{"id":7614,"date":"2025-05-09T06:30:11","date_gmt":"2025-05-09T09:30:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7614"},"modified":"2025-05-09T06:30:19","modified_gmt":"2025-05-09T09:30:19","slug":"o-futuro-da-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-futuro-da-universidade\/","title":{"rendered":"O Futuro da universidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo, 9 de maio de 2025)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o deve ter sido por acaso que,&nbsp; na mesma semana, fui convidado para dois semin\u00e1rios sobre o mesmo tema, o futuro da universidade. A primeira coisa que digo sobre isto \u00e9 que \u201ca universidade\u201d n\u00e3o existe, o que existe s\u00e3o milhares de institui\u00e7\u00f5es diferentes, desde grandes universidades com pesquisa, cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e milhares de estudantes, geralmente p\u00fablicas, at\u00e9 gigantescas empresas com centenas de milhares de estudantes em cursos \u00e0 dist\u00e2ncia, passando por um sem-n\u00famero de pequenas faculdades isoladas com cursos noturnos em educa\u00e7\u00e3o, administra\u00e7\u00e3o ou sa\u00fade. Existem as p\u00fablicas, gratuitas e financiadas pelo governo federal e alguns estados, e as privadas, algumas religiosas ou de orienta\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, e a grande maioria com fins de lucro.&nbsp; Estamos falando de que?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas existe tamb\u00e9m, na cabe\u00e7a das pessoas, uma ideia difusa de \u201cuniversidade\u201d como um lugar para onde os jovens v\u00e3o no in\u00edcio da vida adulta, aprofundam seus conhecimentos, vivem a cultura da juventude,&nbsp; criam redes de relacionamento que v\u00e3o levar para toda a vida, e adquirem uma profiss\u00e3o que vai lhes dar um lugar seguro e muito mais rent\u00e1vel do que o de seus pais, se de fam\u00edlias mais pobres, ou semelhante aos deles, se de fam\u00edlias mais ricas e educadas. Quando milh\u00f5es de jovens, todo ano, se inscrevem no ENEM, \u00e9 esta ideia que est\u00e3o perseguindo, embora saibam que poucos conseguir\u00e3o a nota necess\u00e1ria para entrar em uma carreira de prest\u00edgio em uma boa universidade. Quando, depois, muitos dos que sobraram se inscrevem em cursos&nbsp; baratos \u00e0 dist\u00e2ncia, onde \u00e9 mais f\u00e1cil conseguir um diploma, \u00e9 ainda a ilus\u00e3o das carreiras universit\u00e1rias que perseguem, embora&nbsp; a maioria acabe abandonando os cursos ou s\u00f3 consiga um trabalho prec\u00e1rio e mal pago.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A incerteza sobre o futuro da universidade \u00e9 a incerteza \u00a0crescente sobre esta ideia difusa, que reflete a incerteza sobre o futuro do pa\u00eds. Apesar das imensas desigualdades, predominava no Brasil at\u00e9 recentemente a sensa\u00e7\u00e3o de que as coisas iam melhorar para todos, que amanh\u00e3 seria melhor do que hoje, que a vida de nossos filhos seria melhor do que a nossa.\u00a0 Esta sensa\u00e7\u00e3o vinha da grande mobilidade econ\u00f4mica que social durou, com altos e baixos, at\u00e9 dez anos atr\u00e1s, e que se interrompeu com a crise econ\u00f4mica e a desilus\u00e3o com\u00a0 governos, partidos pol\u00edticos e institui\u00e7\u00f5es. Investir a longo prazo em uma carreira, esquentar a cadeira aprofundando conhecimentos, construir uma reputa\u00e7\u00e3o profissional pelo trabalho s\u00e9rio e respons\u00e1vel, tudo isto perde sentido quando comparado com a fascina\u00e7\u00e3o do estrelismo prometido pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, o enriquecimento pela tacada de um grande neg\u00f3cio ou os n\u00fameros corretos na Mega Sena, e as certezas simples de entender disseminadas pelos influenciadores da Internet.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que mais se ouve, conversando com professores universit\u00e1rios, \u00e9 como os estudantes de hoje s\u00e3o ap\u00e1ticos, mal cumprem as obriga\u00e7\u00f5es escolares, e s\u00e3o muito mais ligados a suas redes de Internet do que ao que dizem seus professores. Pesquisas mostram que um ter\u00e7o dos jovens, no Brasil, gostariam de mudar para outro&nbsp; pa\u00eds. Existem hoje mais de 4 milh\u00f5es de brasileiros no exterior, comparado com 3 milh\u00f5es dez anos atr\u00e1s e menos de um milh\u00e3o no ano 2000.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A incerteza, no entanto, vai al\u00e9m da estagna\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e da apatia da juventude. A ideia de que as universidades, primeiro as p\u00fablicas, depois as privadas, se aproximariam ao modelo tradicional, e que seriam acess\u00edveis a todos, est\u00e1 cada vez mais distante, com 80% das matr\u00edculas em institui\u00e7\u00f5es privadas e mais da metade em cursos \u00e0 dist\u00e2ncia.&nbsp; Institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas mal conseguem recursos para pagar sal\u00e1rios a seus professores e manter os pr\u00e9dios que ocupam.&nbsp; Poucas conseguem manter pesquisa e programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de qualidade, e a dist\u00e2ncia entre a pesquisa brasileira e a dos pa\u00edses de ponta s\u00f3 aumenta. No setor privado, o espa\u00e7o das institui\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e religiosas, criadas com a inten\u00e7\u00e3o de influenciar a sociedade com seus valores, vem diminuindo, na concorr\u00eancia com os grandes conglomerados de ensino que dificilmente v\u00e3o al\u00e9m de cursos empacotados nas profiss\u00f5es sociais mais simples e baratas de ministrar. E, com os nov\u00edssimos recursos da intelig\u00eancia artificial, ningu\u00e9m sabe mais o que, como e para qu\u00ea ensinar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As institui\u00e7\u00f5es de ensino superior, em suas diversas formas e com todas as suas dificuldades, n\u00e3o v\u00e3o desaparecer, porque o mundo depende cada vez mais de conhecimentos e compet\u00eancias, e a capacita\u00e7\u00e3o intelectual e profissional continuar\u00e1 sendo a grande porta de entrada para a vida dos pa\u00edses, institui\u00e7\u00f5es e pessoas. Elas precisam, no entanto, se reinventar. Esta reinven\u00e7\u00e3o passa por novos tipos e cursos e carreiras, novas formas de ensinar, novas maneiras de buscar recursos, e novos e mais relevantes temas para pesquisar. Para isto, elas contam com um recurso precioso, que \u00e9 o capital intelectual de seus professores e a tradi\u00e7\u00e3o de autonomia e aud\u00e1cia intelectual que muitas vezes acabaram perdendo, pelo peso da rotina, da burocracia ou dos resultados de curto prazo. \u00c9 por a\u00ed que passa o futuro, se ele n\u00e3o trouxer mais desilus\u00f5es.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 9 de maio de 2025) N\u00e3o deve ter sido por acaso que,&nbsp; na mesma semana, fui convidado para dois semin\u00e1rios sobre o mesmo tema, o futuro da universidade. 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