, expande seus investimentos em educa\u00e7\u00e3o superior e pesquisa b\u00e1sica em quantidade e qualidade. No in\u00edcio, como com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no passado, os Estados Unidos imaginaram que o sucesso da China se devia \u00e0 espionagem e pirataria da tecnologia americana. Hoje \u00e9 obvio que, ainda que isto possa ter existido, e que os Estados Unidos ainda mantenham a lideran\u00e7a em muitas \u00e1reas de alta tecnologia, a China j\u00e1 \u00e9 a pot\u00eancia dominante em produ\u00e7\u00e3o industrial e em muitas \u00e1reas de tecnologia aplicada, sem falar em sua consolida\u00e7\u00e3o como pot\u00eancia militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desta vez, no entanto, ao inv\u00e9s refor\u00e7ar suas qualidades e procurar se integrar a um novo cen\u00e1rio internacional mais competitivo, o\u00a0 que vemos por parte dos governos americanos \u00e9 uma dupla rea\u00e7\u00e3o negativa. Por um lado, fechar sua economia e tentar reprimir a expans\u00e3o da China, negando acesso a tecnologias avan\u00e7adas e impondo barreiras a seus produtos. Por outro, internamente, concentrando poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico em alguns segmentos do setor privado, \u00e0s custas tanto do sistema nacional de pesquisa e desenvolvimento quanto das universidades, que perdem sua autonomia intelectual, gerencial e financeira. Do antigo e imbat\u00edvel trip\u00e9 de governo, universidade e empresas, parece que s\u00f3 restar\u00e1 parte destas \u00faltimas. Ao inv\u00e9s de uma sociedade aberta e plural, o totalitarismo ideol\u00f3gico. \u00c9 dif\u00edcil imaginar que com isto seja poss\u00edvel fazer a Am\u00e9rica grande de novo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 11 de abril de 2025) Em 1957, os Estados Unidos tomaram um susto quando souberam que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica havia lan\u00e7ado o primeiro sat\u00e9lite ao espa\u00e7o, indicando que o sistema de ci\u00eancia e tecnologia sovi\u00e9tico poderia ter superado o americano.&nbsp; A superioridade americana que havia se consolidado depois &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-novo-sputnik\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O novo Sputnik&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[16,12],"tags":[],"class_list":["post-7591","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia-e-tecnologia","category-politica-internacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7591","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7591"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7591\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7594,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7591\/revisions\/7594"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7591"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7591"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7591"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}